Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

A chatice da gourmetização

Feijão virou comida de pobre, de povão, não faz parte do mundo gourmetizado. E se você nunca provou o azeite de alecrim defumado do Sri Lanka, você não é ninguém na hora do Brasil.


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O feijão nosso de cada dia nos dai hoje...

Só orando, mesmo, para o feijão voltar para o prato do mundo gourmetizado.

O mulatinho, pobre grãozinho, virou alimento non grato nos restaurantes.

O branco, vira e mexe, dá as caras no acompanhamento de alguma muquequinha sem graça; o preto, em alguma feijoada de branco (sem rabo, orelha, joelho). Mas o mulatinho? Sumiu, ninguém viu.

Feijão virou comida de pobre, de povão, no máximo pode ser comido em casa - na rua, nos grandes restaurantes, nem pensar.

Há não muito tempo, "comer fora" era sinônimo de quebrar a rotina, passear, variar o cardápio, experimentar coisas diferentes.

Hoje é efeito colateral de falta de tempo e/ou preguiça de cozinhar, necessidade e, claro, ostentação (leia-se: gourmetização).

Afinal, descobrir onde se faz a melhor massa, o melhor falafel, o melhor risoto, a melhor bruscheta, a melhor ostra, virou status quo.

Seguindo o raciocínio de Danuza Leão, "hoje em dia qualquer pessoa viaja para o exterior", as grandes grifes de roupas produzem edições mais baratas para lojas de departamento, smartphones e carros podem ser parcelados em 24 suaves prestações; no Instagram todo mundo "é" rico, ou seja, fez-se necessário inventar um novo status e a ele deu-se o nome de gourmetização.

O que isso quer dizer? Quer dizer que se você nunca comeu as duas folhas caríssimas de alface fritas no azeite defumado com alecrim do Sri Lanka, esquece, bebê, você não é ninguém na hora do Brasil.

E os cardápios? A descrição "poética" dos cardápios atuais é risível. Outro dia, num restaurante afamado de São Paulo, li: "batatas bravas amassadas à moda árabe com cebolas caramelizadas". Pedi. Quando o prato chegou nada mais era do que um purê de batatas mal feito, todo empelotado (o da vovó dá de dez a zero) com umas cebolas fritas por cima.

Detalhe: como todo prato gourmet, o purê custou uma pequena fortuna.

Ah, não podemos esquecer, claro, dos gourmets "do bem", a rapaziada que se acha nutricionista e vive dando dicas para os amigos de receitas com chia, goji berry, ágar-ágar e afins e que não abre mão dos orgânicos.

Comer (atualmente e aparentemente) não tem mais nada a ver com se alimentar, nutrir o corpo, saciar a fome, saborear pratos, partilhar momentos bons com quem se ama. Tem a ver com status: você é o que você come e se você come comidinhas gourmet então você é pop, descolado, antenado, rico.

Da gourmetização confesso gostar dos ambientes. Sou louca por decoração, me alegra os olhos e a alma estar em ambientes onde iluminação, talheres, louças, guardanapos, flores, velas e quadros se harmonizam. Porém, em relação à comida, admito que essa frescura toda de "batatas bravas amassadas à moda árabe" me cansa e que às vezes sinto falta de um bom prato de arroz com feijão.

O grande paradoxo em relação ao feijão - que não compreendo - é: o feijão deixou de ser comida do dia-a-dia, comida habitual, pois quem come na rua o faz por necessidade, preguiça de cozinhar ou falta de aptidão, o que quer dizer que o argumento "comer pratos diferentes" quando se almoça ou se janta fora de casa não se aplica ao feijão, uma vez que ele sumiu (talvez nunca tenha estado) nos restaurantes.

Ainda é possível encontrá-lo em cumbucas tímidas em alguns self-services da vida, no entanto, mesmo assim, ele costuma ser rejeitado - o "ideal" em tempos de dieta é comer apenas um grelhado com salada.

O feijão é rico em cálcio, ferro, fósforo, potássio e fibras. Faz um bem danado pra saúde e quando bem temperadinho tem cheirinho de infância e carinho de vó. Além disso, sempre foi uma das marcas da alimentação brasileira.

Então, por que, por que, santo Deus, os chefes modernetes passaram a renegá-lo tanto?

Adoraria ver os master-chefes da vida criando receitas com algo bem simples: feijão.

Será que eles conseguem?

Falando nisso

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(imagem: google)


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Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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