Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Carta aberta a Maria Ribeiro: sobre a "deficiência" de caráter dos vegetarianos

Resposta a Maria Ribeiro, atriz e apresentadora do programa Saia Justa, sobre a "deficiência de caráter" dos vegetarianos.


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Essa semana minha réstia de boa vontade com o programa Saia Justa, do canal GNT, secou. Ouvir de Maria Ribeiro que "quem não come carne tem defeito de caráter" foi demais para mim.

Tentando ser descolada, tentando ostentar um humor britânico (que ela acha que tem, sic, sic, sic), tentando encarnar o papel da garota enxaqueca que não gosta de nada e que assume a própria infantilidade - o que, convenhamos, é ultrapassado e cafona - Maria foi desrespeitosa e, ao menos para mim, reconheceu firma de sua arrogância e superficialidade.

Pois saiba, querida Maria, que muitas das pessoas que não comem carne o fazem por amor incondicional aos bichos e amar incondicionalmente os bichos é um sinal de respeito às minorias - afinal, nem todo animal pode se defender do bicho homem -, à natureza, à vida.

Uma das definições da palavra "caráter" é: "p.ext. firmeza moral, coerência nos atos; honestidade".

Nesse sentido a pessoa que não come carne tem um caráter bastante sólido - não acha? -, uma vez que ostenta uma firmeza moral tamanha para driblar seus desejos em prol de uma causa nobre e coerência nos seus atos.

Ah, mas você estava brincando. Ah, mas as pessoas hoje em dia não entendem ironia. Ah, mas o mundo politicamente correto anda um saco.

Sim, querida, o mundo politicamente correto anda um saco, acho lamentável quando as pessoas não entendem o que é uma ironia e sou totalmente a favor da liberdade de expressão, mas convenhamos que fazer piada na TV sugerindo que quem não pensa/age como você não tem caráter é no mínimo egocêntrico.

Sou vegetariana desde criança - ou melhor, ovo-lacto-vegetariana - e nunca, em tempo algum, julguei os carnívoros. Nunca fiz campanha nem peguei no pé de quem come carne, tampouco saio dizendo por aí que os que comem em churrascaria têm defeito de caráter.

Para mim cada um tem o direito de se alimentar como quiser e isso não define o caráter de ninguém.

Além disso, entendo que existe uma questão cultural muito forte referente ao consumo de carnes, e muita falta de informação. Por isso, inclusive, pessoas que amam incondicionalmente os bichos muitas vezes não conseguem deixar de consumi-los.

Uma das frases que mais escuto quando digo que sou "vegan" é: "Mas o que você come"? - como se carne fosse o único alimento do mundo. Quando falo sobre o meu cardápio e minha saúde impecável a maioria das pessoas arregala os olhos.

Outras tantas ainda acreditam que somente a carne possui os nutrientes que o corpo precisa e insistem nessa máxima, por mais que zilhões de especialistas tenham provado o contrário - que dispomos hoje de outras opções que nada têm a ver com a soja (produção que causa desmatamento e desequilíbrio no ecossistema). E há, também, os que simplesmente amam carne, são viciados, consideram o alimento mais saboroso do mundo e não se imaginam vivendo sem ela.

Por esses motivos vou julgar essas pessoas? Vou considerá-las portadoras de caráter duvidoso?

Jamais faria isso! Primeiro porque acredito na liberdade de escolha de cada indivíduo. Segundo porque entendo que nossas escolhas, todas elas - inclusive as alimentares - são fruto do meio em que vivemos, das nossas experiências e também da nossa herança genética.

Sem falar que existe toda uma indústria milionária (alô, Friboi) que incentiva paulatinamente o consumo de carne. Ou seja, a questão do consumo de carnes vai muito além de caráter, cara Maria Ribeiro. Caso queira se aprofundar um pouco mais no assunto, sugiro o documentário Terráqueos, de Shaun Monson e Persia White.

Seria ótimo para o planeta se o consumo ao menos fosse reduzido - os rios, que acabam contaminados com a urina repleta de remédios e hormônios dos animais, bem como a camada de ozônio, que sofre com os puns dos bois, agradeceriam. Os bichos que não precisariam ser submetidos à dor, então...

Faço a minha parte. O que acredito. O que gosto. O que prefiro. O que minha consciência manda em relação à minha alimentação. Mas respeito veementemente quem faz escolhas diferentes das minhas e não acredito que devo impor o meu modo de vida a ninguém, nem julgar ao próximo.

Você disse que jamais conseguiria viver com um vegetariano. Uma pena, querida Maria, pois você poderia aprender uma porção de coisas com eles e ampliar seus horizontes (não apenas alimentares). Os vegetarianos que conheço em geral são pessoas sensíveis, bem humoradas, cultas, inteligentes, curiosas. Os que não conheço, idem - segue uma pequena listinha: Albert Einstein, Allen Ginsberg, Gaudí, Carmem Miranda, Charles Darwin, Franz Kafka, H.G. Wells, Jiddu Krishnamurti, Leonardo da Vinci, Morrissey, Paul McCartney, Voltaire, Yoko Ono... Conheça a lista com mais 500 nomes.

Ao contrário de você, eu adoraria poder ter convivido com todas essas pessoas "de caráter duvidoso".

No mais, se minha falta de apetite para o Saia Justa já era grande, agora tornou-se inexistente. Viva o Netflix.

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(imagens: google)


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Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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