Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Alguns fatores emocionais que impedem a perda de peso

Você está fazendo "tudo certo". Cortou glúten, lactose, açúcar e álcool. Matriculou-se numa academia, mas, mesmo assim, não consegue perder peso ou a perda é tão lenta que acaba desanimando. Conheça as possíveis causas emocionais inconscientes que podem estar atrapalhando seu processo de emagrecimento.


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Dia desses, assistindo ao programa Papo de Segunda, no canal GNT, o apresentador Marcelo Tas lançou a seguinte pergunta: "O que te faria 10% mais feliz"?

Não demorou muito para que aparecesse a seguinte resposta no Twitter: "10 kg a menos me faria mais feliz".

Fiquei pensando cá com meus botões: será?

Ou será que depois de 10 kg perdidos seriam necessários 10 cm a mais de cabelos, 50% menos de flacidez, 90% menos de celulite, 100% de dentes mais brancos, 0% de linhas de expressão?

A insatisfação com a nossa imagem, ao contrário do que muitos afirmam, não é fruto do bombardeio da mídia – que reforça padrões estéticos de beleza inalcançáveis –, mas da nossa necessidade de aceitação e do nosso terror de sermos abandonados.

A publicidade apenas captou isso e usou a seu favor, criando produtos "mágicos" – e agora estilo de vida – de consumo que prometem nos colocar no padrão vigente, garantindo, assim, que sejamos socialmente aceitos, amados e jamais abandonados. Balela.

A rejeição faz parte da vida e é preciso aprender a lidar com ela. O abandono, também – não fosse assim, as pessoas magras, com cabelos de comercial de shampoo, pele lisinha, dentes brancos e zero celulite – ficariam casadas mil anos com o mesmo parceiro, jamais teriam sofrido desilusão amorosa ou não estariam solteiras.

Acontece que para sermos aceitos precisamos nos aceitar primeiro. Parece frase de biscoito chinês, eu sei, mas o óbvio tem lá suas razões. E aceitar-se pouco tem a ver com amar a imagem no espelho.

Aceitar-se tem a ver com se conhecer. Reconhecer, amar e reforçar as próprias qualidades. Reconhecer, acolher (perdoar) e transformar os próprios defeitos. Saber quais são nossas crenças – no que acreditamos de fato e no que acreditamos apenas porque nos disseram/ensinaram. Saber o que tem valor para nós e o que não tem. Olhar nossos medos de frente e encará-los. Questionar velhas culpas e abandoná-las. Ser mais gentil com nós mesmos e rir dos próprios tropeços.

Vejo tantas meninas lindas, por aí, sofrendo por estarem acima do peso. Mas vejo outras tantas, também, que pouco se importam com o número na balança e exibem suas curvas com orgulho, andam de cabeça erguida, altivas – e são imensamente mais sedutoras que muitas meninas magérrimas. O que as difere? A autoconfiança – ao menos para mim não existe nada mais afrodisíaco e sedutor que inteligência somada à autoconfiança – característica que nada tem a ver com o corpo.

E foi pensando nessas gurias lindas, que apesar de serem maravilhosas vivem atormentadas com seus corpos e não entendem por que não conseguem emagrecer apesar de estarem fazendo "tudo certo", que escrevi as reflexões abaixo. Se você é gordinha e está em paz com seu peso, comemore, continue divando por aí e nem precisa ler a parte II deste texto. Mas se você está acima do peso que gostaria, não consegue aceitar essa condição (o que é um direito seu, afinal cada um sabe o que é melhor para si), todavia nota que seus esforços quase sempre acabam dando em nada, talvez a segunda parte do texto possa ajudá-la.

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POR QUE NÃO CONSIGO EMAGRECER?

Você faz dieta – ops, essa palavra está fora de moda – ou melhor, reeducação alimentar. Acessa vídeos no YouTube e sites sobre alimentação saudável. Corta glúten, lactose, açúcar, álcool. Vai ao nutricionista e ao endocrinologista. Entra numa loja de produtos naturais e compra chia, chá-verde, goji berry. Lê tudo sobre alimentos termogênicos e inclui todos eles na alimentação: gengibre, pimenta, canela, etc. Toma água morna com limão ao acordar. Possui potes e mais potes de sopa no congelador. Ingere uma colher de óleo de coco todos os dias para regular o apetite. Mesmo detestando academia se matricula numa, ou compra um par de tênis para começar a caminhar.

Você de fato está empenhada em sua perda de peso, mas apesar de estar fazendo "tudo certo", você não perde peso ou a perda é tão lenta que você acaba desanimando e chutando o pau da barraca – colecionando, assim, mais uma "derrota" nessa guerra contra a balança. Amargando um sentimento de fracasso.

Para além dos vilões que impedem a perda de peso – que todos sabemos perfeitamente quais são, mas fingimos não saber, como bebida alcóolica, massas e pães, "um docinho de vez em quando" e "dia do lixo" excessivamente lixo - existe o fator emocional (pouco levado em conta).

Em geral, os profissionais dessa área quando são procurados atentam apenas para o básico: ansiedade. Ansiedade que leva à compulsão. Porém, a ansiedade é apenas um dos fatores associados à compulsão alimentar.

O aumento de peso, quando não está relacionado a nenhum distúrbio fisiológico, pode ter causas emocionais ocultas e aparentemente paradoxais (que inclusive podem coexistir), sendo elas: 1) tentar se esconder; 2) tentar se mostrar.

1) Tentar se esconder: se pensarmos a gordura adquirida como uma capa protetora, uma espécie de colchão amortecedor de dores internas, entenderemos o ganho de peso como uma necessidade inconsciente de proteção.

2) Tentar se mostrar: pessoas que sofreram algum tipo de abuso emocional, ou nunca se sentiram aceitas em seus meios sociais (família, escola, trabalho, relações, etc), que nunca foram devidamente valorizadas e/ou foram muito criticadas tendem a manter o peso adquirido como uma espécie de rebeldia, como se estivessem dizendo ao mundo "ei, vocês vão ter que me aceitar e me amar como eu sou"; "não vou emagrecer para ser aceita, quero ser aceita pelo que SOU". O que é muito digno e valoroso, mas pode ser pleiteado de outra forma que não sabotando um objetivo seu: a perda de peso. Geralmente essas são as que mais se irritam quando amigos e familiares as incentivam a perder peso. É como se ao receber algum conselho, na verdade, escutassem "não te aceito como você é, não te amo".

Essas duas possíveis causas ocultas (ou, inconscientes) - vejam, não estou dizendo que se trata da causa da obesidade ou do ganho de peso, apenas sugerindo possíveis reflexões - podem atrapalhar demais o processo de emagrecimento, pois fazem com que as pessoas se autosabotem e acabem sabotando, sem perceber, suas dietas.

Apesar de estarem "comendo certo", ou seja, estarem ingerindo alimentos saudáveis, as pessoas que nutrem essas causas ocultas tendem a buscar, sem perceber, situações e pessoas que provocam desestabilização, porque desestabilizadas emocionalmente poderão, enfim, ter uma boa desculpa para beber álcool além da conta e/ou comer uma caixa de chocolates.

Agora pense bem: o que adianta tomar iogurte desnatado com granola no café da manhã, malhar a contragosto à tarde e à noite sair com um amigo negativo que só faz críticas? Ou procurar um ex que só trouxe sofrimento? Será que você não está apenas buscando a aceitação dessas pessoas? Será que não está tentando provar que elas estão erradas a seu respeito, que você vale mais do que elas pensam? Não seria muito mais proveitoso provar isso para si mesma?

Claro que o resultado da noite vai ser frustração. E como é que a mente de uma pessoa compulsiva aprendeu a lidar com a frustração? Tomando uma(s) tacinha(s) de vinho, comendo um docinho ou devorando um pedaço de pizza - para os adictos, se drogando.

Enquanto alimentação saudável, atividade física, autoconhecimento e equilíbrio emocional não estiverem associados, a perda de peso dificilmente vai acontecer.

Pessoas tóxicas, que nos desestabilizam, quando nos ofertam algum tipo de atenção são como carboidratos simples: saciam e confortam por trinta minutos, mas depois a falta de nutrientes grita, a fome aumenta e os resultados "da ingestão" são sempre danosos (consciência pesada, compulsão, ganho de peso).

Quer perder peso de verdade? Então além de esvaziar a geladeira e os armários de alimentos engordativos faça uma faxina nas suas emoções e relações. Esvazie, também, sua necessidade de ser aceito pela pessoa X ou Y, de provar para quem quer que seja que você é valiosa.

Descubra quais são seus medos. Busque entender os motivos que a levaram a querer "se proteger" e avalie se ainda precisa dessa suposta capa de proteção. Encontre a fonte de sua necessidade de ser aceita e admirada. Perdoe quem tiver que perdoar - quem não conseguiu enxergá-la, admirá-la e amá-la como você é e sempre mereceu. Perdoe-se, também, por não estar no shape que gostaria, por ter engordado. Entenda esse processo como parte da jornada, e não como uma sentença perpétua.

Cuide de suas emoções, observe com cuidado suas motivações, avalie suas necessidades emocionais, faça faxina na geladeira e nas relações que não servem mais. Aprenda a observar quais são os gatilhos (comportamentais e emocionais) que fazem você se distanciar das suas metas (e passe a evitá-los), coma com alegria e saúde, pratique atividade física e... Boa viagem!

Não esquecer jamais: você é muito mais do que um número na balança e quem não consegue enxergar isso não vale um quinhão da sua atenção.

FALANDO NISSO

Autoconfiança, seu sobrenome é Diana Vreeland. A editora de moda mais revolucionária de todos os tempos tinha tudo para ser um fracasso: a própria mãe dizia que ela era feia o tempo todo. Mas ela não se deixou abater e se tornou a imperatriz da Vogue e Harper's Bazaar. Assista ao documentário sobre sua vida, "Diana Vreeland: The Eye Has to Travel" (disponível no Netflix) e inspire-se.

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(imagens: google)


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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