Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Epidemia de vadiagem

A assustadora visão de um jovem de vinte e poucos anos sobre a emancipação feminina, o homossexualismo e a liberdade sexual.


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Youtubers que só falam abobrinhas? Fanáticos ideológicos? Fanáticos religiosos? Humoristas de meia tigela? Pseudo-poetas? Pseudo-intelectuais? Cantores de funk?

Quando me deparei com o título do texto "Contaminadores sociais", jamais, em tempo algum, imaginei que os tais "contaminadores" fossem os gays, as mulheres "dadeiras" e "rodadas" (nomenclaturas usadas pelo autor) e os homens que incentivam as mulheres a serem "putas".

Pois bem, terminei de ler o texto e senti-me imensamente contaminada, não por conta das "verdades inconvenientes" - nome do blog – mas por uma pena imensa, gigantesca, hiperbólica, dos nossos jovens.

Sim, o texto absolutamente reacionário, pelo que pude perceber, fora escrito por um jovem de vinte e poucos anos, que não assina os seus escritos.

Eu já estava preparada para fazer uma baita troça com o título do blog, para dizer que uma pessoa que acredita conhecer a verdade não conhece absolutamente nada - uma vez que a verdade não existe e depende de onde, quando, como, quem, por que – quando me dei conta de que a página era alimentada por um jovem que talvez não tivesse estofo para compreender a troça.

Fiquei tão assustada com "as verdades" do rapazote que resolvi olhar o conteúdo geral de sua página na Internet.

Sobre os motivos que levam os homens a não quererem mais um relacionamento sério, por exemplo, ele nos ensina do alto de toda sua experiência de vida: "O problema é que mulheres se casam pensando só no dia da festa do casamento e muitas já projetando suas vidas para o caso de, se perderem o homem, quanto ganhariam na pensão".

E continua: "Um forte fator que também desencadeou a ilusão da 'independência feminina' foi o fato das mulheres marcarem mais presença no mercado de trabalho. Em poucas palavras, a família foi se deteriorando, pois ninguém mais acaba tendo tempo para filhos".

E arremata: "Entre diversos motivos para que ninguém queira mais se dedicar/ confiar em ninguém posso afirmar, por experiência de vida, que homens não querem mais ter um compromisso sério simplesmente pelo fato de não se ver mais por aí mulheres de valor. Não é uma transferência de culpa de situação para elas, mas sim uma epidemia de vadiagem que tomou conta da grande maioria de mulheres ativas para relacionamentos hoje. Com um empurrão do feminismo, muitas mulheres passaram a pensar da seguinte forma: 'bom, se o cara pode galinhar por aí, eu também posso..direitos iguais!". Mas a realidade é que homens sabem distinguir muito bem entre uma mulher que vale a pena dedicar tempo e a que não vale nada e, consequentemente será 'usada'".

Concluí que se trata de um rapazote pela linguagem que usa, pelos erros ortográficos que comete, por crer em verdade absolutas e porque em algumas passagens ele fala de festas em universidades.

Meodeos! Não dá nem para acusar esse pobre moço de machista, moralista ou reacionário. Não dá nem para sentir indignação. O que vejo nas linhas desse jovem é um imenso sofrimento.

Sofrimento por não saber como se encaixar, como se movimentar, como existir num mundo onde as mulheres não estão nele para atender a suas demandas e expectativas.

Sofrimento por não saber como lidar com a rejeição e com a frustração.

Sofrimento por não saber quem ele pode ser se o outro não for como ele precisa, idealiza, deseja.

Sofrimento por não confiar no próprio taco, por sentir-se inseguro ao lado de uma menina, ter medo do abandono e ojeriza à ideia de ser trocado por alguém supostamente melhor.

E o mais triste disso tudo é que ele não está sozinho! Infelizmente conheço inúmeros adolescentes e jovens de vinte e poucos anos na mesma situação que, para sobreviverem, constroem "verdades inconvenientes" (ou seriam convenientes?) e buscam segurança no período paleolítico: já que não possuem uma caverna para se esconder, tentam desesperadamente regredir, regressar (para o útero, será?).

Às vezes, dou graças ao bom Deus por ter vivido minha adolescência numa época em que a internet ainda era discada e não existiam as redes sociais. Pude fazer todas as merdas que quis sem ser fotografada ou printada, sofri bullying somente no pátio da escola e não no espaço sideral, chorei na cama quente a cada pé na bunda que levei sem precisar saber que meu ex estava ótimo, tomando Marguerita na balada e fazendo selfie com duas siamesas. Escrevi toda a minha desorientação e sofrimento num diário que trancava com uma chave - ah, que saudade dos diários com chave!

Realmente não deve estar fácil para essa moçada viver nos dias de hoje! Imaginem somar todos os dramas naturais da adolescência - como a necessidade de aceitação – às mudanças de paradigmas sociais?

Se a emancipação feminina ainda desorienta os marmanjos e gera uma série de mal entendidos - como por exemplo a diferença entre cavalheirismo e sexismo - a desorientação deve ser muito maior nos miolos daqueles que estão saindo das fraldas, não?

Tenhamos compaixão! É só o que me ocorre: compaixão.

No mais, fiquei me perguntando ao surfar pela página do moço: onde será que estão seus pais que não o percebem pedindo socorro?

Pior: será que foram os pais que ensinaram isso tudo ao filho? Estaria ele apenas reproduzindo o que aprendeu em casa? Pelo sim, pelo não, oremos.

FALANDO NISSO

Luiz Felipe Pondé escreveu recentemente na Folha de São Paulo o texto O novo moralismo jovem. Como sempre, tenho algumas ressalvas sobre as observações de Pondé, mas vale a pena conferir. Segue um trecho: “Nem os puritanos calvinistas do séculos 16 e 17 imaginavam-se tão puros quanto muitos dos jovens hoje se imaginam. Resumo da ópera: preocupa-me a ideia, presente em muitos jovens, de que eles não têm pecados. Culpa é para os opressores; eles, os jovens, não têm maus sentimentos. E quando os têm, ‘foram impostos pela sociedade’”.

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(imagem: google)


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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