Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

não seja vítima de misoginia

Muitas mulheres têm comportamentos misóginos e não se dão conta. Que tal amar mais a própria feminilidade e odiar menos as coleguinhas? Que tal não dar ouvidos aos mocinhos misóginos e botá-los para correr?


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Você é vítima de misoginia quando sente VERGONHA de ter dado um chilique porque seu namorado não atendeu ou não retornou a ligação.

Você é vítima de misoginia quando sente CULPA por não conseguir controlar seu ciúme da secretaria e/ou estagiaria da empresa do seu amado.

É vítima de misoginia quando sente VERGONHA por demorar muito para se arrumar ou quando sente-se insegura e pergunta “você ainda me ama”?

Quando quer dormir de conchinha e sente-se ESTÚPIDA por isso, quando fica TRISTE por ele não ter lembrado o aniversário de namoro, quando se CULPA (e se pune comendo um pote inteiro de sorvete) por querer que ele passe mais tempo com você; quando deseja provas de que é o maior e mais profundo amor que ele já teve na vida, que é única, absoluta, e depois se culpa achando-se INFANTIL por esse desejo.

Você é vítima de misoginia quando se sente RIDÍCULA por gastar demais com sapatos e maquiagem; por se esforçar para que tudo saia perfeito e entristecer-se por não ter seus esforços reconhecidos; por não controlar sua CARÊNCIA na TPM e devorar caixas de bombons e chorar com comercial de Danoninho.

É vítima de misoginia quando se sente o COCÔ do cavalo do bandido por ter matado um leão, ontem, e desejar colo, hoje.

Se você em algum momento sentiu VERGONHA (ou CULPA) dessas coisas que acabei de escrever, então você sentiu vergonha de ser MULHER. Porque estas - entre outras infinitas – são características femininas.

Ocorre que, durante anos, décadas, séculos, os homens, despreparados para o “feminino”, nos disseram: “você é louca”. Já repararam que, numa briga de casal, o primeiro argumento que o homem costuma usar é “você é louca”?

As mulheres tendem a chamar os homens de “canalhas”, “cretinos”, “filhos da puta”, “mentirosos”, mas dificilmente dizem “você é louco, precisa se tratar”, a menos que eles estejam cometendo uma grande loucura, mesmo.

Quando um homem diz “você é louca, precisa se tratar”, ele no fundo está dizendo: “Eu não sei lidar com isso”.

Mas como os homens foram criados para serem infalíveis, ou seja, aprenderam que devem ter respostas e soluções para tudo, tendem a jogar a culpa de sua inabilidade no outro - no caso, a mulher.

Ou seja: é mais fácil dizer “você é louca” do que assumir que não sabe lidar com a situação.

No livro “Helena, o eterno feminino” ( Editora Vozes), Junito de Souza Brandão nos mostra como esse comportamento é secular e como está enraizado em nossa cultura e inconsciente coletivo. O livro é um verdadeiro tratado sobre misoginia. Seguem dois trechos assustadores:

Hesíodo, por volta de VIII a.C, escreveu:

“- E quando, em vez de um bem, (Zeus) criou este mal tão belo, conduziu-a (Pandora) para onde estavam os demais deuses e homens, magnificamente ataviada pela deusa de olhos garços, filha de um deus poderoso. Maravilharam-se mortais e imortais à vista desse ardil profundo e sem saída, destinado aos homens. dela se originou a espécie maldita das mulheres, flagelo terrível instalado entre os mortais”...

Semônides escreveu na mesma época os versos:

- Há dois momentos em que a mulher nos proporciona um prazer supremo: no dia do casamento e quando a levamos à sepultura.

No entanto, como podemos perceber no decorrer das 136 páginas, infelizmente, não somos vítimas de misoginia apenas pelos homens. Muitas mulheres têm comportamentos misóginos (desde zil anos antes de Cristo) e não se dão conta.

Exemplos: quando julgam a roupa da coleguinha, taxando-a de vulgar; quando veem uma mulher diferente delas e julgam seu comportamento; quando criticam as escolhas de uma amiga somente por serem diferentes; quando acreditam que lugar de mulher é em Y ou X lugar e não (de fato) onde ela quiser; quando veem toda e qualquer mulher bonita e forte como ameaça e tentam denegri-la de alguma forma; quando fazem fofoca falando mal umas das outras.

Helena, como bem aponta Brandão, foi amada, odiada, heroína, vítima, deusa e demônio num só tempo por homens e mulheres – e vive em cada uma de nós, queiramos ou não.

Deixemo-nos em paz, então, Helenas minhas, para sermos o que quisermos ser: caóticas, múltiplas, fortes, sonhadoras, doces, amargas, sensíveis, inteligentes, carentes, ousadas, imperfeitas, etc, etc, etc; até mesmo louca, de vez em quando.

O vitimismo, no fundo, está dentro de nós! Enquanto não aceitarmos nossa condição feminina, enquanto não a amarmos, continuaremos gastando energia inutilmente para provarmos aos homens (e ao mundo) que não, “não somos loucas”, e, para as coleguinhas, que podemos ser o que quisermos e não o que elas acham correto e ideal.

Quando nos aceitamos como somos deixamos de ter necessidade de provar isso ou aquilo aos outros e conseguimos botar para correr os mocinhos misóginos num estalar de dedos.

Portanto fica a dica: não seja vítima de misoginia! AME sua feminilidade! E boa viagem.

MEU CANAL

Falei mais sobre esse tema no vídeo A diferença entre gostar de mulher e gostar de xoxota no meu canal do YouTube Dois cafés e uma água com gás, espaço onde falo sobre comportamento, literatura, arte, moda, cultura e o que mais der na telha.

(imagem: google)


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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