Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Professores não são médicos, mas podem salvar vidas

Uma homenagem carinhosa a todos os professores


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Ana Maria tinha os olhos verdes e brilhantes como a gota de orvalho sobre a folha do jardim.

Usava saias longas e coloridas. Suas unhas quase sempre estavam pintadas de vermelho, bem como sua cabeleira. Seu riso era largo e sua gargalhada escandalosa.

Ana Maria sabia das coisas. Ana Maria parecia saber de todas as coisas que me interessavam embora eu nem soubesse direito, ainda, o que me interessava quando a conheci.

Um belo dia ela chegou com a novidade: - Vamos trocar cartas!

Ela nos apresentou um álbum cheio de fotografias 3x4 e pediu que escolhêssemos um amigo ou uma amiga para nos correspondermos. Íamos trocar cartas com seus alunos de outra escola.

Toda segunda-feira eu e os demais alunos da 7ªB tínhamos que levar nossas cartinhas prontas e ela nos entregava as respostas da semana anterior.

Nunca conheci a amiguinha com quem me correspondia, mas guardei para sempre o hábito de escrever cartas.

Cartas de amor, de desamor, de despedida, de desculpas. Cartas não enviadas. Cartas escritas a mim mesma. Cartas que nunca deviam ter sido enviadas.

Ana Maria era uma professora de língua portuguesa que quase não ensinava gramática. Aula sim, aula não, ela promovia um recital de poesias em sala de aula. Espalhava uma quantidade considerável de livros sobre sua mesa e convidava os alunos a lerem poemas ao seu lado.

Foi ela quem me deu o meu primeiro livro de poesias ( que guardo com carinho até hoje!): Nariz de Vidro, de Mario Quintana.

Ela nunca precisou pedir silêncio para a turma e ninguém faltava às suas aulas. Torcíamos muito para que os demais professores faltassem, porém, quando Ana Maria não ia, ficávamos tristes e corríamos para a secretaria para saber se algo de grave tinha acontecido.

Achava graça quando ela dizia que eu podia ser escritora quando crescesse e quase morri de comoção no dia em que ela me convidou para almoçar em sua bela casa e depois me chamou para ir até um mercado de flores e plantas para ajudá-la a escolher o paisagismo do seu jardim - me senti mais importante e especial do que a secretária pessoal da Madonna. Enquanto as meninas da sala sonhavam em ser Paquita eu sonhava em ser como Ana Maria. Será que vem daí meu hábito de pintar as unhas de vermelho?

Sempre que vou lançar um livro novo ou publico um texto em algum jornal ou site, me lembro de Ana Maria, da sua risada, dos seus olhos verdes, do almoço em sua casa e ela me dizendo: "Você pode ser escritora, se quiser".

Há 20 anos não sei de Ana Maria. Já tentei descobrir de todas as formas seu sobrenome e seu telefone através da secretaria do colégio em que estudei, mas ninguém me informa - dizem que informações sobre professores são sigilosas.

Gostaria tanto de enviar meus livros a ela! Gostaria tanto que ela soubesse disso tudo que acabo de escrever. Gostaria tanto de retribuir aquele almoço e enfeitar a mesa de casa com flores para recebê-la.

Professores não são médicos, mas podem salvar vidas!

Ana Maria salvou a minha quando disse que eu podia ser escritora, se quisesse. E eu quis.

Falando nisso

Abaixo o primeiro poema que li na vida e me fez chorar. Indivisíveis, de Mario Quintana, extraído do livro Nariz de Vidro, me fez amar a poesia para sempre. O livro é um ótimo presente para um adolescente de 13 anos. Serei eternamente grata a Ana Maria... E a todos os meus professores que me ensinaram coisas lindas.

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Indivisíveis

O meu primeiro amor

e eu sentávamos numa pedra

que havia num terreno baldio entre as nossas casas.

Falávamos de coisas bobas, isto é,

que a gente grande achava bobas.

Como qualquer troca de confidências

entre crianças de cinco anos. Crianças...

Parecia que entre um e outro

nem havia ainda separação de sexos,

a não ser o azul imenso dos olhos dela,

olhos que eu não encontrava em ninguém mais,

nem no cachorro e no gato da casa,

que apenas tinham a mesma fidelidade sem compromisso

e a mesma animal - ou celestial - inocência.

Porque o azul dos olhos dela tornava mais azul o céu.

Não importava as coisas bobas que disséssemos.

Éramos um desejo de estar perto, tão perto,

que não havia ali apenas duas encantadoras criaturas,

mas um único amor sentado sobre uma tosca pedra,

enquanto a gente grande passava, caçoava, ria-se,

não sabia que eles levariam procurando

uma coisa assim por toda a sua vida...

Mario Quintana

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Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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