Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Sem filtro: quem você gostaria de mandar à merda?

Imagine se você pudesse dizer exatamente o que pensa do seu chefe ou do seu melhor amigo na cara deles... Nicolás López, cineasta chileno, não só imaginou como fez um filme tão divertido e inteligente quanto Relatos Selvagens. Disponível no Netflix.


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Nelson Rodrigues dizia que "se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava". Agora imagine se soubéssemos o que os outros pensam de nós? Certamente ninguém teria amigos e a vida gregária seria impossível.

Não porque sejamos falsos ou hipócritas – ok, em alguns casos, somos – mas porque nós, humanoides, não estamos preparados para a verdade; acreditamos que falar (e ouvir) a verdade é falta de educação. Ou isso seria privilégio apenas dos humanoides tupiniquins?

Felizmente a película chilena "Sem Filtro", de Nicolás López, nos redimiu: ser cordato - mesmo quando isso nos agride -, maquiar a realidade e engolir sapo não são características apenas dos brasileiros.

Ufa! Ao menos a protagonista Pía, vivida por Paz Bascuñán, nos indica que o problema pode, sim, ser dos humanoides em geral ou no mínimo dos latino-americanos.

O filme de López, que tem o Netflix como parceiro e foi lançado em 2016, é uma espécie de “Relatos Selvagens” de um personagem só: Pía, publicitária de 37 anos, casada com um artista plástico fracassado (e folgado), madrasta de um adolescente insolente, após anos tomando remédios para ataques de pânico, decide procurar um acupunturista para desbloquear suas emoções.

É fácil prever o que vem depois: ela simplesmente joga toda a merda no ventilador e passa a dizer o que pensa de todos em suas fuças a la Jim Carrey em "O mentiroso".

Mas apesar do roteiro previsível, os diálogos e as cenas não são nada previsíveis e têm aquela impagável pitada de ironia e sarcasmo dos filmes latino-americanos.

O modo nu e cru como Pía fala o que pensa nos faz rir de nervoso e mais, nos faz realizar uma deliciosa catarse – a "cena-ventilador" com o chefe é puro deleite, creio que todos que possuem um (a) chefe mala e sem talento vão se identificar.

Quem gostou de “Relatos Selvagens” certamente vai gostar de "Sem Filtro". Ok, o filme chileno não chega aos pés do argentino, mas é um primo rico bem limpinho.

Outra característica interessante de "Sem filtro", é o fato de a personagem balzaquiana não estar às voltas com questões como "encontrar o grande amor", "casar", "ter filhos", "emagrecer", "conquistar lugar no mercado de trabalho", como geralmente acontece nos roteiros onde as protagonistas femininas passaram dos trinta anos (alô, Bridget Jones).

O título do filme - que brinca com a hashtag usada nas redes sociais para designar uma imagem que não foi tratada por nenhum programa de edição - não é furtivo. "Sem filtro" apresenta uma crítica ácida sobre a maneira como estamos nos relacionando após o advento dos smartphones e das redes sociais: nossa tendência a criar uma realidade virtual fantasiosa (melhorada) que não é compatível com a do dia-a-dia; nossa dificuldade de prestar atenção ao que o colega diz por que estamos digitando algo; a maneira como a publicidade se transformou com a chegada das YouTubers; a necessidade de registrar tudo; etc.

O drama de Pía não é emagrecer, tampouco encontrar um grande amor, mas se adaptar à superficialidade dos novos tempos, respeitar os próprios limites e aprender a dizer "não" sem temer a perda de afeto.

Como se respeitar, impor limites, sem perder a ternura jamais? Eis o desafio que López nos propõe.

Um espelho indigesto, mas, como tudo na vida, dependendo do ângulo, divertidíssimo. Vale um baldão de pipoca, muitas risadas e, claro, a reflexão.

NOTA

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Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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