Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

Fazendo as pazes com o corpo

Lutamos contra o machismo e a violência contra a mulher. Discutimos o papel da mulher na Arte e na Literatura; emancipamo-nos sexualmente e temos provado a cada dia que lugar de mulher é onde ela quiser, mas se não estamos magras nada disso parece fazer sentido. Até quando? O livro da jornalista Daiana Garbin nos convida a essa reflexão.


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Lutamos contra o machismo e a violência contra a mulher. Discutimos o papel da mulher na Arte e na Literatura; emancipamo-nos sexualmente e temos provado a cada dia que lugar de mulher é onde ela quiser.

“Yes, we can!" Podemos dominar o mundo, mas se engordamos alguns quilinhos choramos em frente ao espelho; se engordamos muitos quilinhos nos sentimos um verdadeiro fracasso e passamos praticamente uma vida inteira odiando nosso corpo, tentando transformá-lo, enchendo assim os cofres da indústria da beleza.

Falamos várias línguas, temos saúde, família amorosa e cama quentinha em noites frias; temos acesso a bons livros, filmes, restaurantes, vinhos e viagens. Chefiamos empresas, lançamos livros, limpamos uma casa inteira sem quebrar as unhas, porém se não estamos magras nada disso parece fazer sentido.

Exigimos respeito, mas não nos respeitamos plenamente (no sentido de acolher e amar as próprias imperfeições).

Queremos uma Revolução Feminina, no entanto esquecemos que para mudar o mundo é preciso começar pela gente.

Após 22 anos odiando a própria imagem no espelho e apresentando uma relação doentia com a comida, a jornalista Daiana Garbin resolveu dar um basta em todo aquele sofrimento e buscou ajuda médica de terapeutas e nutricionistas especializados. Foi então que ela compreendeu o seu transtorno alimentar e passou a pesquisar o tema com afinco e seriedade.

O resultado dessa pesquisa é um convite à libertação de todas nós: o livro “Fazendo as pazes com o corpo - uma jornada para vencer a relação doentia com a comida e a obsessão pela forma perfeita” (Editora Sextante) e seu canal no Youtube Eu Vejo.

Na primeira parte do livro de 160 páginas, Garbin nos conta de maneira corajosa e honesta sobre sua não-aceitação (auto-repulsa) corporal e disserta sobre as rejeições que sofreu na adolescência por ser maior que os amiguinhos, as loucuras que fez para alcançar um corpo magro (consumo de anfetaminas, lipoaspirações, dietas malucas, etc); as pressões que sofreu no trabalho para que perdesse peso, os relacionamentos abusivos pelos quais passou devido a sua insegurança e necessidade de aceitação. Eis um trecho:

“A comida controlava minha vida, meus pensamentos, minhas ações. Sempre que eu engordava ficava com vergonha das pessoas, cancelava compromissos, mentia que estava doente para não ir trabalhar ou comparecer a festas. Também já fingi que tinha ido viajar para escapar de um compromisso e não aparecer gorda na frente dos outros. Não era só pela forma do meu corpo. É que junto com ‘a gordura’ vinha um sentimento de fracasso, de inferioridade”.

Já na segunda metade do livro - que conta com uma vasta lista de referências bibliográficas ao final e algumas fotos pessoais ilustrativas –, a autora fala sobre os tipos de transtorno alimentar e a alimentação intuitiva, caminho encontrado por ela para se relacionar melhor com a comida e com seu corpo. Além disso, Garbin propõe reflexões acerca dos nossos padrões estéticos, pressões sociais, autoimagem x internet, doenças da beleza:

“Na internet, na televisão, no cinema, nas revistas, nos jornais, nos manequins das lojas e nas propagandas não vemos corpos parecidos com o nosso. O corpo real não é representado. Quase não há pessoas com nariz grande, quadril largo, rosto redondo, com sobrepeso, com estrias e celulite ou com mais de 60 ou 70 anos. Essas características simplesmente não aparecem. Você só vê gente jovem, magra, com cara de boneca e perfeita. Só vemos um tipo de beleza em todos os lugares, é claro que vamos achar que nossa aparência é inadequada. E sabe o que vem depois dessa constatação? As medidas desesperadas para ‘consertar os defeitos’”.

Que se diga de pronto: não se trata de um livro de autoajuda - embora com toda certeza vá ajudar inúmeras pessoas - e/ou motivacional pautado única e exclusivamente na experiência pessoal.

“Fazendo as pazes com o corpo – uma jornada para vencer a relação doentia com a comida e a obsessão pela forma perfeita”, se trata de uma compilação primorosa e criteriosa de leituras, entrevistas, depoimentos (no decorrer das páginas há diversos depoimentos de mulheres que sofrem com suas autoimagens) e análises socioculturais.

Se o desafio de nossas mães e avós era queimar o sutiã em praça pública e exigir direitos iguais, o nosso, ao que tudo indica, é conseguir se amar, se aceitar e parar de se punir por não ter a imagem perfeita e plastificada das redes sociais. Será que vamos conseguir? A leitura do livro de Daiana Garbin é um bom começo.

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(imagens google )


Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo. .
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