monolito azul

Tentando desvendar o cinema, e, talvez, as outras coisas também.

Italo Lobo

Apreciador de humor, futebol, filmes, números, chocolate, dormir, comer, procrastinar, crônicas, livros de suspense/investigativos. Se ganhasse cada 1 real para cada asneira que diz ou escreve, não precisaria trabalhar.

Geração Ghostface – Os Pânicos de Craven-Williamson

Como um inofensivo e simples filme "teen" com um assassino mascarado tornou-se (merecidamente) um grande sucesso e ícone da cultura pop.


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Pânico: um estouro da noite para o dia

Você pode não gostar de Wes Craven, bem como não gostar de Pânico. Mas ignorar sua importância e influência é ignorar um fato. Quem gosta de assistir a filmes de terror ou suspense depara-se com diversos exemplares insatisfatórios, pois tal gênero é o que mais facilmente se desgasta. Basta meia dúzia de filmes apresentando uma fórmula parecida e boom: virou clichê ultrapassado, e todos estamos saturados de ver sempre a mesma coisa.

Voltando a Craven: 1- o mais relevante trabalho do diretor, até então, nos trouxe um icônico vilão chamado Freddy Krueger, e A Hora do Pesadelo ajudou a propagar o gênero slasher. 2- Eis que dez anos depois, após cinco sequências, o diretor retornou à franquia para colocá-la nos eixos, entregando um dos mais divertidos exercícios metalinguísticos dentro do cinema de horror. Não satisfeito, executaria tais dois elementos novamente, e em um filme apenas, em 1996. Claro, isso não seria possível sem o roteiro brilhante de Kevin Williamson. Mas não é qualquer um que executa tão bem uma boa ideia (vide o desperdício que é O Segredo da Cabana).

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Um assassino que ameaça suas vítimas por telefone... Hm, já foi visto antes (vejam Mensageiro da Morte, 1979, de Fred Walton, e aprendam como se cria uma atmosfera). Uma protagonista virginal e seus amigos jovens que gostam de festas e sexo como principais vítimas... ok, já vimos também. Mas quem iria imaginar que tais situações tão lugar-comum seriam o grande triunfo do filme? As personagens e o assassino são fanáticos por filmes de horror, conversando sobre os principais clássicos e os principais clichês, e se entregando a estes clichês minutos depois. A vida (dentro da arte, claro) imitando a arte. A partir daí, pronto, é só se deliciar com as diversas autorreferências. O mais interessante é que pode muito bem não assustar, não dar medo, fazer dar risada e ainda assim é o principal e mais importante do gênero na década de 90 (não necessariamente o melhor [e sim, mais importante que o Sexto Sentido {até porque este do indiano é outro estilo e causou um impacto totalmente diferente, mal dando, assim, para compará-los}]).

Talvez tenha sido a primeira vez em que o cult e o popular uniram-se tão perfeitamente. O assassino mascarado logo se tornou um símbolo da cultura pop. Digo por experiência própria durante a infância: crianças de 6 anos, só de avistar a máscara vendendo próximo ao Halloween, já identificavam: “Olha o Pânico!”. Merecidamente, Pânico é até hoje um sucesso de público e crítica (não que esta seja muito importante), e deu um novo gás ao gênero e ao subgênero do terror teen. E gerou fãs. Milhões de fãs, com muitos deles começando a partir daí a se interessar por mais filmes com sangue e assassinos em série. Tenho orgulho em fazer parte destes.

Seu legado é enorme e pode ser visto até hoje: Eu sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, Lenda Urbana e Premonição são alguns dos principais exemplos de sucessores da onda “terror teen”.

Pânico 2: em time que está ganhando, não se mexe

Quando um filme ganha um peso desses, uma provável continuação gera enorme desconfiança. Mas Pânico 2 não só preserva o espírito do antecessor como também expande a fórmula, acrescentando qualidade e dignidade à franquia.

Novamente Craven e Williamson comandam o espetáculo. Após o episódio em Woodsboro, Sidney muda de ares. Randy, o fanático por filmes de terror, também está no mesmo território. Só que desta vez não é só ele, temos mais estudantes apreciadores de cinema. E tamanho foi o evento de matanças na cidade natal dos dois que decidiram fazer um filme (dentro do filme) sobre ele, intitulado “Facada”. E é a partir daí que Ghostface volta a atacar, trazendo de volta o atrapalhado e carismático policial Dewey e a repórter Gale. E o assassino quer Sidney morta.

scream-2-1998-10-g.jpg A memorável cena de abertura de Pânico 2.

E o principal motivo para essa sequência ser tão competente quanto o original (até melhor, eu diria) é ter mantido a mesma sacada metalinguística. Se o anterior era um horror falando de um filme de horror, este é uma continuação falando de continuações. Somos brindados com uma cena em sala de aula com os alunos discutindo sequências boas, superiores, desnecessárias. Como de Aliens, passando por Star Wars e chegando até a Poderoso Chefão. As regras de uma continuação são diferentes: o assassino está mais implacável, o número de vítimas é maior. Com um adicional: no anterior, uma resposta certa sobre uma pergunta feita pelo assassino salvava a vítima. Aqui, ser entendedor de filmes de terror não vai preservar a sua vida. E as personagens não são mais ingênuas como no primeiro filme. Parece que aprenderam com ele. Mas tudo é adequado para este universo menos infantil, para que a diversão nunca acabe e nada fique tão previsível. Obviamente, não teve tanto impacto quanto o primeiro. Tampouco tanta originalidade, já que bebeu da mesma fonte. Porém, no final das contas, os méritos são maiores que os defeitos.

Pânico 3 foi lançado três anos após o segundo. Só que sem Williamson escrevendo, não havendo assim 1/100 das sacadas dos dois anteriores. E pior: contendo elementos que beiram o sobrenatural, como as supostas aparições da mãe de Sidney e os sonhos desta. Na época, eu mal tinha idade e acompanhar filmes não era parte de minha rotina. Mas é de se apostar que os fãs dos anteriores ficaram revoltados.

4602136.jpg Em Pânico 3, a parceria Craven/Williamson fez muita falta.

Pânico 4: nova década, novas regras

Onze anos passaram desde Pânico 3, e Wes Craven retoma a história, novamente com Williamson no roteiro. Assim como no primeiro, a trama se passa em Woodsboro, cidade natal dos assassinatos, e a eterna vítima Sidney Prescott retorna às suas origens para o lançamento de seu novo livro. Dewey, agora xerife, e Gale (uma Courteney Cox adepta do botóx) estão casados. Quis o destino que, com a volta de Sidney, o assassino voltasse a atacar. E desta vez, a prima de Sidney, Jill, é o principal alvo.

Os principais elementos da fórmula estão presentes, principalmente na introdução: com certeza até os mais espertos não adivinharam (ou vão adivinhar) o que acontece nos primeiros 5, 10 minutos. A metalinguagem presente continua deliciosa. Temos personagens criticando a falta de criatividade dos terrores modernos, o sucesso do ‘torture porn’, o excesso de continuações de Jogos Mortais, mas não para por aí: as referências vão desde uma sessão com todos os filmes “Facada” (o filme dentro do filme) até a citação de praticamente todos os remakes de terrores possíveis numa determinada cena.

Os tempos são outros. Quanto à questão da nova geração, Craven acerta ao usar e abusar tanto da linguagem quanto dos veículos de comunicação. Aqui temos gírias, facebook, twitter, a rápida propagação de notícias pela Internet, etc. Não tem como não rir quando Gale diz “Animal” e Dewey pergunta “O que é isso?” e a resposta é “Não sei, só ouvi eles falando”.

Não são poucos os que veem este quarto capítulo como um filme estúpido, besta. Tanto que é admissível afirmar que em meio a tantas modernidades, tantos personagens jovens que servirão como vítimas e tantas brincadeiras, o espaço para uma história consistente e diferente do habitual é estreito. E o final, bom, decepcionante. Pode haver surpresa num primeiro momento quando é revelado quem está por trás de Ghostface, mas os motivos para tal são os mais pueris e infantis de toda a série.

scream-4-movie-poster-e1305666521220.jpg Um dos vários cartazes de divulgação de Pânico 4. O trio de "heróis" vividos por Neve Campbell, Courteney Cox e David Arquette mesclados com um elenco jovem, com alguns rostos conhecidos.

Mas, depois de uma reflexão, temos que entender que a própria existência do primeiro filme, aliada aos novos costumes, faz com que Pânico 4 seja o que é. Aqui é retratada a juventude atual, toda imbecilizada e banal, que usa a tecnologia para tudo. O já citado evento com a exibição de todos os “Facada” é de uma repercussão imensa. A moçada toda se reúne fantasiada, grita, esperneia, sabe todas as falas de cor e a excitação é incontrolável. Afinal de contas, hoje em dia o importante é divulgar e ser reconhecido. Ora, Woodsboro sempre será a cidade onde houve as primeiras matanças. Quem não os presenciou vai levar toda a situação na brincadeira, na graça. E até os assassinatos evoluíram, pois os próprios assassinos agora filmam seus atos.

Craven não perdeu o dom de brincar com o próprio filme. O xerife Dewey diz: “A tragédia de uma geração é a piada da geração seguinte”. Essas palavras definem perfeitamente o que nos é mostrado.

O que faz com que, no geral, o quarto capítulo de Pânico seja satisfatório. Se foi feito principalmente para os fãs, além de apresentar a franquia a uma nova geração, maravilha! Ambas as propostas são cumpridas. Para os fãs como eu, a saudade certamente foi “Matada!”. Os defeitos estão lá, mas para quem aprendeu a seguir a proposta, ignorá-los faz parte. Para quem não conhecia, vale como diversão passageira (bem como um incentivo para conhecer os capítulos anteriores). Agora, para quem quer um filme de suspense com muitos sustos e bem elaborado, pode não ser a melhor escolha.

Aliás, é natural que haja um desgaste conforme revemos os Pânicos repetidas vezes. Se por um lado a cada revisão é possível identificar mais sacadas (por serem inúmeras), por outro, o impacto dos sustos e as surpresas seguem em sentido contrário.

Porém, marcaram uma geração. Talvez isso não signifique muito para as próximas. Talvez quem nasceu dos anos 2000 para frente tenha outras referências. Mas a saga como um todo já está eternizada por nós. Um trabalho que ousa satirizar a si mesmo já merece por si só uma atenção especial. Quando está sempre ridicularizando os meios e costumes de cada época em que se situa, é ainda mais notável. Quem não gosta, perde muito.


Italo Lobo

Apreciador de humor, futebol, filmes, números, chocolate, dormir, comer, procrastinar, crônicas, livros de suspense/investigativos. Se ganhasse cada 1 real para cada asneira que diz ou escreve, não precisaria trabalhar..
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