monolito azul

Tentando desvendar o cinema, e, talvez, as outras coisas também.

Italo Lobo

Apreciador de humor, futebol, filmes, números, chocolate, dormir, comer, procrastinar, crônicas, livros de suspense/investigativos. Se ganhasse cada 1 real para cada asneira que diz ou escreve, não precisaria trabalhar.

Quadrilha de Sádicos e o terror social de Wes Craven

Esta cultuada obra setentista é mais um dos filmes do mestre Wes Craven que são muito mais do que simples sangues e mortes.


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O próprio diretor Wes Craven admite que o fato de ter criado Freddy Krueger seja, provavelmente, o que venha a ser escrito em sua lápide. Tudo bem, o maníaco que ataca nos sonhos, imortalizado por Robert Englund, é um dos ícones máximos dos filmes de terror. Mas mesmo assim, antes da “Elm Street”, Craven já havia apresentado horror em outras regiões. Em sua estreia, transformou uma simples casa, a Última Casa à Esquerda (The Last House on the Left – Aniversário Macabro, no Brasil), num palco de vingança e violência. E até hoje seu debute é lembrado como um exercício chocante, além de um dos precursores para o rumo que o gênero tomaria na década de 70. E em seu segundo trabalho, infernizou outra família, tirando-a de sua casa e soltando-a no meio do nada, num lugar onde As Colinas Têm Olhos (The Hills Have Eyes, o filme em questão neste texto).

(Pensando aqui, por um segundo, se seria melhor se nosso país mantivesse o título original dos filmes, ao invés de traduzi-los [ou adequá-los à cara do público])

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Os Carters estão indo à Califórnia. Antes de chegar, eles têm que viajar por um deserto de Nevada para dar uma olhada em uma antiga mina de prata, deixada para eles como parte de uma herança. Apesar das advertências de um atendente de um posto de gasolina, a família vai para fora do caminho batido e acabam presos num ambiente deserto quando seu trailer quebra. Percebendo que estão no meio do nada, o ex-policial Big Bob e seu genro Doug caminham em direções opostas, na esperança de conseguir ajuda. O restante fica, junto com os cães da família, que começam a latir e agir de um modo esquisito. Logo, fica claro que estão sendo observados por um faminto grupo de canibais.

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O clima tenso, com barulhos secos e ensurdecedores, atrai o espectador. Desde o início o filme dá a sensação de isolamento, formando uma atmosfera antes mesmo de haver algum susto ou violência. Craven parte da premissa de um dos medos mais primitivos: o nada, o abandono, juntando a isso o temor pelo desconhecido. Os vilões demoram certo tempo até aparecerem, mas antes disso nada se torna maçante ou cansativo.

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E quando o filme deslancha, o terror aumenta. O que era psicológico, imaginativo, torna-se físico, visceral. E até desagradável. As mortes começam, e, naquela bonita e pacata família, qualquer um pode morrer, até mesmo quem você menos espera. É fácil um filme chocar (ou pelo menos tentar) quem assiste utilizando cenas violentas. Mas, quando o filme preocupa-se em construir todo o clima, mostrando as transformações de suas personagens, e depois fazendo a inserção de assassinatos, mortes e sangue, o choque é maior. E o que temos aqui é uma família comum sendo aos poucos dilacerada.

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Assim, o filme é uma progressão natural de temas explorados por Craven tanto em Aniversário Macabro quanto em A Hora do Pesadelo. O primeiro estava preocupado com a destruição do idealismo dos anos 60 e questionou o quão longe as pessoas normais podem chegar quando confrontadas com a violência, enquanto o último pode servir como uma alegoria para a família americana que está sendo destruída em tempos modernos. Quadrilha de Sádicos leva um pouco de ambos para criar um filme que está preocupado com a destruição dos ideais da família e de segurança. Os Carters passam por uma situação semelhante à dos Collingwoods em Aniversário: como eles têm que recorrer a níveis de violência que nunca sonharam, e, em última análise, o filme deixa-nos questionar quem é o mais selvagem entre os dois clãs (vilões vs. mocinhos).

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Esteticamente, o filme evoluiu com relação ao primeiro trabalho de Craven. Mas ainda assim teve um baixo orçamento e praticamente não há nenhum efeito visual. E embora possa talvez soar amador (pelo menos para quem é chato e fica com frescura quanto à parte técnica dos filmes), casa muito bem com o ambiente cru e deserto. Se você gosta de O Massacre da Serra Elétrica, recomendo fortemente este aqui, pois possui várias semelhanças. O elenco também não é nenhuma maravilha, mas as atuações convencem.

(Grande coisa. O cinema de Craven sempre foi muito autoral e pouco de “atuações”)

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Quadrilha de Sádicos não é tão popular quanto A Hora do Pesadelo, nem tão influente quanto Pânico, mas tornou-se um cult dentre os terrores setentistas. Há até quem considere o melhor filme do Craven, o que não é nenhum exagero.

Descrevendo em uma palavra: Obrigatório.


Italo Lobo

Apreciador de humor, futebol, filmes, números, chocolate, dormir, comer, procrastinar, crônicas, livros de suspense/investigativos. Se ganhasse cada 1 real para cada asneira que diz ou escreve, não precisaria trabalhar..
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