monolito azul

Tentando desvendar o cinema, e, talvez, as outras coisas também.

Italo Lobo

Apreciador de humor, futebol, filmes, números, chocolate, dormir, comer, procrastinar, crônicas, livros de suspense/investigativos. Se ganhasse cada 1 real para cada asneira que diz ou escreve, não precisaria trabalhar.

Me & Stanley Kubrick

Há 16 anos perdíamos Stanley Kubrick. Todos têm alguma história ou curiosidade com um artista que admira. Qual é a sua?


k1.jpg

Nascido para Matar

Não vou lembrar exatamente o ano, ou a idade que eu tinha no dia (provavelmente 11 ou 12). Sempre gostei de ver filmes, desde que me entendo por gente, e, como alguém que levou anos para ter acesso a canais de TV por assinatura, a TV aberta sempre me serviu como refúgio. Lembro que na Globo, a expectativa de passar algo interessante era às segundas na Tela Quente e aos sábados no Supercine, e esporadicamente nas madrugadas dos dias úteis no Intercine ou aos domingos à tarde e beirando a meia noite. Já no SBT, eram quatro os dias: terça-feira (Cine Espetacular), quinta-feira (não vou me recordar o nome, e também as sessões de quinta não duraram, pelo que me lembro, muito tempo na programação), sexta-feira (Tela de Sucessos) e sábado (Cine Belas Artes).

Agora cabe aqui uma observação importante para o início da história: quando vemos filmes somente pelos canais abertos, só temos contato com as produções dubladas. E quando somos novos, até mesmo nos DVDs (hoje também BluRay, e em minha época, também VHS), sempre procuramos por filmes dublados também. Normal. O gosto por filme legendado, para quem floresce, vem com o tempo.

k2.jpg

E depois de ver algumas produções americanas lendo a tradução e com o idioma natural, percebemos que alguns filmes contêm palavrões e linguagem obscena em geral. O choque é inevitável, principalmente quando você já viu aquele filme de maneira dublada. É então que você desvenda o segredo: o processo de dublagem modifica e filtra muita coisa, salvo raríssimas exceções.

Justamente por causa de uma dessas exceções que tudo começou para mim. Naquela semana, assistindo aos comerciais no canal do Sílvio Santos, a tão impressionante e impactante chamada do filme que passaria dali a um ou dois dias apareceu: Nascido para Matar. E daquele comercial levanto três itens incomuns: 1- uma figura autoritária berrando a poucos centímetros da cara do soldado: VOCÊ É UMA BICHONA? 2- uma cena de tiro quase em câmera lenta fazendo jorrar uma quantidade considerável de sangue. 3- um nome destacado: Stanley Kubrick. Naquela época, eu só tinha noção de poucos nomes de atores e nenhuma de diretores, com exceção de Steven Spielberg, por questão de apelo popular. Muito menos havia visto alguma vez um nome de diretor em destaque.

k3.jpg

Naturalmente, chegou o dia e horário e pus-me a assistir. Quando me dei conta, estava chorando de gargalhar dos xingamentos e ofensas ditos por aquele tal de Sargento Hartman, e imaginando: “minha nossa, eles estão dizendo palavrões mesmo”. E terminei hipnotizado aquele filme, não gostando tanto da segunda metade quanto gostei da primeira (algo que melhoraria com futuras revisões, e que se ouve/lê de alguns até hoje).

De lá para cá, já devo ter visto o filme novamente cerca de três ou quatro vezes, e figura dentre meus preferidos.

k4.jpg

Laranja Mecânica – Seleção da Holanda?

Ao contrário de ver filmes, ler jornais nunca foi de meu costume. Portanto, mais uma vez a data foge à lembrança, e mais desconhecido ainda é o motivo de eu ter estado com aquele jornal em mãos, ou a manchete que eu estava lendo. Pois bem, descendo os olhos pela manchete, que teve algo com relação a cinema, um dos parágrafos terminava com uma comparação: “como Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick”.

Como alguém que sempre gostou de futebol e cujos principais filmes conhecidos eram Titanic ou À Espera de um Milagre, mais uma vez trabalhando a mente para o que me convinha, cheguei a um de vários dos espantos equivocados que uma criança tem aos montes: “nossa, o cara daquele filme doido de guerra lá fez um documentário sobre a seleção holandesa de 74!”.

Foi numa primeira visita a uma locadora Blockbuster que vi que não era nada daquilo. Frequentar locadoras e ver todos os títulos da loja, lendo atrás e vendo a capa, mesmo sabendo que nada seria comprado ou alugado, era uma atividade que me agradava. Estava lá o tal do Laranja Mecânica, que era, pela sinopse, um líder de uma gangue que depois passa a sofrer com aqueles que antes eram suas vítimas. Nada a ver com futebol.

k5.jpg

Mas meu segundo contato com um filme de Kubrick na verdade foi com outro: De Olhos Bem Fechados. E também começou com um jornal. Mas este jornal tem uma explicação: foi parte de um baú de mágicas do Mister M que ganhei lá pelos 6, 7 anos. E numa oportunidade que resolvi lê-lo, estava um anúncio com um pôster em preto e branco com o nome do filme, o rosto de um casal se beijando e somente três palavras, em caixa alta: Cruise. Kidman. Kubrick. Os dois atores tudo bem, mas olha de novo o nome daquele sujeito lá.

k6.jpg

E foi numa nova chamada do SBT que vi imagens do filme. Basicamente percebia-se que havia um conteúdo com insinuações sexuais. A única coisa que me fez querer ver foi a possibilidade de ver a bonita Nicole Kidman com pouca ou nenhuma roupa. Coisas da puberdade. Acabou que, só depois de mais um ano, no mesmo canal, consegui, vi o que queria, e não terminei o filme porque estava achando tedioso. Outro que melhorou com uma revisão.

Aí vieram meus 15 anos de idade. Foi numa noite de sábado, após assistir a Gigolô Europeu por Acidente. Ao terminar o filme, passei pelos canais, como de costume, e caí no TCM. O que apareceu na tela foi um local muito parecido com um teatro, com vários rapazes e uma moça chorosa, com música clássica ao fundo. Foi deslumbrante. Não mudei mais de canal e fiquei embasbacado com a sucessão de imagens, sons e palavras que apareciam. Não passaram comerciais então não tive contato nenhum com o nome do filme, mas meu subconsciente, puxando daquela sinopse de capa de DVD há anos, disse-me: é o Laranja Mecânica. No final, após dormir e acordar no dia seguinte, concluí que se tratava do melhor filme que já vi.

k7.jpg

Desde aquele dia, quis investigar mais a fundo a sétima arte. Conhecer cineastas, filmes mais clássicos e frequentar sites que falavam de cinema. Pode-se dizer que foi um divisor de águas nos meus hobbies. E Stanley Kubrick foi meu mentor, ainda mais depois de prosseguir com sua filmografia. 2001, Lolita, O Iluminado, Glória Feita de Sangue, etc. Filmes únicos, peculiares, frutos do trabalho de um profissional que não se contentava com pouco, que permanece até hoje como meu artista predileto.

k8.jpg

E você? Tem algo para contar sobre seu amor por alguma obra ou realizador?


Italo Lobo

Apreciador de humor, futebol, filmes, números, chocolate, dormir, comer, procrastinar, crônicas, livros de suspense/investigativos. Se ganhasse cada 1 real para cada asneira que diz ou escreve, não precisaria trabalhar..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Italo Lobo