monolito azul

Tentando desvendar o cinema, e, talvez, as outras coisas também.

Italo Lobo

Apreciador de humor, futebol, filmes, números, chocolate, dormir, comer, procrastinar, crônicas, livros de suspense/investigativos. Se ganhasse cada 1 real para cada asneira que diz ou escreve, não precisaria trabalhar.

Pneu, Tomates e Subversão de Paradigmas no Cinema

Porque é sempre bom uma fuga, um lampejo de sair do habitual, dentro de uma arte tão única.


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Tentar explicar todas as evoluções e mudanças que ocorreram dentro da Sétima Arte desde seus primórdios é uma tarefa praticamente impossível. O que começou como uma simples atividade de lazer para o proletariado, depois de um tempo alcançou todos os países e classes sociais. E como todos pensam diferente, é de se esperar que cada indivíduo ou grupo que se aventurou no mundo do cinema o fez de uma maneira distinta, própria. Hoje em dia, vemos variados temas e linguagens nos filmes, que dependem de sua época, autor, escola, ou as três coisas juntas. Nouvelle Vague, Expressionismo Alemão, as vertentes estão todas aí. Daí, conclui-se que o cinema não é e nunca será uma ciência exata. Não existe uma fórmula padrão para os filmes e isso acaba dando um charme a mais para eles, além de mais autoria para seus realizadores.

Como exemplo, há os legítimos filmes B, Trash, Exploitation e afins. O que acontece é que são filmes que não apostam em um roteiro maravilhoso, em atuações arrebatadoras ou efeitos especiais, e em sua maioria são de baixo orçamento e arrecadam pouco. Ou seja, vão em direção oposta às produções mais convencionais. E dentro deles há muito do absurdo envolvendo tudo, sobretudo sexo e violência de uma forma grotesca. Quem não admira ou pelo menos ouviu falar de Evil Dead, de Sam Raimi? Talvez seja o principal representante, e olha que a briga é boa, deste estilo cinematográfico.

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E nem os títulos dos filmes escapam da criatividade humana. O que já inventaram de assassinos... Vamos ver: Torradeira Assassina, Camisinha Assassina, Elevador Assassino, minha nossa, quem iria imaginar algo assim?

Com certeza, nem todos curtem esses lapsos absurdos de criatividade. Muitas pessoas têm preconceito com filmes que não possuem um ator ou diretor famoso, ou efeitos à la James Cameron. Pior: falam mal de filmes que sequer viram.

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"Em 1963, Alfred Hitchcock fez um filme mostrando um selvagem ataque de criaturas aladas a seres humanos... As pessoas riram. Em 1975, 7 milhões de pássaros invadiram uma cidade americana, resistindo a todos os esforços para expulsá-los... Ninguém está rindo agora. Este é um filme sobre tomates assassinos."

Ataque dos Tomates Assassinos. Em 1978, John de Bello dirigiu, escreveu, produziu, compôs música, fez tudo e mais um pouco neste que é considerado por muitos como o pai dos filmes B pós-Ed Wood.

Uma dona de casa queria simplesmente ter uma normal rotina de cozinheira. O que ela não esperava é que um vegetal estivesse vivo e tivesse más intenções. Mais tarde a polícia encontra-a morta, mas o líquido vermelho no cadáver não era sangue, e sim suco de tomate. E não foi um caso isolado. É um verdadeiro ataque acontecendo em vários lares do país, deixando até o exército em alerta.

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O presidente não quer que ninguém saiba disso, e manda um de seus homens para uma agência publicitária, para tentar encobrir os fatos. Um dos agentes do governo é escalado para investigar o caso, junto com uma equipe composta por um mestre em disfarces, um mergulhador profissional e uma atleta olímpica (que come um cereal chamado “steroids”). E para qualquer pergunta que façam sobre isso, devem mudar o foco. Já os jornalistas querem descobrir o que realmente está havendo, travando uma guerra particular com o governo.

Embora todos os sites de cinema classifiquem como terror, eu digo: de terror não tem nada aqui. E sim comédia, muita comédia. Se você gosta de Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu!, esse filme é pra você. O tipo de humor nestes dois filmes é idêntico. Também contém números musicais e até uma pitada de romance.

im4.jpg O mestre dos disfarces

Ah, que filme injustiçado (em minha opinião, obviamente). Já vi vários comentários do tipo "tomates assassinos, não vou ver esse absurdo" ou "desde quando tomates devoradores é algo que possa ser genial?". São comentários preconceituosos, que caem naquilo que disse anteriormente.

E por que tais julgamentos precipitados são inválidos? Simples: é um filme sátira, completamente sátira, e em plena década de 70, dentro da evolução do Blockbuster. É uma sátira ao governo, à mídia, e a outros filmes também, como Tubarão e Os Pássaros. Os tomates acabam ficando em segundo plano. Tudo aqui é debochado: em momento algum alguém procura explicar o motivo de os tomates estarem atacando, só vemos o caos e ponto final. Muitas das falas são improvisadas, as atuações não são boas, os efeitos especiais totalmente inexistentes, etc. O orçamento do filme foi baixíssimo, sendo que numa das cenas há um acidente de helicóptero que foi real, e fez o custo total ultrapassar os 90 mil reais anteriormente previstos.

Durante o filme, são várias as propagandas falsas, com letreiros que dão a entender que estamos num comercial de vendas; além de possuir canções alegres. Em suma: ninguém aqui leva nada a sério. Basta o espectador saber entender a proposta, apreciar e rir. Bastante.

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Com o tempo, Ataque dos Tomates Assassinos tornou-se um cult. Não por causa da maioria das pessoas, que o detestam, mas sim pela firme minoria, que ama e defende-o com unhas e dentes. Houve 3 continuações, mas nenhuma delas chega aos pés do original.

Longe de eu querer impor razão. Antes de tudo, este texto apresenta o meu ponto de vista. O que eu quero é que as pessoas saibam analisar situações, que não enxerguem o cinema como uma equação matemática.

Aliás, se alguma pessoa quiser falar mal de Ataque dos Tomates Assassinos (ou de qualquer outro filme), pode falar, deve falar e expor seus motivos e argumentações para ter detestado. Só peço que pelo menos tenha a decência de assistir ao filme antes.

im5.jpg Rubber - O Pneu Assassino

Um filme mais recente que tenta ao menos um pouco desconstruir os paradigmas do cinema é Rubber. Novamente, outro ser incomum recebe o rótulo de assassino: um pneu telepático. Novamente, podemos muito bem ser enganados pelo título ou pela sinopse.

Já nos primeiros 5, 6 minutos de filme, já fica claro o que podemos esperar dele. Um ambiente desértico, parado, e ouvimos um discurso que nos mostra o porquê de muitas coisas acontecerem na vida: sem nenhuma razão. Por que algumas pessoas gostam de salsichas e outras não? Por nenhuma razão. Por que a personagem E.T, criação de Steven Spielberg, tem a cor marrom? Por nenhuma razão.

O diretor, Quentin Dupieux, já parece querer dizer para nós, espectadores: "Ei, não espere nada sério, estamos aqui para a quebra de alguns valores dentro da sétima arte. Continuar assistindo depois disso é por sua própria conta e risco."

Veja, abaixo, a introdução de Rubber. Após ela, você pode tanto querer ver o filme quanto passar longe. Mas é inegável que é um dos momentos mais curiosos desta década.


Italo Lobo

Apreciador de humor, futebol, filmes, números, chocolate, dormir, comer, procrastinar, crônicas, livros de suspense/investigativos. Se ganhasse cada 1 real para cada asneira que diz ou escreve, não precisaria trabalhar..
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