monolito azul

Tentando desvendar o cinema, e, talvez, as outras coisas também.

Italo Lobo

Apreciador de humor, futebol, filmes, números, chocolate, dormir, comer, procrastinar, crônicas, livros de suspense/investigativos. Se ganhasse cada 1 real para cada asneira que diz ou escreve, não precisaria trabalhar.

Qual o Tamanho de Lionel Messi?

As atuações do craque argentino em 2015 permitem questionar novamente: qual o limite para Messi?


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Ao olhar para o time do Barcelona em seu período de hegemonia na Espanha e tido como o melhor time do mundo, entre 2008 e 2011 (antes de seu renascimento em 2015), é possível destacar vários fatores determinantes para o sucesso da equipe: desde a filosofia de jogo adotada por Pep Guardiola até o ápice de La Masia visto num time titular aliando competência técnica e tática com Puyol, Piqué, Busquets, Xavi e Iniesta. Mas é inegável que o destaque principal tenha sido um argentino nascido em Rosario de nome Lionel Messi.

O mais incrível de Messi não é a maneira de como ele surgiu para o futebol. Afinal, todo ano temos algum jogador promissor estreando num time profissional. O que é notável é sua evolução. Começou atuando na ponta-direita, um lugar óbvio para um atacante canhoto rápido e habilidoso, fazendo o que se espera desse setor do campo: dribles e arrancadas. Oras, na época em que estreou, o estilo do time catalão não era nem sombra daquele que consagraria o clube poucos anos depois. Tínhamos Ronaldinho em seu auge atuando com total liberdade no campo de ataque, do centro para a esquerda e vice-versa. Tínhamos Eto’o intocável como centroavante. Xavi ainda não era o cérebro quase infalível (se era, mal era notado) e Iniesta ainda era um jovem que entrava nas partidas às vezes como meia-esquerda, às vezes como ponta-esquerda.

lm2.jpg O primeiro de muitos golaços de Messi. Neste, a fila em meio time do Getafe lembrou o gol de Maradona contra a Inglaterra na Copa de 1986

Portanto, ainda não era hora de o argentino ser o protagonista. Só que ainda assim, sua importância foi aumentando gradualmente. E quando Guardiola assumiu e Ronaldinho não mais estava, Messi prosseguiu em sua posição de origem, mas de uma maneira mais objetiva, fazendo mais gols e dando mais assistências. Já na temporada seguinte, com Eto’o fora, o novo camisa 10 barcelonista passou a atuar no centro, como falso 9. Dali em diante, o mundo passou a ver quem era seu melhor jogador, que foi ficando mais letal a cada temporada, finalizando, cobrando faltas, assistindo seus companheiros, todos os fundamentos com cada vez mais desenvoltura.

lm5.jpg Messi saltando para vencer a defesa do Manchester United na final da Champions League 2008/09

Desnecessário comentar sobre seus gols antológicos. Ou acrescentar mais alguma palavra sobre o entretempo no qual faturou quatro bolas de ouro da FIFA. Acontece que houve um período no qual o “reinado” do grande jogador do século XXI passou de indiscutível para ameaçado, questionado.

A partida-chave para o preocupante declínio do craque foi um jogo de ida das quartas-de-final da UEFA Champions League da temporada 2012/13. Messi deixou o campo machucado após uma entrada dura de um atleta do PSG. E até o fim da temporada, foi acionado nas partidas de maior necessidade, mesmo com condições claramente prejudicadas. Naquele momento, ficou claro que a moral daquela constelação ficou destruída com a ausência de sua principal estrela.

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A Liga Espanhola daquele restante de temporada foi vencida devido à grande vantagem que o Barcelona construiu desde o início. Mas ficariam a temporada seguinte sem um título sequer. E o que se via em campo era um Messi aparentemente triste, abatido, assustado, incerto de estar realmente curado das lesões mais recentes que o atormentaram. Claro que todos os amantes do bom futebol preocuparam-se e se perguntaram se aquele fenômeno das quatro linhas nunca mais viria a ser o que já tinha sido.

Mas graças aos deuses do futebol, essa dúvida seria tirada da melhor maneira possível, num período no qual tudo se encaminhava para um clima turbulento.

lm8.jpg Em 2012, Messi bateu o recorde de gols marcados num só ano em toda a história: 91 tentos

A temporada 2014/15 seria diferente para o Barcelona e isso ficou claro já nos primeiros dias: punição da FIFA impedindo contratações, Xavi quase saindo do clube dias antes, Luis Enrique no banco como treinador e Luis Suárez como novo camisa 9.

Inteligentemente, Luis Enrique já posicionou Messi para “ensaiar” a equipe para quando Suárez voltasse de suspensão. Agora o argentino passava a atuar mais como meia de ligação. Tal mudança serviu tanto para um desafogo do ataque, que já teria Neymar e Suárez mais adiantados, quanto para a necessidade de uma nova referência no meio campo ofensivo, uma vez que, infelizmente, Xavi e Iniesta já não rendem em tão alto nível como antes.

lm1.jpg Que combinação!

O começo da temporada foi bom. Mas derrotas sucessivas e alterações absurdas colocaram o cargo de Luis Enrique em xeque. Porém, o ano de 2015 começou, e com ele uma arrancada arrasadora do time em geral, liderado pela batuta do maestro Lionel. No fim, mais uma tríplice coroa. Não é preciso descrever suas atuações, simplesmente foi decisivo e participativo mesmo quando não brilhou de fato, como na final europeia contra a Juventus.

lm7.jpg Outra grande combinação

O que vimos foi aquela que futuramente talvez seja vista como a melhor versão de Messi. Nem tanto pelo gol na semifinal da Champions League contra o Bayern, ou pela obra-prima contra o Athletic de Bilbao na decisão da Copa do Rei, mas por ter aperfeiçoado seu repertório. Continua assistente, goleador, fazendo gols também de cabeça e com a perna direita, dando passes perfeitamente, invertendo bolas, dando dribles e achando espaços que poucos conseguem repetir (ou ninguém).

lm3.jpg Boateng e o gigante Neuer estão procurando a bola até agora

Seu nome já está no rol dos melhores jogadores de futebol de sempre. Só o tempo dirá se figurará entre os 10, 5, 3 melhores. Ainda não dá para prever, ele tem apenas quase 28 anos e ainda pode nos presentear com mais de sua arte com a bola nos pés.

Não creio que os argumentos utilizados para diminuí-lo sejam válidos.

A maioria de seus gols é marcada contra times menores da Espanha? Isso vale para qualquer jogador que atua na Europa. Todos os principais campeonatos europeus possuem os favoritos e os coadjuvantes. Não temos os imprevistos e o equilíbrio do Campeonato Brasileiro por lá. Mas Messi já provou que também é eficiente em decisões e contra times gigantes.

lm4.JPG Camp Nou: o principal palco para suas magias

Nunca ganhou Copa do Mundo? E daí? Cada torneio de seleções ocorre a cada quatro anos, com no máximo umas sete partidas por equipe. Quer dizer que o homem pode passar quatro anos arrebentando no seu clube, mas se não conquistar o mundo com sua seleção não merece entrar para a história? Zico nunca ganhou nada com a seleção e é um jogador com uma história intocável. Puskas, Cruyff, Di Stéfano também não ganharam Copa. Alex, o melhor meia brasileiro dos últimos sabe-se lá quantos anos, nunca participou de uma Copa. Khedira, Özil, Götze, Schürrle, campeões do mundo com a Alemanha na Copa do Brasil, são melhores que os anteriores citados? Tudo questão de sorte também. Será que Pelé, no lugar de Messi em seus mundiais disputados, faria diferente? Messi nunca teve a companhia de Didi, Zagallo, Zito, Garrincha, Gérson, Tostão, Jairzinho, Rivellino...

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Messi só rendia porque tinha Iniesta, Xavi e a base da seleção espanhola para lhe servir? Dizer isso é afirmar que qualquer um no seu lugar faria tudo que fez. Ridículo.

Não vamos comparar Messi com Pelés ou Maradonas. Deixemos cada um em sua época. Vamos aproveitar que estamos presenciando seu futebol. Vamos vivenciar uma parte da história do esporte sendo escrita. Vamos gravar cada lance que estamos vendo ao vivo para repassar a nossos descendentes.

Obrigado, Messi, por ser o que posso chamar de “o melhor que eu vi jogar”. Todos os fãs do futebol têm muito que agradecer a ti.

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Italo Lobo

Apreciador de humor, futebol, filmes, números, chocolate, dormir, comer, procrastinar, crônicas, livros de suspense/investigativos. Se ganhasse cada 1 real para cada asneira que diz ou escreve, não precisaria trabalhar..
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