monolito azul

Tentando desvendar o cinema, e, talvez, as outras coisas também.

Italo Lobo

Apreciador de humor, futebol, filmes, números, chocolate, dormir, comer, procrastinar, crônicas, livros de suspense/investigativos. Se ganhasse cada 1 real para cada asneira que diz ou escreve, não precisaria trabalhar.

Descanse em Paz, Wes Craven!

Aos 76 anos, falece um dos maiores autores do cinema de horror americano. Mas seu legado permanece, e é incalculável.


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Wes Craven foi criado numa família com fortes princípios religiosos, e sua paixão por filmes começou somente quando os via, já adolescente e escondido de sua mãe, na época de escola. Formado em Inglês, Filosofia, Escrita e Psicologia, Craven viria a aplicar vários tipos de medo em sua filmografia, do sobrenatural à perda de uma pessoa querida.

Um de seus trunfos foi mesclar terror e amor em seus filmes, pois, ao analisar cuidadosamente alguns de seus trabalhos, podemos perceber que seus personagens são movidos por sentimentos muito mais dóceis que assustadores em si. Seja por perderem família, namorada, por ter sua mãe com câncer, etc.

Curioso é saber que Wes Craven nunca quis realizar filmes de horror. Difícil imaginar isso ao ver a lenda que esse sujeito virou.

Um livro sensacional sobre ele é “Wes Craven – The Man and His Nightmares”, de John Wooley. Vale muito a pena para quem quer saber de toda sua jornada para virar cineasta.

Agora, pequenos comentários sobre os principais exemplares de sua filmografia.

Aniversário Macabro (1972)

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O debute de Craven, em parceria com Sean Cunningham, futuro diretor de Sexta-Feira 13, é até hoje um filme forte para a sua época. Mesclando cenas fortes e muito humor, essa pequena pérola tem influência do cinema rebelde norte-americano em alta na época e é tido como uma versão mais marginalizada de A Fonte da Donzela, de Ingmar Bergman. No clímax do filme, vemos um pacato casal revelando seu lado agressivo quando se encontram com os assassinos de sua filha. Uma análise mais detalhada pode ser lida aqui.

Quadrilha de Sádicos (1977)

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Assim como em seu primeiro trabalho, Craven também adota aqui um estilo de horror cru, não se importando muito em estética. E a semelhança também vem com o fato de uma família aparentemente comum desenvolver seu extinto violento ao se confrontarem com o mal (no caso, uma área deserta habitada por canibais). Para muitos, seu primeiro grande filme. Leia mais sobre aqui.

Benção Mortal (1981)

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Não tão conhecido quanto seus antecessores, essa história sobre conflitos religiosos e uma força maligna oculta marca os primeiros passos de Craven dentro do estilo de terror slasher, que viria consagrá-lo. Os primeiros sustos da carreira de seu diretor e o clima de quem-é-o-assassino-misterioso tornam Benção Mortal um trabalho a ser apreciado pelos amantes do gênero. Mais sobre esse filme aqui.

A Hora do Pesadelo (1984)

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Fica difícil, mais de três décadas após o lançamento desse clássico do horror, acrescentar algo ao que já foi dito. Craven criou Fredddy Krueger, um dos maiores vilões do cinema, e revitalizou o gênero de uma maneira ainda maior que o ótimo e também influente Halloween, de 1978, do outro ícone John Carpenter. Visto hoje em dia, alguns efeitos parecem datados, mas a criatividade compensa. Dentro de seu mundo empírico, Freddy Krueger é quem dita as regras. Nada é impossível nos sonhos. O horror é inesperado, absurdo, anárquico. Merece o status que tem.

A Maldição de Samantha (1986)

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Embora este filme não figure dentre os melhores de seu realizador, é o caso mais curioso de que ele chegou a almejar outros ares. Finalmente tendo um orçamento considerável e trabalhando para um grande estúdio, Craven filmou o que queria: um drama/romance com toques de ficção científica. Mas foi pressionado a transformar em terror. Logo, a menina que dá o título em português ao filme, que foi ressuscitada graças a seu namorado gênio que nela implantou o chip do cérebro de seu robô, virou assassina na versão do filme que a gente conhece. E tornou icônica a cena na qual ela explode a cabeça da vizinha rabugenta com uma bola de basquete. Embora tenha falhas, A Maldição de Samantha consegue misturar momentos de ternura e pavor com a protagonista robotizada. Vale a assistida.

As Criaturas Atrás das Paredes (1991)

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Outro filme menos visto de Craven, essa salada de gêneros pode ser classificada como um “suspense sessão da tarde”. Um garoto negro cuja mãe está doente é induzido a invadir a casa de um casal ranzinza para roubar parte de sua possível riqueza, e descobre que nas profundezas da residência encontram-se criaturas sinistras. Mas não são essas criaturas os verdadeiros vilões dessa história. O que começa como um suspense claustrofóbico depois vira uma aventura labiríntica, com toques de humor-negro e uma baita crítica ao povo americano com o pai e a mãe sádicos, racistas, conservadores e autoritários. É um ótimo filme.

O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger (1994)

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Após cinco continuações de A Hora do Pesadelo, Craven reassume a direção no sétimo filme. Adotando a brincadeira de filme-dentro-do-filme, estranhos assassinatos começam a ocorrer no meio da gravação de mais um filme de Freddy Krueger. Wes Craven, o diretor, não consegue explicar por quê. O marido de Heather Langenkamp, a intérprete de Nancy, morre num acidente e seu filho apresenta um comportamento obscuro. Heather agora não consegue distinguir exatamente o que é real e o que é ficção. Terá Freddy Krueger virado realidade? A metalinguagem talvez nunca tenha sido trabalhada dentro do terror como aqui. Ainda assim, Craven faria melhor dois anos depois.

Pânico (1996)

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Nunca devemos esquecer que nada teria acontecido sem o ótimo roteiro de Kevin Williamson. Aí juntou à direção de Craven e tivemos o início de uma franquia que mudou a cara do gênero. Pânico brincou com os clichês do horror com uma habilidade única, numa autorreferência que não trata o espectador como estúpido. Nunca um filme de assassino mascarado juntou tão bem o cult e o popular. Ao mesmo tempo em que Pânico agradou a crítica, o público recebeu bem e a máscara do Ghostface virou um símbolo da cultura pop. Muitos viraram fã de terror a partir daqui. Foi criada toda a síntese de um gênero, que ganhou seu exemplar mais importante dos últimos anos.

Pânico 2 (1997)

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Sequências sempre nos deixam com o pé atrás. Mas aqui, a estrutura e a fórmula que deram tão certo no antecessor foram não só mantidas como também expandidas. Se o anterior era um filme de horror que falava e mostrava as regras de um filme de horror, esse aqui é uma continuação que fala e mostra as regras de uma continuação. Não dá para ficar subestimando a originalidade de Pânico 2, porque este faz parte do mesmo embrião do primeiro.

Pânico 4 (2011)

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Quem aprendeu a amar a saga como um todo não renega o terceiro filme. Ele foi massacrado por não ter mantido o vigor metalinguístico dos dois primeiros, muito pelo fato de o roteiro não ter sido novamente de Williamson. Mas a parceria dele com Craven retornou em Pânico 4. A fórmula já está desgastada e todos já sabiam o que esperar dessa quarta parte. Então, a estrutura repetitiva foi usada para se ajustar aos tempos atuais. Foram ridicularizados os meios de comunicação recentes, a facilidade de propagação de conteúdo com as redes sociais, a necessidade de alcançar status, o excesso de continuações e a falta de criatividade dos filmes de terror. Craven não esconde o desgaste, e sim o usa para expor o ridículo dos jovens de hoje em dia. Arrisco a dizer que é um dos filmes que melhor retrata a geração Y.

Você pode ler uma análise mais minuciosa da franquia Pânico aqui.

O cinema perde mais um de seus gênios.

Obrigado por tudo, Craven.


Italo Lobo

Apreciador de humor, futebol, filmes, números, chocolate, dormir, comer, procrastinar, crônicas, livros de suspense/investigativos. Se ganhasse cada 1 real para cada asneira que diz ou escreve, não precisaria trabalhar..
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