monolito azul

Tentando desvendar o cinema, e, talvez, as outras coisas também.

Italo Lobo

Apreciador de humor, futebol, filmes, números, chocolate, dormir, comer, procrastinar, crônicas, livros de suspense/investigativos. Se ganhasse cada 1 real para cada asneira que diz ou escreve, não precisaria trabalhar.

A Comunidade: Uma Excelente Comédia de Suspense

De um dos cineastas mais interessantes dos últimos anos, Álex de la Iglesia, conheça este pequeno grande trabalho.


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Um dos temas mais fáceis de encontrar dentro do cinema norte-americano é o famoso dinheiro. Não importa o gênero: comédia, suspense, policial, ação, aventura, sempre vemos o quão longe o ser humano pode chegar quando se vê na oportunidade de abocanhar uma quantia. Nessas situações, o dinheiro surge como uma possível solução para todos os problemas, quando na prática temos o inverso: graças à ambição dos homens (estes que viram verdadeiros robôs, movidos pela motivação de enriquecer, motivação que sobe à cabeça e vira a prioridade maior que a ética, que os costumes morais, que os outros seres ao seu redor), os problemas apenas aumentam. Quantas vezes os irmãos Coen, para ficar num só exemplo, não fizeram filmes que giram em torno disso?

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Portanto, é interessante observar um filme europeu que trata da mesma temática, ainda que de forma mais despojada, mas não menos trágica. Aliás, não trágica, e sim tragicômica, pois estamos a falar de Álex de la Iglesia. Para quem não conhece, este notável cineasta espanhol, que surgiu ali pelo começo dos anos 90, tem como principal característica a mistura do macabro, do absurdo, com um humor que pode variar do nível sutil ao puro sarcasmo. Em duas décadas de sua filmografia, podemos vê-lo passeando pela ficção científica (Ação Mutante), o horror fantástico (O Dia da Besta) ou até mesmo pelo western (800 Balas, seu filme que melhor representa sua paixão pelo cinema). E o elemento que une todos esses filmes é exatamente o humor-negro, humor sacana, que nunca soa repetitivo nos seus filmes. Iglesia é uma ótima pedida para quem quer enxergar além do já cansado cinema estadunidense.

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A Comunidade conta a história de Julia, uma vendedora de imóveis que vai mostrar um dos apartamentos da imobiliária para pessoas possivelmente interessadas em adquirir. Após uma tentativa sem sucesso, ela, cansada de sua vida e ao mesmo tempo encantada com a beleza do apartamento, instala-se nele. Ao ver um vazamento oriundo do andar de cima, com os bombeiros já solicitados, ela descobre que o morador faleceu há dias e permaneceu no seu apartamento apodrecendo. Como nova no local, ela espanta-se com o fato, mas seus vizinhos estão eufóricos, curiosos, como se já esperassem algo.

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Não demora muito para a grana aparecer. Julia encontra-a ao fuçar a habitação do falecido. É uma quantia enorme, e logo ela passa a agir na maior cautela. Mas ela percebe que os outros inquilinos estão estranhos, querendo algo com ela. E não por menos: há 20 anos, o velho rabugento havia ganhado na loteria, e todos do prédio aguardavam ansiosamente o dia de sua morte para repartir o prêmio. E todos os inquilinos que se recusavam a aceitar, tentando assim levar vantagem sobre os outros, tiveram um fim infeliz. Mas Julia foi quem pôs a mão, e ela não quer dividir com sujeitos tão malucos.

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Com um cenário que se limita quase que totalmente ao prédio no qual reside a comunidade, Iglesia cria um labirinto de situações tensas e cômicas, de uma mulher contra toda a vizinhança. Nem a polícia pode fazer algo a respeito, pois ninguém quer levantar alguma suspeita, e ela se vê perdida, encurralada. As situações são embaraçosas e engraçadas, dadas as peculiaridades de cada personagem. Temos o vilão mais cerebral, que tenta resolver tudo da maneira mais correta e pacífica, o vilão físico, que sempre perde a cabeça e quer partir para agressão, a mãe acovardada com o seu filho, o síndico, um rapaz fanático por Star Wars que todos pensam ser retardado (responsável por alguns dos momentos mais hilários do filme), as idosas, todos com um único propósito, todos há anos desesperados, sem contar que alguém aparecesse para destruir com seus planos.

E são nos momentos de clímax, com perseguições (in)tensas, que Iglesia cria uma atmosfera que absorve quem assiste. Um suspense de primeira, que prende o espectador até a última cena. Mais que recomendado.


Italo Lobo

Apreciador de humor, futebol, filmes, números, chocolate, dormir, comer, procrastinar, crônicas, livros de suspense/investigativos. Se ganhasse cada 1 real para cada asneira que diz ou escreve, não precisaria trabalhar..
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