monolito azul

Tentando desvendar o cinema, e, talvez, as outras coisas também.

Italo Lobo

Apreciador de humor, futebol, filmes, números, chocolate, dormir, comer, procrastinar, crônicas, livros de suspense/investigativos. Se ganhasse cada 1 real para cada asneira que diz ou escreve, não precisaria trabalhar.

Comentários Sobre Alguns Filmes de Terror do Ano

Pequenas impressões e reflexões sobre este peculiar gênero que nunca se esgota


hereditary1.0[1].jpg

Nos últimos anos, é possível constatar que o gênero terror dentro do cinema tem sido espremido e reciclado até não sobrar quase mais nada. Se por um lado não dá para dizer que está em alta em termos de qualidade, por outro, exemplares diversos não faltam por aí, explorando à exaustão todos os cenários possíveis, seja o slasher, o thriller, o sobrenatural, entre outros.

Como alguém sempre interessado pelo gênero e suas vertentes, gostaria de compartilhar algumas palavras e impressões dos que vi por esse ano e fazem parte dessa nova leva.

Ghostland

Dirigido por Pascal Laugier, o pai do já cultuado Martyrs (intenso filme francês realizado em 2008), Ghostland é uma versão menor do principal filme da carreira do diretor. Aqui está presente o mesmo niilismo, a mesma visão pessimista e melancólica da vida. Também temos duas jovens como protagonistas, e uma espécie de reviravolta que altera o curso da história.

ghostland[1].jpg

Não esperem aqui a mesma qualidade de Martyrs, que passeou pelo terror físico, psicológico e também pelo drama existencial, em todos esses sempre de maneira magistral. Mas Ghostland também é um bom filme que, se não traz nada de muito novo, ao menos foge um pouco do mais do mesmo que é produzido ano sim e outro também.

Um Lugar Silencioso

Partindo do princípio de que não é fácil, hoje em dia, subverter aos clichês do terror, muitas produções adquirem méritos por suas ideias até certo ponto originais. A premissa de A Quiet Place, na qual criaturas sanguinárias apreendem suas vítimas através dos sons que essas fazem, cria um enredo, e sobretudo um ambiente, que manterão o espectador grudado até os créditos finais.

A-Quiet-Place-review-featured[1].jpg

Felizmente, o filme não se perde e abraça sua causa sem pestanejar. Muitos filmes têm um bom começo, mas não conseguem sustentar-se até o final. Dá para dizer que aqui não é um desses casos. Pode-se questionar algumas saídas, algumas fragilidades do roteiro, mas se tem uma coisa da qual não se pode acusar esse filme é de ser desonesto. O diretor - e também ator - John Krasinski criou um dos trabalhos mais interessantes dos últimos meses.

Verdade ou Desafio / A Morte te Dá Parabéns

Tanto Truth or Dare quanto Happy Death Day entram no grupo de filmes de suspense com histórias, digamos, absurdas. Em uma, um jogo de verdade ou desafio no qual uma força sobre-humana tem o poder de matar quem não der continuidade. No outro, uma garota é assassinada no dia de seu aniversário e sempre acorda, tendo a chance de reviver seu dia e assim descobrir o que de fato aconteceu.

truth[1].jpg É cumprir com o desafio ou perder a vida

Em ambos os casos temos elementos de terror teen. Todos protagonizados por jovens, com seus estereótipos, munidos de todas as tecnologias e redes sociais possíveis. São filmes que se você aceitar a proposta surreal e embarcar sem muita exigência, a experiência pode ser até divertida, embora passageira. Agora, se for para exigir profundidade, é melhor procurar em outro lugar...

happy-death-day[1].jpg Um mascarado dando presente de grego

Hereditário

Talvez o grande hype do ano, sendo elogiado por alguns adjetivos superlativos, é até difícil escrever algo sobre Hereditary. Temos uma família em luto, que herdou uma casa, e diferentes eventos vão ocorrendo ao longo do filme, envolvendo dramas familiares do passado, do presente, morte, sobrenatural e bastantes simbolismos.

here4[1].jpg Esta família é muito unida. E também muito ouriçada

Tais simbolismos e/ou mensagens subliminares permitem naturalmente diversos pontos de vista. Aqueles que se familiarizarem com as metáforas ou com os símbolos tendem a gostar; os que não tiverem conhecimento algum, tanto podem condenar quanto amar mesmo assim, afinal de contas, não é preciso, dentro do cinema, entender tudo que está na tela. Às vezes os outros sentidos do corpo emitem o prazer de acompanhar a película e as imagens oníricas ou sem muito sentido podem agradar. Tem também os casos em que a interpretação foge daquilo que o realizador quis exprimir, mas a pessoa pega aquilo para si. Uma das maravilhas da sétima arte é o fato de não ser uma ciência exata.

O que me faz lembrar do que foi com Mãe! ano passado. Há quem diga que contém várias referências à bíblia, à filosofia e tudo mais. Indo numa onda oposta, não sou do time que defende e que adorou esses dois filmes. Até mesmo quem é leigo vai sacar que tem algo oculto ali em Hereditary, mas não exatamente o quê. Colabora também o fato de que este que vos escreve é mais chegado na área de Exatas. Algumas coisas como 2001, de Kubrick, ou de David Lynch, mexeram comigo. Não foi o caso aqui.

here1[1].jpg

Portanto, sobre Hereditary só me resta analisar o que eu vi em tela: é mais um dos casos de filmes vendidos como terror mas que parecem não aceitar totalmente tal rótulo, como se o horror fosse um gênero menor, de segundo escalão. Sempre tem que ter ali escondido algum fundo dramático, existencial, simbólico, às vezes tudo junto de uma vez. Claro que isso pode acertar em cheio, como foi a crítica social de Corra!, ano passado. Mas vai do gosto de cada um.

O que senti ao ver o filme com Toni Collete é uma indecisão sobre qual caminho vai trilhar. Lá pelo terço final, não tendo sustentado como deveria a história, estão lá os recursos de um filme de terror, meio que para salvar tudo. Ou para justificar a classificação do gênero, quem vai saber? Os sustos, as imagens, a trilha sonora, tudo aparece mais cedo ou mais tarde. Só que sem muito sucesso. É um filme indiscutivelmente bem filmado, com uma boa técnica, mas com um conteúdo e uma condução que certamente não satisfarão a todos.

here2[1].jpg

Claro que isso é apenas uma opinião pessoal.

Terrifier

Terrifier, de Damien Leone, vai num caminho oposto ao caso citado anteriormente: é assumidamente um terror, nada mais além disso.

A história e o roteiro não importam tanto a não ser como pano de fundo e mera desculpa para o assassino: o palhaço Art. É uma noite de Halloween, temos duas mulheres perseguidas pelo tal palhaço, e, mais tarde, mais personagens aparecendo. Mas tudo é um pretexto para Art sair matando e torturando geral. Tem ali algumas referências, o modo de filmar que lembra muito os anos 80, mas é um filme bastante simplório.

terrifier_1[1].jpg

Art é um palhaço que não fala, não emite um único som. E é cínico até não poder mais. No meio do horror de suas vítimas há espaço para caretas, gestos que chegam a ser hilários e podem arrancar risadas de quem assiste. Macabro, insano, doentio e com altas doses de gore, Terrifier é recomendado para quem quer ver matança sem fim e sem nenhuma razão aparente. Devo dizer que funcionou comigo e tem uma veia legitimamente slasher. E talvez o vilão mais sanguinário que o cinema já viu.

terrifier_04[1].jpg

Para finalizar: esse novo Halloween prestes a lançar parece algo bem digno, hein...


Italo Lobo

Apreciador de humor, futebol, filmes, números, chocolate, dormir, comer, procrastinar, crônicas, livros de suspense/investigativos. Se ganhasse cada 1 real para cada asneira que diz ou escreve, não precisaria trabalhar..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Italo Lobo