monólogos diálogos e discussões

Encontros (e desencontros) de ideias, coisas, pessoas, literatura, psicologia e cinema.

Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

E se Chico retratasse o cotidiano da mulher moderna?

E se Chico Buarque cantasse sobre o cotidiano da mulher moderna? Aquela que não faz tudo sempre igual. Que não diz coisas que dizem todas as mulheres. E que não espera o marido no portão. Como seria?


A música como retrato do nosso cotidiano, pode ser um poderoso instrumento na compreensão das mudanças que ocorrem em nossa sociedade. Ferraz e Romanholi (2008) ressaltam que a música, geralmente, é vista como simples objeto de diversão e apreciação, enquanto a poesia é vista como objeto do fazer artístico. Em contraponto, os mesmos autores apontam que existem músicas que sublinham mais do que a arte e “pedestalizam a História, a vida e todo esforço do compositor num trabalho belo e culto”. Assim, através da canção, seja ela objeto de diversão ou objeto do fazer artístico, podemos acessar algo que é coletivo a partir da perspectiva de uma única pessoa, ou seja, o compositor.

Chico Buarque de Holanda, cantor e compositor desde os anos 70, foi capaz de transpor para suas letras retratos da vida a partir de vivências próprias e de experiências compartilhadas por uma geração inteira. Homem, retratou em inúmeras canções, a força e o poder da mulher e, ao seu modo, discorreu sobre sentimentos e situações próprias à mulher no contexto em que ela estava inserida.

Mas, e hoje? Como Chico cantaria o cotidiano da mulher? Hoje, onde a técnica, a rapidez e a facilidade impera, como Chico, Caetano, Elis, Erasmo, Tom ou qualquer outro, retrataria o cotidiano da mulher no seu processo de mecanização?

A mulher elástico, como coloca a psicanalista Maria Helena Fernandes, “na busca de corresponder aos ideais próprios de sua época, precisa ser não só a mulher ideal, mas precisa também ter o corpo ideal”. Tem que ser mãe dedicada. Conservar-se sempre jovem. Estar sempre disposta para o sexo e apresentar uma diversidade de interesses que envolve, desde a busca pela barriga chapada até a solução para todos os problemas da humanidade.

É possível retratar o cotidiano da mulher sem perder a graça e a poesia? Aposto que os cantores e poetas já citados aqui fariam muito melhor, mesmo assim, quis escrever sobre o retrato frio, detalhado, duro, e nem por isso menos poético, da mulher moderna.

4h da manhã. Você acorda com vontade de ir ao banheiro. Fecha os olhos novamente. Tenta ignorar a necessidade, mas não tem jeito. Levanta. Ainda de olhos fechados, se arrasta até o banheiro, volta para cama e reza para ser meia-noite. A dúvida te corrói. Olha no celular. Desespera-se quando percebe que terá menos de uma hora até que o celular desperte novamente.

Um único pensamento te domina “Preciso dormir”.

Automaticamente todas as decisões que terá que tomar ao longo do dia tomam conta da situação. Desde a cor das meias que irá usar até o curso de pós-graduação que pretende fazer. As 4h15 da manhã todas as pendências da vida aparecem para afugentar seu sono.

Não é fácil. Mas, você resiste! Pensa com todas as suas forças “Preciso dormir”.

Começa a fazer as contas de quanto tempo ainda resta. Leva em consideração que, já que acordou, poderia levantar da cama e lavar o cabelo que pede socorro ou tomar um café digno com toalha forrada e pão quentinho da padaria da esquina.

Mas, não. Você não levanta! Não dorme. Não lava o cabelo. Não come pão quentinho da padaria.

Celular toca. Droga. Só mais 5 minutos. Mais 5. Mais 5. Mais 5. Mais 5. Droga de novo. Está atrasada.

Precisa passar a camisa. Olha pela janela e pensa “Está frio, vou ficar de blusa mesmo... Foda-se o ferro”. Para garantir, passa a gola. Veste a blusa. Ajeita o cabelo. Mastiga o que tiver mais perto e fácil. Escova os dentes. Confere o tempo lá fora. Confere o site de meteorologia. Coloca mais blusa. Cachecol. Luva. Sai de casa.

Dois quarteirões depois e você está carregando toda a roupa que tinha colocado. Sapato aperta. Lembra que esqueceu o carregador. Tarde demais para voltar. Hora de pegar o cartão do ônibus. Misteriosamente, o cartão que você achava ter guardado no bolso lateral se embrenhou nas profundezas ocultas dos bolsos falsos e você desiste. Procura moedas. R$1,50. R$2,25. R$ 3,00. R$3,20. R$3,25.

(Droga! Por que não briguei pela porra dos 20 centavos. Porque, convenhamos, não eram só 20 centavos)

R$3,30.

Trava na catraca. Ônibus lotado. Rinite atacada. Bolsa enroscando. Seu olhar busca pessoas uniformizadas da empresa mais próxima. Melhor garantir o lugar. Posição estratégica para não cansar o braço, não ser roubada, não ser encoxada e sentar assim que o cidadão sair.

Funcionou. Você senta. Checa o celular. Coloca os fones de ouvido. Um instante de paz.

Hora de descer. “Passou do ponto motô!”. Xinga a mãe do motorista. Mentaliza coisas positivas. Tem uma crise existencial. Reza. Pensa em se mudar para praia e vender picolé.

Hora de trabalhar. Hora de tomar o cafezinho. Hora de repassar correntes. Hora de ler todos os jornais da região. Hora de reclamar do trânsito. Do tempo. Dos políticos. Dos flanelinhas.

(E você nem carro tem)

Hora de trabalhar de verdade. Estomago roncando. Almoço. Sono profundo pós almoço. Horas estendidas. Calo apertando. Desodorante vencendo. Calor. Camisa amassada. Aquela que não passou.

Vontade de ir para casa, tomar banho, jantar, conversar com a família, ver novela e dormir.

Não. Você estuda. Vamos lá!

Pega a mochila. Se arrasta. Estômago ronca de novo. Seu sensor para coisas saudáveis e mais baratas possíveis aciona. Você pergunta o preço do lanche natural. Compra um saco médio de pipoca. Com queijo. Sem bacon. Bacon engorda.

Sono. Sono. Sono.

Você presta atenção na aula. Viaja para outro plano. Checa o celular. Conversa com os colegas. Reforça o professor com o olhar de “Estou entendendo tudo”.

Fim da aula.

Trem lotado. Gente que conversa como se não tivesse vivido o mesmo que você. Filhos da puta. Talvez não tenham vivido. “Se eu tivesse nascido rica...”

Chega em casa. Avalanche de perguntas. Como? Tomo banho? Converso com a família? Durmo? Faço sexo?

30 minutos perdidos pensando no que iria fazer.

Come. Dorme. Conversa com a família. Faz sexo.

(Não necessariamente nesta ordem)

Enfim, cama.

Hora de sonhar com a vida perfeita. Contar carneirinhos e dormir. Dentro de 4h você vai levantar da cama com vontade de fazer xixi.

Boa noite!

REFERÊNCIAS FERNANDES, Maria Helena. A Mulher-Elástico. Revista Viver Mente &Cérebro, 161:28-33. Disponível em: http://en.fundamentalpsychopathology.org/uploads/files/ii_congresso_internacional/mesas_redondas/ii_con._a_mulher_elastico.pdf. Em Julho de 2014.

FERRAZ, Sarah Menoya; ROMANHOLI, Durval Aparecido. A expressividade poético-musical em cotidiano de Chico Buarque. Disponível em: http://www.versaobeta.ufscar.br/index.php/vb/article/viewFile/216/176. Em Julho de 2014.


Luana Peres

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