monólogos diálogos e discussões

Encontros (e desencontros) de ideias, coisas, pessoas, literatura, psicologia e cinema.

Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

O profissional e o seu papel na criação do "ser doente"

O especialista, independente da sua área de atuação, não pode ser totalmente neutro no encontro com o outro. O profissional, enquanto fruto de uma condição social, pode atuar como agente transformador ou não. A leitura do texto da psicóloga Maria Helena Souza Patto nos leva a esta, e outras, reflexões.


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O texto gerador desta reflexão consiste em um dos capítulos do livro Formação de Psicólogos e Relações de poder: sobre a miséria da psicologia, organizado por Maria Helena Souza Patto, especialista em psicologia escolar. O livro contou com a colaboração de diversos autores e surgiu da indagação e indignação frente um trágico acontecimento, no qual, um laudo psicológico fez parte. A reflexão sobre o modo como nós, profissionais atuantes no campo da saúde, direito e educação, é fruto do capítulo: Pedindo Socorro à Parede. Sempre considerei pertinente a discussão à cerca do nosso compromisso social com relação ao outro. Afinal, até que ponto nossa empatia nos move?

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A indiferença que o texto cita ganha sentido quando pensamos que só atuamos em prol de uma causa quando esta, de alguma forma, nos toca. Com base nesta afirmação, eu só doo sangue quando alguém muito próximo está doente, só me preocupo com as leis de trânsito quando alguém muito próximo sofre um acidente, só me preocupo com os direitos dos negros, dos doentes, dos homossexuais, das mulheres, dos presos e dos animais quando eu, mesmo sem querer, de forma direta ou indireta, faço parte destas “minorias”.

Para o professor universitário e filósofo Mario Sergio Cortella “A neutralidade é maliciosa. Quando alguém se coloca como neutro, evidentemente, acaba assumindo um lugar ao lado de quem vencerá; seja essa vitória positiva ou negativa. A ausência de ação deliberada é uma forma de escolha, portanto, é uma ação também”.

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Ainda neste sentido, os autores ressaltam que a sociedade atual não impede a violência, ao contrário, propicia cada vez mais condições para que haja uma perseguição arbitrária aos mais fracos e pobres, perpetuando o silêncio, o medo e a indiferença. Segundo os autores, “a crueldade é inerente à forma de dominação técnica científica da natureza e dos homens contida no projeto iluminista”. Tendo em vista que a ciência é um poder, e assim um meio de domínio, podemos pensar que ao invés de trazer liberdade, a ciência faz justamente o contrário: oprime.

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Pensar que a ciência está associada a crueldade e humilhação pode, num primeiro momento, parecer um absurdo. No entanto, se refletirmos sobre o posicionamento de alguns profissionais frente à objetificação do ser, aliada a frieza científica manifesta, podemos perceber que a psicologia, enquanto ciência, bem como outras profissões, podem favorecer na cristalização de estereótipos e nos modos “aceitáveis” e quase des(percebidos) de violência.

Ainda mais grave que a “cegueira científica”, está a falta de ética e cuidado com o outro que, para mim, se estabelece como pilar fundamental para quem deseja atuar em prol de uma sociedade melhor. A escuta atenta e não punitiva aliada a uma postura livre de preconceitos é tão importante quanto trabalhar dentro do padrão técnico e científico estabelecido pelo conselho da nossa profissão. No entanto, o que os autores demonstram neste livro, é que o profissional, muitas vezes mergulhado em questões burocráticas e corporativistas, reproduzem modelos já estabelecidos e contribuem para a construção de um “ser doente” e “com grande potencial para o crime”.

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O especialista, independente da sua área de atuação, não pode ser totalmente neutro no encontro com o outro. No entanto, vale pensar que, por mais que o profissional tente se desviar do olhar duro já instalado pela sociedade, ele também é fruto de uma condição social que, provavelmente, o contaminou, ora para atuar como agente transformador a partir de suas ações, ora para se cristalizar diante da prática cotidiana. De modo geral, a violência que os pais e a escola não conseguiram compreender ou evitar é passado para o psicólogo ou psiquiatra que, obviamente, não está preparado para dar conta e repassa a responsabilidade para o poder judiciário, ocorrendo o que chamamos de “judicialização”. Neste processo, onde se criminaliza o adolescente e o faz refém de um sistema permeado por frieza, é que o profissional deve atuar, seja ele psicólogo, médico, policial, juiz ou educador. Tanto faz. Todos deveriam ter o compromisso de compreender e, só depois, atender de forma digna e respeitosa todo e qualquer caso que envolva a vida humana na fragilidade do seu desenvolvimento.

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O texto, como dito anteriormente, surgiu por conta da indignação dos autores frente um evento envolvendo dois jovens. No entanto, quantos eventos como este ocorreram e continuam ocorrendo debaixo de nossos narizes, sem que nos posicionemos num movimento maior que visa, antes de tudo, a formação completa e adequada do profissional, seja ele da psicologia, psiquiatra, direito ou qualquer outro campo de atuação?

Sobre nossa breve reflexão, cito o poema No caminho, com Maiakóvski, escrito pelo poeta Eduardo Alves da Costa em 1962:

“... Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história. Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na Segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada...”

REFERÊNCIAS

PATTO, Maria Helena Souza; MELLO, Sylvia Leser de; MANDELBAUN, Belinda, CROCHÍK, José Leon; SHINE, Sidney K. ; MENA, Luiz; LIMA, Luís Antônio Gomes; RODRIGUES, Heliana de Barros Conde; RAMOS, Conrado; SASS, Odair; FURLAN, Reinaldo. Formação de Psicólogos e Relações de poder: sobre a miséria da psicologia. Editora – Casa do Psicólogo. São Paulo: 2012 - 1ª Edição.


Luana Peres

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