monólogos diálogos e discussões

Encontros (e desencontros) de ideias, coisas, pessoas, literatura, psicologia e cinema.

Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

Quem tocar? O artista e sua busca por espaço

Há quem diga que, atualmente, não se produz arte com qualidade. No entanto, uma corrente de músicos, escritores, pintores, dançarinos e atores desconhecidos, estão no mundo para provar que você está errado. O artista toca o tempo todo, basta que esteja preparado para ser tocado.


Ao longo da vida, busquei uma aproximação maior com a arte. Tentando enxergá-la e conhecê-la melhor em toda sua plenitude e extensão, mergulhei, na medida que pude, na literatura, no cinema, na música, na pintura e na fotografia. Li crônicas, ficção, prosas e poesias. Os clássicos e os atuais. Os bons e os não tão bons assim.

Em busca de novas canções e cantores, escutei uma centena de bandas novas. Folk, rock, blues, MPB, Hip Hop, clássicas e disco. Assisti filmes franceses, escandinavos, brasileiros e argentinos. Desde grandes - e pequenas - produções hollywoodianas até pequenas - e grandes - produções independentes. Encantei-me com inúmeras fotografias. Desde as mais belas exposições de artistas renomados até os “instafotógrafos” que conseguem fazer de um simples prato uma verdadeira obra-prima.

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Para Freud (1976), todo o arista se manifesta através de sua insatisfação com o mundo externo. Partindo da premissa de que "a pessoa feliz nunca fantasia, somente a insatisfeita", o psicanalista coloca que "As forças motivadoras das fantasias são os desejos insatisfeitos". Deste modo, segundo a perspectiva Freudiana, a arte nada mais é do que fruto de um mecanismo chamado sublimação, na qual os impulsos sexuais reprimidos, por não serem aceitos, são desviados para uma meta alternativa de satisfação socialmente aceita.

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E entre satisfeitos e insatisfeitos, descobri uma imensidão desconhecida de gente louca, criativa, talentosa, engajada, sensível e alternativa... Uma verdadeira leva de grandes e desconhecidos artistas. Pessoas que brincam com palavras, dedos, cores, filtros, instrumentos e rimas. Pessoas admiráveis jogadas num site de vídeos disputando espaço com vídeos de propagandas, animais e crianças engraçadinhas. Artistas aos montes engolidos por anônimos, plagiadores e críticos. Gente que se desnuda. Que se embala. Que se mistura. Que se recria.

Gente que busca desviar da realidade frustrante a partir de fantasias e sonhos.

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Num mar de leveza e sensibilidade. Numa fonte de criatividade e inteligência descobri uma cultura rica.

Linda. Vasta. Serena. Profunda.

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Um mundo enorme cheio de pessoas que me fazem acreditar que não faltam artistas. Não. Definitivamente, não faltam artistas. Não faltam mãos que escrevam. Línguas que cantem ou corpos que toquem. Faltam, na verdade, olhos que leiam. Ouvidos que ouçam e corpos que sintam.

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Para Resende (2005), a arte é sobretudo um modo de conhecimento e, como tal, seu relacionamento com o mercado é sempre difícil. Segundo o autor, o interesse do artista é aprofundar um processo de investigação intelectual, enquanto o do mercado é ter um objeto vendável. Resende ainda coloca que, o lugar da arte tem sido mantido e apoiado pelas elites sociais e econômicas do país, em busca de um bem que lhes confira status e comportamento tradicional. E, mesmo com as novidades que o mercado apresenta, ainda há uma atuação delimitada que impede artistas de alcançarem um lugar dentro do que é considerado "arte vendável" segundo o sistema de elitização da arte.

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E, num mundo em que o capital é quem dita e, que quanto maior o fracasso, maior o sucesso, não me espanta que gente tão boa faça teatro e, paralelamente, anime festas. Componha belas canções e, paralelamente, faça jingles publicitários. Pinte quadros, tire fotografias, escreva poesias e continue, paralelamente, o seu trabalho, todo dia, no mesmo horário. E, mesmo que o palco da internet possibilite a exposição de toda arte, não há tempo ou pessoas suficiente para apreciar toda a grandiosidade que uma única obra de arte exprime.

Não há quem pague, não há quem assista, não há quem leia, não há quem invista!

(Ok, há quem sinta, ouça, leia, assista, invista... Mas poucos, muito poucos)

Ser artista é estar o tempo todo se equilibrando numa corda bamba. Entre a satisfação e a sobrevivência. A fantasia e a realidade. O desejo e a necessidade.

O mundo inteiro ainda parece um palco pequeno para tanta gente que precisa ser vista e ouvida. Todos os olhos e todos os ouvidos parecem não ser suficientes para acolher toda a arte que grita um artista.

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Pois bem, talvez viver assim, na possibilidade de nunca ser reconhecido, seja a sina de todo artista. Tocar sem que tenha alguém para ser tocado.

Obs.: Ao longo do texto, você se deparou com imagens de diversos artistas que são encontradas facilmente na internet. Propositalmente, não possuem legendas para que possamos refletir no anonimato que cada artista representa. Ele existe, mas nem sempre é reconhecido como deveria ser.

REFERÊNCIAS

FREUD, S. (1976). Escritores criativos e devaneio. Em Obras Completas de Sigmund Freud,vol. IX, Rio de Janeiro: Imago.

RESENDE, José. Formação do artista no Brasil ARS (São Paulo) [online]. 2005, vol.3, n.5, pp. 22-29. ISSN 1678-5320.


Luana Peres

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