monólogos diálogos e discussões

Encontros (e desencontros) de ideias, coisas, pessoas, literatura, psicologia e cinema.

Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

Um brinde a vergonha de todos nós

Os anos passam e as pessoas também. Porém, uma coisa sempre fica: A vergonha (nossa e alheia).
Por isso, de vez em quando, alguém precisa dizer: Você está feio!
Você vai ignorar, mas depois irá agradecer.


Alguém precisa dizer: Você está feio! Tudo bem, você vai ignorar. Dirá: É inveja, puro recalque! Se for alguém mais velho que você, vai dizer: Não sabe de nada, tio! Esta é a moda agora!

Meu filho de nove anos me ligou dizendo que sua avó (minha mãe) tinha comprado uma destas correntes grandes que os jovens usam.

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O diálogo foi mais ou menos assim:

-Você não vai usar isto! É feio!

-Mas, mãe...

-Não quero saber! Você não vai usar este negócio horroroso pendurado no pescoço! Já viu seu pai usando isso?

-Não...

-Então! Ele não usa porque é feio!

-Mas meus amigos usam.

-Porque são crianças e não tem noção do que é feio! Vai, pode tirar isso!

-Mas, mãe... Todo mundo usa!

-Você não é todo mundo.

Ponto. A fala final, presente no vocabulário de toda mãe que se preze, tinha sido dita. Depois desta, você imagina que a discussão é encerrada, certo?

Mas não. Não com o Alvaro.

E ele manda:

-Mãe, esta é a minha opinião agora. As pessoas têm gostos diferentes. Hoje eu sou criança e acho isso bonito. Você também não era assim?

Merda.

Infelizmente ou felizmente, a última palavra tinha sido dada por ele. Discussão encerrada. Ele estava certo.

Como é difícil para uma mãe engolir seus argumentos prontos do tipo:

"Você não é todo mundo!"

"Se todo mundo comer merda você também come?"

"18 anos o caramba! Enquanto morar nesta casa, embaixo deste teto, vai ter que me obedecer!"

"Porque eu disse e ponto final!"

"Porque eu sou a mãe!"

e admitir que seu filho, até ontem um bebê, está coberto de razão.

Lembrei que quando tinha 14 anos andava no estilo “roqueirinha”... Calça rasgada, roupa escura, bandanas e alfinetes no jeans e nas orelhas.

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(Sim, eu usava alfinetes nos lugares de brincos porque isso era super legal)

Eu e minhas amigas tínhamos uma infinidade de bandanas! Nós éramos as populares da escola. Afinal, era 8° série! Ultimo ano da escola Paulo Ferrari. Dominávamos o bagulho!

(Ok, a gíria é velha, mas está autorizada pois combina com a nostalgia do texto)

Usávamos uma perna da calça dobrada até o joelho, pulseirinhas feitas com fio de telefone, shorts por cima das calças, sobreposições bregas, brincos de pena, tênis de cores diferentes, calças com “pizza” na barra, papetes com meia, mechas de papel crepom, pirulitos de coração, óculos colorido e tudo mais que nos fazia parecer descoladas e originais.

Não posso reclamar. Minha mãe sempre deu liberdade para que eu pudesse passar vergonha à vontade e nunca reprimiu minhas customizações e esquisitices. Porém, minha avó, que não era tão moderninha como sua filha, fez comigo algo que eu jamais esquecerei. No ano de 2001, nas férias escolares, fui para casa da minha avó em Presidente Prudente. Obviamente, coloquei na mala tudo que achava mais bacana, inclusive, minhas bandanas que minha vó chamava “carinhosamente” de “lenços de merendeira”.

Durante os dias que fiquei por lá ela criticou tudo que fazia e vestia. Meus anéis. Minha minissaia. Meu “lenço de merendeira”.

Antes que voltasse para São Paulo ela rasgou e jogou minha bandana do lixo! Isso mesmo, no lixo! E sem pestanejar.

Isso acabou com a minha alegria de férias e fez com que eu deixasse de ver a minha avó como boa e velha vovó que faz bolinhos de chuva e vê-la como velha ranzinza e antiquada que corta o barato alheio.

A magia entre nós foi para o saco. Nunca mais foi a mesma coisa.

Claro, que analisando a mesma situação agora, não parece ter sido nada de grande importância.

Mas foi.

Eu senti tudo aquilo como algo extremamente doloroso e desagradável.

Enfim, um trauma adolescente.

A fala do meu filho me levou a refletir sobre coisas que fazemos ao longo da vida e achamos o máximo.

(Coisas estas que nos matarão de vergonha depois) Como:

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Por um lado, será positivo, pois você terá coisas engraçadas para contar aos seus netos ao invés de tempo para jogarem suas bandanas no lixo.

Por outro lado, você carregará um passado um tanto vergonhoso e algumas fotos vexaminosas que será obrigado(a) a esconder toda vez que levar um namorado ou namorada novo(a) para casa.

Devo ressaltar que nós, geração anos 80 e 90, temos uma grande vantagem em cima dos jovens de hoje.

Para nossa sorte (ou azar?) não existia celular ou câmera digital. Brigávamos por 12, 24, 36 ou, os muitos ricos, por 48 poses.

Elas não podiam ser perdidas com bobagens.

A vez que subi no palco de um circo e dancei a “boquinha da garrafa”. A vez que fui goleira numa partida de handebol e deixei passar nove (nove!) bolas...

Graças a Deus, momentos nunca registrados.

Os caras esquisitos que beijamos, os cortes de cabelos que arriscamos, as tatuagens de henna que fizemos...

Graças a Deus, nada registrado!

(Pelo menos, não oficialmente. Só na nossa memória, e isso já é o bastante)

Por fim, digo mais uma vez: Não é fácil ser mãe! Tudo que imaginamos nunca fazer, fazemos. Todas as coisas que duvidamos falar, falamos. E se não tomamos cuidado, estaremos, mais depressa do que imaginamos, jogando as bandanas e correntes de nossos filhos no lixo.

Esquecendo como é divertido e babaca ser estranho.

Quebrando toda e qualquer magia.

Obs. I: Quando uma criança deseja usar um relógio amarelo sport no dia de sua formatura, a mãe deve intervir! Pois, vestido branco de festa, definitivamente, não combina com relógio amarelo sport.

(Mãe, esta foi para você)

Obs. II: Os tempos mudam e sempre há espaço para todo tipo de gente e gosto. A moda é transitória e eu ainda acredito que um dia poderemos voltar a usar todas as coisas bregas que nos fazem falta sem culpa ou vergonha de ser feliz.


Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo .
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