monólogos diálogos e discussões

Encontros (e desencontros) de ideias, coisas, pessoas, literatura, psicologia e cinema.

Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

E o Negro? Põe na cota!

Quando 95% da população de um país diz existir racismo, enquanto 90% afirma não ser racista, podemos acreditar que teria o negro a mesma possibilidade de entrar nas Universidades e no mercado de trabalho que os brancos?


Este artigo é fruto da reflexão gerada sobre o trabalho de Monica Grin intitulado como “A celebração oficial da nova diversidade no Brasil” que baseia-se em análise de discursos políticos referentes ao termo Diversidade, bem como sua ressignificação nos últimos anos. Neste trabalho, a autora explana em seu texto a transformação significativa no modo que o Brasil tem concebido e tratado a questão racial, além de explorar uma série de questões relacionadas ao preconceito e as políticas públicas emergentes a partir da luta contra o racismo.

people.jpg A princípio, a autora apresenta uma nova leitura do termo Diversidade dentro do Governo atual. Segundo Grin, o conceito ressalta e afirma o reconhecimento da diferença racial como nova forma de direito. Assim, parece haver uma preocupação maior em explorar a desigualdade existente do que salientar um falso universalismo como era feito no governo anterior.

A crítica ao modelo antigo se firma, principalmente, na crença de que a negação das particularidades específicas de determinados grupos promove maior desigualdade e exclusão. Grin, ainda coloca que, “A ‘sutileza’ do racismo à brasileira asseguraria que atitudes racistas persistissem a despeito da lei de 1951 (Grin, 2003). Neste ponto, o que me chama atenção é o termo “sutileza” utilizado pela escritora. Pois, ainda hoje, mesmo com uma lei que ampare as vítimas de racismo, o preconceito racial se manifesta nas entrelinhas.

Algumas vezes escancarado, outras vezes maquiado, mas sempre presente.

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Recentemente, o episódio ocorrido num jogo de futebol, onde uma torcedora chama um integrante do time de “macaco” é, ora criticado duramente, ora suavizado por justificativas diversas. Fica claro que, mesmo diante de inúmeras conquistas alcançadas pelo negro, há um estigma que, vez ou outra, lhes é apresentado em diferentes formas de agressão. Desde agressões físicas graves até as agressões mais sutis e que, na maioria das vezes, passa por nós despercebidas.

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A autora ressalta também que “Se os negros (pretos + pardos) se encontram em sua maioria na base da pirâmide social, se seus salários para as mesmas funções representam quase a metade do que ganham os brancos, se o nível ou grau de escolaridade é menor do que o dos brancos, então, revela-se irrecusavelmente a exclusão dos negros dos progressos da modernidade e da cidadania no Brasil.”

Assim, ainda que a partir dos anos 90 tenha ocorrido uma mudança no governo brasileiro, que reconheceu pública e oficialmente, o Brasil como um país racista, é possível encontrar, ainda hoje, quem defenda o conceito de classes sociais como critério para o desenvolvimento de políticas públicas.

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O argumento deste grupo é que há pobres de todas as "raças". Logo, seria injusto direcionar tais “benefícios” apenas para pretos e pardos. Por outro lado, é sabido que a base da pirâmide social se constitui basicamente de negros, o que nos leva a pensar que há na própria história fatores que contribuíram para que esta população vivesse um atraso social significante devido sua condição racial.

Pensando que a abolição da escravatura foi há pouco mais de 100 anos, podemos considerar que o negro teve uma desvantagem histórica enorme em todos os setores. Desde o pouco acesso a educação básica até sua restrita entrada nas Universidades e no Mercado de Trabalho, o negro tem enfrentado diversos tipos de obstáculos.

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“...são claras evidências da construção oficial de uma retórica cuja motivação maior se encontra no desafio de reinventar ou de deixar que se reinvente a “raça” no Brasil, acreditando-se ser essa a melhor das lutas contra o racismo.” Existe uma discussão ampla e acalorada entre diferentes grupos referente a ideia de “raça” no Brasil. Há quem levante a bandeira de que o preconceito tem início ao evidenciarmos o conceito de raça, partindo do ponto que, de fato, “ser negro” é ser diferente do “ser branco”.

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Atualmente, é amplamente aceita a ideia da inexistência de raças do ponto de vista biológico. Há, ainda, a miscigenação constante e intensa, que dificulta a seleção dos grupos biológicos por raça. Esta afirmação baseia-se, fundamentalmente, no conceito de miscigenação e nos critérios utilizados para que alguém possa se intitular como “negro”, tendo, inclusive quem diga que esta auto nomeação possa ser tendenciosa.

Vale ressaltar que este pensamento parte tanto de pessoas brancas, quanto de pessoas negras pois, na construção desta reflexão busquei ouvir a opinião de diferentes pessoas e, a maioria negra, disse ser contra o conceito de raça e, inclusive, o sistema de cotas, por exemplo. O argumento mais forte foi o de desconstruir a ideia de que negros são vítimas da sociedade e de que, por isso, mereçam benefícios diferentes. De acordo com este grupo, estes “privilégios” reforçariam a ideia de que são incapazes de conseguir algo por mérito próprio.

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Em contraponto, todos concordam que sofrem ou já sofreram alguma forma de preconceito. Logo, poderiam apresentar uma dificuldade maior em acessar determinados campos, não fossem os tais “privilégios”. É importante pensar que por muito tempo os negros eram compreendidos e tratados como raça inferior e incapaz de produzir trabalhos intelectuais devido sua “baixa inteligência”. Hoje, no entanto, se sabe que não há este tipo de especificidade nas raças e que o que gera a solidificação deste conceito equivocado está relacionado a fatores sociais e não biológicos.

Oferecer ao negro uma possibilidade maior para que este possa construir seu espaço com igualdade não é reconhecer que são pessoas incapazes, ao contrário, é reconhecer que, mesmo depois de oficialmente serem libertos foram dominados por uma elite branca que em nenhum momento ofereceu condições adequadas para que pudessem ter acesso à educação de qualidade, moradia, emprego e trabalho.

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Por anos os negros foram marginalizados e, se há uma parcela negra rica e em posições privilegiadas, são a minoria, o que significa que não podem servir de modelo de representação da população negra.

Acredito ser válido todo tipo de questionamento pois, concordo que não há verdades absolutas e programas perfeitos. Concordo também que devemos ter um posicionamento crítico frente as propostas apresentadas por partidos que utilizam classes minoritárias como ferramenta para seu próprio crescimento. No entanto, penso que algumas pessoas, de forma equivocada, criticam o manejo atual desconsiderando as tentativas de, por que não, reparação social.

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Por fim, obviamente, não podemos desconsiderar a singularidade de cada indivíduo, mas também não podemos abandonar a força e a importância do conceito grupal. Oferecer uma gama maior de possibilidade ao negro, não o coloca num lugar privilegiado, mas num lugar onde o branco sempre esteve. E, quando faço a divisão de brancos e negros, levo em consideração que dentro de cada grupo existam exceções, mas reforço também, mais uma vez que, estas exceções não representam a maioria (ok, redundância percebida).

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Um mundo sem distinções seria ideal, porém utópico.

Se queremos igualdade devemos partir do pressuposto de que houve e ainda há diferenças significativas entre as “raças” que foram construídas, não pelo material biológico e, por vezes, imutável, mas sim pelas condições sociais instaladas ao longo dos anos.

Inferir que cotas raciais não são a solução para o problema racial pode ser considerado pois, esta é apenas uma medida e como toda medida, tem suas falhas e deve ser melhorada. Por outro lado, mesmo sabendo que esta não é uma solução definitiva e que, a longo prazo, o ideal seria melhorar a qualidade da educação pública, devemos pensar que medidas urgentes são necessárias pois, é inviável fechar os olhos para realidade atual.

Sendo o Brasil um país onde 95% da população diz existir racismo enquanto 90% afirma não ser racista, podemos acreditar que teria o negro a mesma possibilidade de entrada nas Universidades e no mercado de trabalho não fossem as cotas?

Penso que esta é uma questão fundamental para a continuidade deste debate.

As imagens deste artigo são do artista Carlos Henrique Latuff de Sousa, cartunista e ativista político brasileiro. Veja seu trabalho completo em: http://latuffcartoons.wordpress.com/

REVISTA USP. A celebração oficial da nova diversidade no Brasil. São Paulo: Revista USP, 1993.n. 68, p. 36-45, Dezembro/Fevereiro, 2005-2006.


Luana Peres

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