monólogos diálogos e discussões

Encontros (e desencontros) de ideias, coisas, pessoas, literatura, psicologia e cinema.

Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

Perto do Fim

Perto do fim, você tenta tudo, menos aceitar que chegou ao fim.


Perto do fim, você se desespera, fica louco, chora, bate o pé, ameaça, grita, implora. Perto do fim, você perde a razão. Perde o sentido. Perde o orgulho. Perde a esperança. Perde o brilho.

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Pompéia e Sapienza (2004) colocam que, ao falar de desfecho nos lembramos de encerramento ou fechamento de algo que vinha sendo preparado. Este algo pode ser o fim de um processo seletivo em uma empresa, uma viagem, um relacionamento, uma vida.

Perto do fim, vivemos a angústia de lidar com o encerramento de algo que nos fazia sentir e, consequentemente, nos fazia sentido. Vivemos como se aquilo que se fecha enquanto possibilidade para nós fosse a sentença definitiva do fim de uma vida. Esquecemos, em meio à dor da perda, que quando algo se fecha, algo também se abre. Os fins de um amor, de uma amizade e de uma rotina, podem simbolizar para alguns, o fim da vida, no entanto, esquecemos que o desfecho, antes de simbolizar o terror iminente do fim, também representa abertura.

O Recontar de uma história.

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Os mesmos autores apontam ainda que, o reencontro com os significados e significações que vivenciamos a partir dos desfechos, permite uma compreensão dessas perdas e o crescimento de um “saber viver de novo”.

A ideia de compreender o final como abertura para o novo, não significa que o final de algo não possa ser sentido e vivenciado como algo doloroso. Em seu livro “Na Presença do Sentido”, Pompeia chama a atenção para a maneira comum e sutil que pessoas “bem intencionadas” têm de nos acalmar. Elas dizem com convicção:

-Isso vai passar.

E é verdade, vai passar.

Tudo passa.

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Mas qual o perigo de se agarrar a esta afirmação como única verdade?

Quando dizemos que tudo passa, estamos, de certa forma, afirmando que tudo se nadifica e que o nosso sentir, que naquele momento dá sentido as nossas vidas, pode ser facilmente quebrado e desvelado como algo precário e enganoso.

“Aquilo que no desfecho se dá, ainda que seja o abandono, é a oportunidade da compreensão de alguma coisa que, de fato, se deu. Se não foi do jeito como esperávamos, mesmo assim, o acontecido não significa um nada. No começo a compreensão está permeada de obscuridade, o desejo de encontrar luz e a vontade de tornar a mergulhar em algo significativo e cheio de vigor” (POMPÉIA & SAPIENZA, 2004).

Buscando o equilíbrio entre as coisas que passam e a nadificação destas coisas, lembro de Ariano Suassuna ao constatar que: "O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso."

Não dá pra mergulhar num mar de dor, lágrimas e escuridão. Por outro lado, não se pode cegar frente um brilho excessivo e um aparente esquecimento daquilo que foi vivido e que faz parte do que chamamos de “Nossa História”.

Nossa visão enquanto humanos é bastante limitada e, aquilo que pensamos ser bom ou melhor agora, pode não ser bom ou melhor depois. Agarramos-nos aquilo que temos por medo de viver o novo, por medo de perder o velho. Aquilo que é conhecido oferece conforto. O desconhecido oferece risco e instabilidade.

Já ouvi dizer que, às vezes, quando você perde, você ganha.

E, através da compreensão da experiência humana na nossa frágil condição de ser finito, penso que:

Sim, você perde. Você acaba. Você vive a dor do fim. Por outro lado, você nasce, renasce, começa, recomeça, inventa, reinventa, apaixona e desapaixona.

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Como coloca Guimarães Rosa, em sua obra “Grande Sertão: Veredas”, “o importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam."

E, nesta ciranda da vida, é que a gente dança, é que a gente vive...

“Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar...”

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REFERÊNCIAS

POMPÉIA, João Augusto e SAPIENZA, Bilê Tatit. Na presença do Sentido: Uma aproximação fenomenológica a questões existenciais básicas." São Paulo: EDUC/Paulus, 2004.

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.


Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo .
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