monólogos diálogos e discussões

Encontros (e desencontros) de ideias, coisas, pessoas, literatura, psicologia e cinema.

Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

Quem votou na Dilma pode reclamar? Breve discussão sobre a liberdade de escolher

Não só pode, como deve. Todos podem reclamar com a consciência de que, apesar de livre para escolher, não temos que ser, necessariamente, eternos escravos por nossas escolhas.


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Nos últimos meses, percebi um grande número de post ressaltando que, quem votou na presidente (ou presidenta, como preferirem) Dilma, não pode se queixar da situação que o país se encontra, nem cobrar o atual governo. Partindo da (triste) constatação de alguns que o eleitor deve ser atônito frente a política do país pelo fato de ter elegido o candidato X, levanto a questão: Quem votou na Dilma, pode reclamar?

Não só pode, como deve.

Quem votou no Aécio, quem voltou na Marina, quem votou no Eduardo e quem votou na Luciana. Todos podem reclamar!

A escolha de um candidato não te faz (ou ao menos não deve fazer) conivente com seus erros e tropeços e, tão pouco, estático frente seus planos de governo. Cada um tem seu critério para a escolha de um candidato, seja ele presidente, governador, deputado ou vereador e, vale ressaltar, que nem sempre são critérios justos e corretos, como:

Ele(a) é carismático(a); Eu acho que ele(a) vai ganhar; É só um voto de protesto; Ele(a) é da minha cidade/estado/igreja e me representa; Ele(a) me arrumou emprego/vaga na escola/lugar no estacionamento/ingressos para shows.

(e tudo isso não foi gerado através de políticas públicas, mas de favores que custam caro, muito caro)

Grosso modo, para escolher um candidato de forma coerente é preciso, minimamente, compreender suas propostas de governo e votar naqueles que conseguem se aproximar dos seus próprios ideais políticos, sem deixar de lado questões coletivas e que envolvam o bem estar de todo um país.

(O que, convenhamos, não é nada fácil)

Não sei se é uma característica da sociedade atual, mas percebo que grande parte das pessoas tendem a produzir uma espécie de maniqueísmo político, pregando e vivendo a filosofia dualística que divide o mundo entre bem e mal. Para estas pessoas, oponentes políticos se assemelham a Deus e ao Diabo, como se eles fossem pontos extremos de uma grande batalha em que o mocinho é perfeito, humilde e sofrido, enquanto o vilão, personagem mau, sem escrúpulos e desonesto.

Acontece que o mundo não se faz de polos antagônicos, nem tão pouco de pessoas totalmente boas ou totalmente ruins. O filósofo inglês Thomas Hobbes em sua obra “O Leviatã” apresenta a teoria que o homem é essencialmente mau e, deste modo, precisa de um estado autoritário, que dite as regras e as normas de convivência (HOBBES, 2006).

Por outro lado, Jean-Jacques Rousseau apresenta a crença de que o homem é essencialmente bom, embora esteja sempre sob o jugo da vida em sociedade, que o torna predisposto à depravação. Para o filósofo, o homem se transforma em uma criatura má, a qual só pensa em prejudicar as outras pessoas, na medida em que se agrupa. Assim, a ideia é de que somos primitivamente generosos, mas nos tornamos maus graças ao contexto social desigual no qual somos lançados (CASSIER, 1999).

Para Freud, a ideia do objeto externo como responsável pela hostilidade e corrupção humana é inviável, pois, segundo ele, a agressividade faz parte da constituição do homem e, ainda que a propriedade privada fosse abolida, homens seriam hostis, pela simples razão de que são agressivos por natureza (FREUD, 1976).

Voltando ao contexto político, Rousseau coloca que: “Como os homens não podem criar novas forças, mas só unir e dirigir as que já existem, o meio que têm para se conservar é formar por agregação uma soma de forças que vença a resistência, com um só móvel pô-las em ação e fazê-las obrar em harmonia. (...) Cada um enfim, dando-se a todos, a ninguém se dá; e como em todo sócio adquiro o mesmo direito que sobre mim lhe cedi, ganho o equivalente de tudo quanto perco e mais forças para conservar o que tenho”.

(Mas espera! Não falávamos que quem votou na Dilma pode reclamar? Sim, falávamos e continuamos falando)

Tentando compreender a razão de não podermos ser caracterizados e estagnados em posição de bom ou mau, adorador de Deus ou do Diabo, esquerda ou direita, liberal ou conservador, seguidor de este ou aquele e, assim podermos escolher, votar, mudar, reclamar, protestar e exigir mudanças, recordamos o pensamento do filósofo francês Jean- Paul Sartre. Para ele, não há nenhuma natureza humana predeterminada, e o homem, nada mais é, do que um projeto que se faz, se constrói e se torna fruto de suas escolhas e de suas opções. O ser livre, neste caso, não é apenas escolher o que se quer, mas arcar com o verdadeiro peso e a responsabilidade que esta liberdade oferece.

É comum, ao menor sinal de problemas, buscarmos culpados e identificarmos os vilões, sejam estes os outros ou o sistema político que nos rege. É comum a nós, nos isentarmos da culpa de nossas escolhas e, paralelamente, buscarmos a tal liberdade que, hoje, é desenvolvida de modo individualista.

Partindo deste ponto, eu escolho por mim e culpo o outro por seus fracassos. Esquecemos que, para o existencialismo, ao jogar toda a responsabilidade de nossas ações sobre nossos próprios ombros, ela se torna liberdade, mas de uma forma cruel e desconfortável (SARTRE, 1997).

O que quero apontar com estas breves teorias é que todo e qualquer candidato, bem como qualquer um de nós, está sob a condição humana que nos rege. Todos somos lançados nesta abertura existencial e temos que lidar, cada um a sua maneira, com aquilo que nos é apresentado, tanto de dentro para fora, quanto de fora para dentro.

É impossível dizer que o candidato X é totalmente bom e o candidato Y totalmente mau. É difícil definir o que é melhor para todos, visto que sempre partimos da nossa visão individual de mundo. Entretanto, nos parece muito fácil projetar nestes nossas más escolhas e falta de discernimento ou coerência política.

Tudo isto para dizer que, eu posso reclamar, você pode reclamar, todos podem reclamar.

Mas, mais do que reclamar, nós podemos nos ocupar do peso de nossas escolhas, arcar com nossa responsabilidade enquanto cidadão do mundo e compreender que somos seres em constante processo de transformação.

Seres que erram e caem, mas que possuem a chance de questionar seus próprios passos e trilhar novos caminhos independente de uma possível má escolha.

Estes somos nós, nem bons, nem maus, mas bons e maus.

Obs.: Obviamente, as teorias aqui apresentadas são apenas recortes de obras e ideias bastante complexas e que não podem ser explanadas de forma ampla e profunda num único texto.

REFERÊNCIAS

CASSIER, E. A questão Jean-Jacques Rousseau. São Paulo: Ed. UNESP, 1999.

FREUD, Sigmund (1976). A dissolução do complexo de Édipo. In: Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão. vol. 19. Rio de Janeiro: Imago, p. 221.

HOBBES, Thomas. Leviatã. Ed. Martin Claret, São Paulo, 2006.

CASSIER, E. A questão Jean-Jacques Rousseau. São Paulo: Ed. UNESP, 1999.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de fenomenologia ontológica.Tradução de Paulo Perdigão. 5º ed, RJ: Vozes, 1997.


Luana Peres

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