monólogos diálogos e discussões

Encontros (e desencontros) de ideias, coisas, pessoas, literatura, psicologia e cinema.

Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

Como e sobre(viver) a existência do outro?

Entre a possibilidade do tudo e do nada, da surpresa e da monotonia, estamos nós, vivendo a ilusão de que temos controle sobre todas e quaisquer coisas, pessoas e situações. Imaginando que viveremos os planos feitos na virada do ano ou as promessas que fizemos naquela manhã de segunda-feira. Tolos, pensamos ser donos do nosso destino, das nossas escolhas, das coisas que temos e das pessoas que amamos.


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A (co)existência nos mostra que, a qualquer instante tudo pode mudar. Em um segundo, qualquer coisa pode acontecer. Em um minuto, você pode sair do lugar, seu caminho desviar, sua vida revirar.

Num intervalo mínimo entre inspiração e expiração, coisas começam, coisas acabam.

Você não tem controle sobre isso e, ainda que se sinta responsável por seu destino, não tem ideia de como pode se surpreender com a chegada e partida de coisas, situações e pessoas que, até então, lhe pareciam eternas.

Na mesma medida que tudo pode se dar, nada significante pode ocorrer. Sem uma entrega verdadeira ou uma disponibilidade afetiva que permita o afeto do outro, em um minuto, em uma hora, em um mês ou em dez anos, você pode, simplesmente, nunca sair do seu lugar, nunca desviar o seu caminho, nunca revirar sua vida e viver, dia-a-dia, de forma estática, passiva, monótona, solitária e superficial.

Entre a possibilidade do tudo e do nada, da surpresa e da monotonia, estamos nós, vivendo a ilusão de que temos controle sobre todas e quaisquer coisas, pessoas e situações. Imaginando que viveremos os planos feitos na virada do ano ou as promessas que fizemos naquela manhã de segunda-feira. Tolos, como se pudéssemos viver sós, pensamos ser donos do nosso destino, das nossas escolhas, das coisas que temos e das pessoas que amamos.

Somos, desde sempre, experiência imediata de mundo e, a partir de nossa percepção do meio, desenvolvemos atitudes e novos modos de ser e estar com aquilo que se apresenta. Diferente dos demais seres, nossa humanidade nos permite dar conta da própria vida, sustentá-la e ampliá-la. Abertos sobre um feixe de possibilidades, podemos transcender, surpreender e viver a contradição de ser no mundo sem o controle da vida e de qualquer certeza sobre o seu destino.

Em nossa (co)existência, nos tornamos reféns da novidade e saudosos de uma familiaridade frágil e singular. Objetos daquilo que criamos, figurantes da vida alheia e, ainda assim, protagonistas das nossas histórias. Que coisa louca! Pensar, agir e sonhar com a possibilidade de controle e com a ameaça iminente do fim. Fim das coisas, fim das pessoas, fim das relações, fim das certezas, fim dos lugares.

Seu fim.

Nós, entes dotados da abertura do ser, apresentamos aspectos existenciais que são características ontológicas constituintes do existir humano. Dentro desses aspectos, vivenciar novos modos de ser em presença de um outro é uma ação que deixa marcas. Lançados ao encontro de um terceiro elemento - o espaço do “entre”- nossas certezas desmoronam e, na medida em que cruzamos o caminho alheio, nossos caminhos se perdem.

Esse encontro é a energia da vida, é o que possibilita a mudança, é o que te faz sair do lugar, virar, desvirar, perder a direção que achava poder controlar.

Como sobreviver a isso? Como sobreviver ao outro? Como sustentar a existência do alheio e como dar sentido ao espaço do entre?

Não há respostas. Só a angústia e a delícia do (con)viver.


Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo .
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