monólogos diálogos e discussões

Encontros (e desencontros) de ideias, coisas, pessoas, literatura, psicologia e cinema.

Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

A tal liberdade

Meu filho de 11 anos fez seu pedido de natal: liberdade. Eu tentei. Juro que tentei. Mas como a gente vive livre num mundo onde as prisões sociais predominam e nos fecham num círculo de medo e indignação passiva? Desculpa, mas a liberdade fica para o ano que vem.


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Hoje acordei com o desejo de escrever algo. Pesquisei, revisitei ideias, escolhi palavras e, antes que pudesse concluir meu texto sobre "as mentiras que o cinema e as pessoas contam" (que por hora ficará na gaveta) fui surpreendida por algo inusitado e ao mesmo tempo extremamente familiar.

O pedido do meu filho neste natal foi um tanto peculiar.

Peguntei e ele mandou na lata: Quero liberdade!

Quem me conhece, sabe a resistência que tenho em deixá-lo seguir sozinho. Estou sempre intervindo em suas brincadeiras e chamando atenção para que tome cuidado com tudo...

"Olha o cocô do cachorro", Olha o buraco", "Olha o carro", "Olha a chuva", Olha esse cadarço desamarrado", "Olha esse molho na camisa", "Olha essa tampa de bueiro solta", "Olha essa linha com cerol", "Olha essa mão suja na boca"...

Pra quem está de fora, fica claro, eu sou a mãe neurótica com pensamentos catastróficos. Eu super privo meu filho de viver. Eu super protejo. Eu super encho o saco. Eu super faço tudo errado.

De tanto ouvir o clamor alheio e a solicitação desesperada do meu filho sobre andar sozinho, decidi dar pequenos passos para que ele pudesse, aos poucos, sentir-se mais autônomo e (porque não) livre!

Pois bem, dei a ele vinte reais e pedi que fosse até a costureira pagá-la! Parece uma bobagem, mas era a primeira vez que ele podia ir "tão longe" e com "tanto dinheiro".

Passou um longo tempo, até que ele chegasse chorando. Contou que dois meninos o pararam e o ameaçaram para que desse o dinheiro. Alguns insultos e um murro nas costas. Uma ferida no ego de um pré adolescente que se acha o Daniel San nas aulas de Karatê.

Ao ouvir o relato do meu filho pude, finalmente, responder a questão que me fazem sempre que dou uma aula sobre direitos humanos.

"E se fosse com seu filho?"

A resposta sempre foi: Não sei como reagiria numa situação onde a emoção predomina, mas num plano consciente e hipotético, sou categórica, não resolvemos o problema da violência com mais violência!

Então, passando da hipótese para o real e do estado de plena consciência para o furor da emoção, saí de casa. De pijama, descabelada, chinelos trocados, portão aberto e cega de raiva.

Andei, quase corri. Fui o mais rápido que pude até os meninos que meu filho apontou e me deparei com duas crianças empinando pipa.

Descalços, sujos, franzinos. O menor tinha dez anos, parecia ter cinco. O maior tinha quatorze, parecia ter dez. Perguntei sobre suas mães. "trabalhando", foi a resposta.

Com uma cruz no pescoço, o mais novo continuou cuidando do seu pipa e respondendo com descaso as perguntas que fazia.

-Acredita em Deus, Cauã?.

-Acredito.

-E como acha que ele fica quando vê uma criança batendo na outra?

Não tive resposta. Ele tomou distância e passou a praguejar do outro lado da rua enquanto o seu parceiro me olhava. Na superfície, um garoto maltrapilho, mal educado, grosseiro. No fundo, jamais vou saber o que transborda na sua existência e os motivos que o levaram a fazer o que fez (ou o que ainda fará).

Senti raiva? Sim. Mas sobretudo, pena. Meu filho foi o agredido, mas poderia ser o agressor. Ele apanhou na rua de um moleque, mas poderia apanhar de pais negligentes, perdidos, agressivos.

E agora? Agora virão as críticas. As mesmas pessoas que insistiam para que o deixasse livre, vão dizer: Mas que absurdo! Ele é criança ainda. Por que o deixou sozinho na rua? E se o menino tem uma faca? E se tem uma arma?

Não é fácil ser mãe. Ser pai. Ser responsável por uma vida em meio a uma suposta consciência plena e sentimentos intensos e inexplicáveis. Não é fácil presentear alguém com liberdade quando a mesma implica o risco de perder o que mais amamos: nossos filhos!

Eu posso estar acertando bonito ou errando feio (é um risco que toda mãe corre), mas só pra que continue preservando a ilusão de que posso proteger quem amo, afirmo: a liberdade fica para o próximo natal.


Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo .
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