monólogos diálogos e discussões

Encontros (e desencontros) de ideias, coisas, pessoas, literatura, psicologia e cinema.

Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

E se fosse feriado todo dia?

Da dádiva ao tédio.


3_feliz.jpg

Ter um trabalho é incrível. Se amamos o que fazemos então, é fantástico! Mas a questão é: Por que passamos a maior parte de nossas vidas imersos em nossos trabalhos? Obviamente, há - incontestavelmente - a necessidade de sobrevivermos ao modo capitalista atual e, não fosse a urgência em ganharmos dinheiro e conquistarmos cada vez mais, teríamos tempo para coisas simples que deixamos de lado pela obrigação de darmos conta de boletos, faturas, urgências e prazos.

Hoje, a legislação trabalhista estabelece, salvo os casos especiais, uma jornada de trabalho de 8 (oito) horas diárias e de 44 (quarenta e quatro) horas semanais. Pensar que, no passado, já trabalhamos até 16 horas parece uma baita loucura, não é mesmo? No entanto, pensar que ficamos oito horas presos num só lugar e mais, pelo menos - citando os mais sortudos - duas horas no trajeto, não é nada animador.

Além do próprio trabalho, precisamos lidar com as mazelas do dia a dia e, obviamente, estou citando aqui os trabalhadores comuns que, em sua maioria, dependem de transporte público para chegarem ao seu destino. De maneira geral, a condição climática dificilmente favorece, ora chove e a cidade se inunda impossibilitando o tráfego de veículos e pessoas, ora o calor nos consome, o ar condicionado inexiste, as janelas não são suficientes e as pessoas MORREM de calor.

A pressão cai, a pressão sobe, o calo aperta, o colarinho afrouxa, um botão se abre, um casaco vai às costas, o guarda-chuva vira do avesso, o protetor solar acaba, o trocado some, o motorista passa do ponto, as portas se fecham no minuto que pisa na plataforma, a marmita esfria, a marmita esquenta, esfria de novo, a CPTM informa... Não fosse a obrigação do trabalho, desconheceríamos as situações acima e não nos identificaríamos, com dor e tristeza, ao ver pessoas acordando cedo para irem trabalhar.

Longe de mim (mesmo) ser workaholic! No entanto, preciso confessar que, apesar de tudo, AMO trabalhar. O que odeio (ODEIO mesmo), é a ideia de que somos obrigados a trabalhar todos os dias úteis de nossas vidas até que não tenhamos mais saúde para tal e possamos, minimamente, sobrevivermos a velhice com um salário miserável que possa pagar despesas médicas e lembranças de natal aos netos.

Pensem! Não fosse essa obrigação, teríamos tempo para ler as continuações dos livros que já lemos, terminar de ler os que já começamos, iniciar a leitura de todos que compramos e comprar todos que pretendemos ler. Poderíamos rever os filmes que “favoritamos” (ou não entendemos), ver os 300 e tantos que estão na lista de espera e ainda dar conta dos clássicos e dos lançamentos. Não fosse o trabalho, poderíamos ler todos os links que salvamos durante o dia, conhecer lugares novos e revisitar os bons lugares que já estivemos! Teríamos tempo para reencontrar amigos para um café, experimentar novos sabores, e dias de ócio para escolher o que QUEREMOS fazer.

Pois bem, não fosse o trabalho, não teríamos nada disso, nem férias, feriados (os mais lindos feriados prolongados), folgas e fins de semana tão desejados. Talvez, pensando bem, não fosse o trabalho, os feriados seriam mais uma tortura imersa ao tédio do que uma dádiva. Sei que parece loucura não desejar NUNCA mais ter que trabalhar, mas e se um dia nós realmente nunca mais trabalhássemos e fosse feriado todos os dias?

Será que o prazer de desativar o alarme seria tão importante?

Sim, eu sonho com um mundo ideal onde o capital não rege o jogo, com condições de trabalho dignas para todos, com a queda dos pequenos poderes e com a possibilidade de viver bem e com menos. Contudo, pensando na sorte que temos pela possibilidade de estarmos saudáveis para alcançarmos um trabalho transformador num mundo em que pessoas fazem coisas que não querem para conquistar coisas que não precisam, só podemos agradecer pelo privilégio de um feriado prolongado, longos dias de trabalho e a consciência de tudo isso.


Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo .
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/recortes// //Luana Peres