monólogos diálogos e discussões

Encontros (e desencontros) de ideias, coisas, pessoas, literatura, psicologia e cinema.

Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

É amor ou fogo de palha?

Quando nos descobrimos enamorados buscamos racionalizar a situação e reduzir nossas expectativas. Pensamos: Se aquiete, isso é fogo de palha. Passa!
A questão é: E se não for? Se estendendo a seguinte: E como descubro?


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Antes de mais nada, partimos do princípio que o amor é um conceito abstrato compreendido de diferentes formas a partir de épocas e relações distintas. Não vamos nos estender nos aspectos científicos, mas - só para conhecimento - a ciência compreende o amor (ou paixão - há controvérsias) como um complexo evento neurobiológico capaz de fazer com que o corpo libere substâncias, que provocam diferentes reações, como a dopamina, serotonina e a ocitocina. De forma bastante resumida, para ciência, amor é o caminho que percorremos em busca de pessoas cujo sistema imunológico seja complementar ao nosso, com o fim de gerar descendentes geneticamente mais variados e com maior capacidade de sobrevivência.

Em miúdos, estamos - a qualquer custo - em busca da evolução sob o domínio do topo da cadeia.

Além do aspecto científico, podemos compreender o amor em outros campos de conhecimento como, por exemplo, a filosofia. Neste lugar, bem como na ciência, há divergências sobre o que seria este sentimento e, no livro “O Amor Segundo os Filósofos” - escrito por Maurizio Schoepflin - encontramos diferentes pontos de vista a respeito do termo. Para Platão, amor é libertação capaz de levar o ser humano a verdade. Como ele, outros filósofos seguem a ideia do amor como elo entre as dimensões corpóreas e espirituais.

Em contraponto, Arthur Schopenhauer descreve o amor a partir de uma perspectiva bastante pessimista e o classifica como um mal fundamental. Para o filósofo, diante da necessidade de procriar e perpetuar nossa espécie, damos ao amor mais espaço do que este merece quando se aproxima do fim. Entendam que ele não era contrário a ideia do amar, mas defensor do pressuposto que, diante do amor, é importante um movimento de libertação de modo que haja menos frustração diante das expectativas.

Entre filósofos, religiosos e poetas há infinitas explicações sobre o que seria o amor. No livro mais lido pelo mundo inteiro amor é descrito há alguns anos da seguinte forma:

“o amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se ira, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”

I Coríntios 13:4-7

Atualmente, há na arte, na literatura, na filosofia, na religião e no senso comum um infinito de colocações a respeito do objeto amor e do verbo amar. Ficaria horas elencando cada sentido e significado dado ao amor, mas me apego as ideias de Carlos Drummond de Andrade em vários aspectos para responder a questão inicial: é amor ou fogo de palha? Primeiro, me parece que a apropriação do conceito amor pouco importa, pois não há razão que baste para explicá-lo: “eu te amo porque te amo. não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo. eu te amo porque te amo. amor é estado de graça e com amor não se paga”.

Depois, penso em minhas próprias razões e indagações a respeito do amor, e me aproximo de sua fala quando o coloca dentro do espaço do beijar em meio a grandiosidade do mundo que avistamos pela janela. Entendo, a partir desta colocação, que - ainda que haja milhões de bocas para tocar – há, em uma única figura, o deslocamento de todo meu desejo.

O motivo? Mais uma vez, inexplicável. Drummond aponta que temos milhares de razões para não amar alguém e apenas uma única razão para tal. Nesta equação, onde o resultado seria facilmente atingido após uma observação comparativa, ficamos reféns da questão inicial, que não se responde, mas que se sente.

Quando nos descobrimos enamorados buscamos racionalizar a situação e reduzir nossas expectativas. Pensamos: Se aquiete, isso é fogo de palha. Passa! A questão é: E se não for? Se estendendo a seguinte: E como descubro?

Não sou poeta, filósofa, semideusa, cientista ou qualquer grande coisa que me dê sustentação pra responder com convicção a pergunta. No entanto, ainda com definições suspensas, coloco o meu existir egocêntrico e respondo mesmo assim.

Para mim, o fogo na palha é superficial, rápido, intenso e avassalador. Ele começa de um cisco e se expande numa proporção gigantesca na mesma medida que, em pouco tempo, se finda. Se finda com o defeito do outro, com aquela parte ruim que se ocultava ou com a sua fragilidade que agora o torna menos propenso a te proporcionar herdeiros com grande chance de sobrevivência.

Eu descobri que era amor, e não fogo de palha, quando continuei a querer na dor, na distancia, no desencontro, na oposição, na frustração e no tempo. Eu soube que era lenha que se demora aquecer no fogão, quando percebi que nosso caminhar era ameno, lento, respeitoso, coberto de cuidado e querer bem do outro. Eu soube que era amor, e não fogo de palha, quando li Drummond pela milésima vez e concluí que:

"As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão"

Ps: Entre o Amor e a Paixão (Take This Waltz - 2012) é um filme que, não foi escolhido à toa para representar o texto, pois - além de ser uma bela cena e indicação - retrata o questionamento de uma jovem a respeito da questão norteadora. No mais, um carinho especial pela trilha sonora.


Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo .
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