monólogos diálogos e discussões

Encontros (e desencontros) de ideias, coisas, pessoas, literatura, psicologia e cinema.

Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

Não perca a hora certa com a pessoa errada

Quantas vezes você foi Maria?


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( - ou - sobre as coisas que aprendi com contos de fadas)

( - ou - ainda - sobre calçar sapatos apertados)

( e - por fim - se preferir - sobre dizer adeus)

Maria abriu os olhos lentamente e buscou reconhecer o lugar que estava. Era uma casa, não muito grande, com tons de branco e cinza e decoração minimalista. Lá dentro fazia frio e, mesmo com janelas e portas fechadas, um ar gélido e cortante causava tremores espinhais.

Ao se levantar, percebeu que a porta - que antes parecia fechada - estava entreaberta e, pela fresta, avistou João. Como uma estátua de pedra, a única figura humana que os olhos de Maria podiam alcançar, parecia estática, fria e indiferente a todas as coisas que a cercavam.

Entre o medo de estar só e a angústia da solidão que fazia corroer os ossos, Maria juntou forças e caminhou para fora da casa. Já no jardim, enxergou o lugar a partir de uma outra perspectiva e pode perceber o quão frágil era aquela morada. Amparada por vigas de madeira e cupins, a casa que - por dentro parecia segura - agora se mostrava como casa de palha vulnerável a qualquer sopro mais forte.

Receosa, mas convicta de que aquele era o melhor lugar que poderia ter, Maria caminhou na direção de João e pediu que entrassem. João, ainda apático, e sem sequer mover seus olhos, apontou para baixo e com um movimento certeiro fez Maria entender que, para entrar, era necessário que a moça calçasse os sapatos que ele indicava.

Maria, mais que depressa, os pegou e, com muita persistência, fez lhes caber. Os sapatos eram de cristal. Pequenos demais. Apertados demais. Altos demais. Desconfortáveis demais. Seus pés se espremiam, seus dedos se deformavam e uma dor intensa marcava cada um de seus passos.

O jovem, por sua vez, ao ver o sacrifício de Maria em sua caminhada, atreveu-se a olhar nos olhos, mas - ainda assim - sem demonstrar qualquer indício de empatia ou solidariedade. Maria murmurava e, quase sem forças, implorava para que João a acompanhasse com a promessa de que, dentro da casa, havia três ou quatro potes de doce que poderiam compartilhar.

Pobre Maria, acreditava piamente que eles lhe bastariam.

Numa caminhada solitária, entre passos sofridos, Maria tentava convencer João a seguir, na mesma medida que tentava se convencer a respeito da direção que deveria tomar. Era um fardo pesado... caminhar só, com os pés machucados e com o peso da indisposição do outro.

Maria parou. Por mais uma vez, buscou o amparo de João. Solicitou sua mão. Pediu ajuda. Não teve resposta. Percebeu que, se quisesse seguir por ali, teria que fazer um esforço descomunal mesmo intuindo a incerteza do seu fim.

Inspirou. Expirou. Suspirou. E, quando suas forças pareciam esvair, olhou a sua volta e enxergou um infinito de estradas. Os caminhos, pavimentados de maneira muito peculiar, conduziam a destinos distintos e sua visão não era capaz de alcançar seus fins.

O espaço para fora daquele lugar era imenso, incerto, grandioso e bonito.

Ao voltar-se para João, Maria finalmente pode perceber que havia, em uma de suas mãos, velhas sandálias. Sandálias antes já usadas por quem se atreveu a percorrer distâncias longas solitárias e enriquecedoras.

Naquele momento, Maria poderia escolher e assim o fez. Descalçou os sapatos de cristal e sentiu, novamente, o prazer de ter os pés livres. Num primeiro momento, suspirou aliviada. Num segundo, sorriu. Gargalhou de sua proeza.

Agora, João - atônito e também chocado - observava cada movimento de libertação e seguia, já com olhos confusos e inexpressivos, Maria com toda sua excitação.

Ao vestir as sandálias, Maria sentiu cada linha de seu pé sendo moldada de forma suave e generosa. Livre das amarras, olhou uma última vez para o parceiro e não disse nada. Não precisava dizer. E, ainda que nenhuma palavra fosse dita, João sabia o que aquilo significava, pois - pela primeira vez - depois de muito tempo, enxergou nos olhos de Maria a esperança e alegria que outrora havia sido roubada por anseios recheados de medo e insegurança.

Sem olhar para trás, Maria - num ímpeto de coragem e ousadia - correu. Correu em direção ao infinito com uma leveza encantadora. De forma quase mágica, as vestes - que antes pareciam pesadas - agora se desdobravam em claros tecidos que mais pareciam asas. Maria voou. Alto, forte e sozinha. Sem medo. Feliz.

Quanto a João, não precisava ver para saber. Ele continuaria lá, estático e pasmo. Certo de que alguém vestiria seus sapatos de cristal ideal que, por hora, apenas marcavam a dor passada de Maria.

*Título tem como referência canção Nuvem de Humberto Gessinger (Álbum Insular ao Vivo - 2014)


Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo .
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