monólogos diálogos e discussões

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Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

Os desafios de ser mãe (solteira) no Tinder e na vida

Todas nós devemos entender o peso da maternidade em todas suas fases e com isso criar uma base de fortalecimento: somos mães solo, mas não estamos sozinhas.


Antes de qualquer coisa, saiba que o título merece correção para o termo “mãe solo”, já que ser mãe não deve estar relacionado a qualquer estado civil.

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A sociedade espera que você seja mãe porque, de acordo com o ideal que circula por aí, esta é uma condição fundamental para se realizar enquanto mulher.

Mas, pera! Não é qualquer tipo de mãe.

A mãe que atende a necessidade do mundo é aquela que engravidou num relacionamento heteronormativo, monogâmico, cheio de amor e dentro do casamento. Para grande maioria, a mãe que foge disso, e é considerada uma “mulher guerreira” se resume, somente, a sua própria mãe. O resto não, o resto é “aquele tipo de mulher que se deve evitar”.

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Há uma contradição enorme permeando a condição da mulher em inúmeros aspectos, sejam eles sociais, econômicos, afetivos, psíquicos e/ou sexuais. Ela deve ser mãe, mas não pode colocar o trabalho como prioridade. Ela deve trabalhar, mas não pode largar os filhos com “qualquer um” ou “em qualquer lugar”.

Ela deve ser mãe, trabalhar e lidar com o fato que será, ao longo da vida, menos reconhecida, menos remunerada e menos chamada para entrevistas de emprego. Ela deve ser mãe e entender que ser "pai solteiro" é cool, ser mãe solteira é defeito. Ser mulher e mãe é um filtro para o tipo de homem que irá se aproximar de você, e – de antemão - já ressalto que não serão muitos.

Visto que há uma série de julgamentos precipitados, para muitos homens se - você é mulher e mãe - você busca:

- Sexo casual

- Um pai para o seu filho

- Ajuda financeira

- Suporte emocional

- Companhia para momentos de solidão e alta libido.

Nem preciso salientar que qualquer uma destas opções é ridícula e reforça a ideia de quanto um homem pode ser presunçoso ao imaginar que é única fonte de uma existência digna nesta terra.

Tenho a sorte de ser mãe e dividir a criação do meu filho com seu pai, acontece que – nem por isso – deixei de ser posta num lugar de rejeição por carregar um “passado” e um “presente”. No início, atribuía alguns afastamentos abruptos a comportamentos que poderia ter manifestado sem tomar consciência, depois – para minha tristeza - pude sistematizar essas relações e perceber que o fato de ser mãe era um divisor de águas na maioria das vezes.

Inclusive, para nós que somos mães e mulheres não há muita escapatória, pois se você tem um bom relacionamento com o pai do seu filho, você vira fonte de incredulidade. Se você tem um relacionamento ruim, é porque você não é flor que se cheire. E, pior, se você não sabe por onde anda o homem que a engravidou, você é promíscua e ainda espera alguém que possa ocupar este lugar.

Difícil. Você é julgada por sair sem seu filho e julgada por deixar de sair porque tem filho. Você é julgada se deseja relacionar-se novamente e julgada se decide ficar sozinha. Te julgam por ser mãe e esquecem que essa é uma condição, ou seja, é parte de quem você é e isso não muda, independente do “como” você possa levar esta maternidade.

Para escrever sobre a experiência de ser mãe solo ouvi e li homens e mulheres. Se por um lado me sensibilizei com o discurso de inúmeras mulheres (principalmente as mulheres negras), por outro me enojei com tutorais sobre como compreender uma mulher que já tem filhos de acordo com a visão falocêntrica de alguns homens. Entre todos os absurdos e ideia de catalogar mulheres em mulheres boazinhas, mulheres boazinhas com filhos e “vadias parideiras”, esbarrei na ideia de que uma mãe poderia até ser útil já que é uma mulher que sabe “cuidar” e poderá estar atenta aos problemas de saúde que homem possa desenvolver em sua velhice.

Só eu fico chocada com isso?

Se você é mulher e mãe sabe que a tarefa de estar num relacionamento se torna ainda mais árdua (e isso porque nem vou me debruçar sobre a insegurança que a mulher sente em expor seus filhos a uma situação de vulnerabilidade e violência, sejam elas quais forem). Ser mãe e mulher em aplicativos de relacionamento é fazer parte de um grupo restrito com a indicação “perigo”. Ser mãe e mulher no trabalho é sofrer todo tipo de preconceito e discriminação. Ser mãe e mulher na vida é estar exposta há infinitas limitações.

Enfim, algumas pessoas dizem que ser mãe é padecer no paraíso e, particularmente, considero essa perspectiva muita otimista e até equivocada dentro de um país em que seus seios não tem outra função se não a de satisfazer o desejo sexual do outro e do capital.

Se você é mulher, você já faz parte de um grupo prejudicado, se você é mulher e mãe você padece sim, mas não no paraíso e sim no inferno do julgamento e no distanciamento do outro. Todas nós devemos entender o peso da maternidade em todas suas fases e com isso criar uma base de fortalecimento: somos mães solo, mas não estamos sozinhas.


Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo .
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