monólogos diálogos e discussões

Encontros (e desencontros) de ideias, coisas, pessoas, literatura, psicologia e cinema.

Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

SAÚDE MENTAL X MEDICALIZAÇÃO: COMO ESTAMOS LIDANDO COM A PRESSÃO DO MUNDO?

Na impotência do consultório e limitação sobre a promoção de saúde na vida do outro, o médico tende a prescrever a medicação. Ainda que o objetivo destes profissionais seja o de ajudar o paciente na sua queixa, não é bem o que ocorre, porém - e infelizmente - o sistema parece não nos dar opção. Nem o paciente, nem o médico parecem encontrar caminhos que se adequem à realidade de um modelo que nos obriga a produção em massa, em excesso, pelo menor tempo e com o custo mais baixo possível.


4.jpg

SAÚDE MENTAL X MEDICALIZAÇÃO

COMO ESTAMOS LIDANDO COM A PRESSÃO DO MUNDO?

Se você estuda, trabalha e precisa lidar com as obrigações que a vida adulta traz, provavelmente já se questionou sobre sua saúde mental e lamentou sua condição. Por sorte, temos falado mais abertamente sobre esse mal que nos aflige de forma avassaladora.

- Aliás, o Janeiro Branco é justamente o período que o assunto fica em evidência, o que é uma pena, porque é o tipo de conversa e preocupação que precisamos estender para os demais meses do ano -

Falar sobre algo é sempre um passo importante no processo de cura, já que para cuidar de uma dor é preciso - antes de mais nada - reconhecer sua existência. Assim, na medida que expomos nossas fragilidades surge uma imensidão de diagnósticos, tratamentos e equívocos. Entre profissionais capacitados e pessoas levianas que disseminam falsas informações sobre saúde mental e seus desdobramentos, corremos o risco de nos apegar ao que parece mais cômodo segundo nossa percepção e agravar ou - até mesmo - gerar uma condição não saudável ou positiva.

3.jpg

Deste modo, se faz necessário, antes de fixar um diagnóstico, o levantamento de algumas questões extremamente importantes. Primeiro, o que é doença? Quando o remédio é necessário? Aliás, o que é remédio pra você? Há tempos buscamos drogas como resposta para nossas angústias e melhora de qualidade de vida. No entanto, essa melhora é questionável, apesar de pipocar aos nossos olhos como solução eficaz e imediata.

Um exemplo disso é a ingestão do Rivotril! Você sabia que seu uso passou de 29 mil caixas em 2007 para 23 milhões em 2015? Vendido mais que qualquer medicação, exceto pelo microvilar (anticoncepcional distribuído pelo SUS), esta droga parece como "queridinha" para muitos de nós. Não só a mais vendida, também é a mais prescrita, talvez por apresentar baixo custo e efeito mais rápido se comparada a medicações equivalentes.

É valido lembrar que esse remédio (como qualquer outro) por si só não resolve o problema de forma total, ele apenas o lança para o dia seguinte, principalmente se seu uso não estiver atrelado a terapia e mudança de hábitos. A prescrição de psicofarmacos pode acontecer, e geralmente ocorre, por médicos de diversas especializações, ou seja, nem sempre são psiquiatras.

Na impotência do consultório e limitação sobre a promoção de saúde na vida do outro, o médico tende a prescrever a medicação. Ainda que o objetivo destes profissionais seja o de ajudar o paciente na sua queixa, não é bem o que ocorre, porém - e infelizmente - o sistema parece não nos dar opção. Nem o paciente, nem o médico parecem encontrar caminhos que se adequem à realidade de um modelo que nos obriga a produção em massa, em excesso, pelo menor tempo e com o custo mais baixo possível.

2.jpg

Mas se não tomar remédio como posso tratar minha condição? Bem, não é um caminho simples, barato ou de fácil acesso para todos como deveria ser, mas poderíamos pensar em: atividade física; terapia; meditação; alimentação saudável; sono regular e lazer.

Agora - o que ninguém fala - é que um fator importante na compreensão da doença mental está para além do indivíduo e sua escolhas. Vivemos num dinamismo nada lógico ou saudável se visto a longo prazo. Trabalhamos com o objetivo de consumir e neste processo doamos nosso tempo e energia para coisas que nos parecem primordiais. Por exemplo, entregamos grande parte dos nossos dias e horas ao trabalho para que possamos encontrar um ou dois dias no mês em que é possível juntar a família, entrar no nosso carro parcelado em anos e pagar caro por um dia no shopping com direito a: comida industrializada e nada saudável; brinquedos altamente tecnológicos com preços abusivos e marketing agressivo; eletrônicos e móveis programados para acabar mais rápido do que os boletos gerados por eles e entretenimento imediato.

Diante deste cenário, você consegue perceber como nossa saúde mental não depende só de nós?

- Claro que há uma parte importante que cabe ao indivíduo e neste ponto podemos cuidar com as possibilidades mencionadas acima -

No entanto, faz se necessária e urgente a discussão sobre o modo como compreendemos e buscamos sucesso e felicidade dentro deste modo capitalista e esmagador que nos faz acreditar que nunca temos o suficiente.

1.jpg

É preciso relacionar todos os cuidados pós diagnósticos com trabalho preventivo que inclui: consciência, educação, conhecimento e quebra deste modelo desigual que nos faz acreditar que a vida funciona por meritocracia.

NÃO! NÃO FUNCIONA.

Minha breve experiência no consultório me trouxe essa reflexão ainda durante a graduação (o que me fez escolher o caminho da psicologia social e educação). Sempre que um paciente se apresentava com sintomas depressivos e/ou ansiedade logo surgia, através da anamnese: um parceiro alcoolista e violento, um filho com dependência química e/ou problemas escolares, uma moradia insalubre, alguns meses de desemprego, um trabalho exploratório, medo da violência urbana, falta de oportunidades, baixo rendimento escolar, difícil acesso aos serviços de saúde…

Enfim, a lista de fatores externos que se relacionam e que culminam num modelo que prioriza o lucro de alguém é infinito. E quando digo alguém é alguém mesmo, muito específico, que está enriquecendo as custas custas da nossa saúde física e mental.

Diante deste cenário, o que podemos fazer?

Eu não tenho certeza, mas acredito que reconhecer o fato e falar sobre sempre será nosso primeiro passo no processo de cura e transformação.


Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo .
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/// @obvious, @obvioushp //Luana Peres