monólogos diálogos e discussões

Encontros (e desencontros) de ideias, coisas, pessoas, literatura, psicologia e cinema.

Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

COVID - 19: O vírus que paralisa e como lidar com seus impactos psicossociais

O mundo está parando. Nós também. Aos poucos ou de forma repentina a situação exige mudanças urgentes em nossos hábitos. Diante do caos e da esperança, como podemos seguir com nossa existência de modo mais saudável possível sem deixar de pensar no outro?


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O mundo já estava sob grandes e fortes riscos, mas parece que só agora - diante da calamidade mundial exposta em redes por tempo integral - é que pudemos perceber nossa vulnerabilidade e impotência. De repente, o mundo para e pede atenção. Entre a pausa na ampulheta e a corrida desenfreada contra a propagação do vírus num espaço curto de tempo, estamos nós com nossas angústias mais primitivas. O ser humano, gregário desde seu nascimento, está o tempo todo criando conexões e, ainda que a tecnologia tenha propiciado que parte dessas relações aconteçam de forma virtual, continuamos tendo a necessidade de integração social num plano físico. O isolamento social proposto para lidarmos com a pandemia que se instala nos força a olhar para coisas que, até então, podíamos ignorar pela falta de tempo e/ou urgência. Muitos, pela primeira vez, tem - diante da crise - a possibilidade de olhar para si mesmo e perceber sinais de frustação, impotência, medo, ansiedade e pânico. De repente, precisamos parar e repensar nossa relação, não só com o mundo, mas com nosso corpo, nosso trabalho, nossa rede de amigos, nossos familiares… nossa existência!

E isso, definitivamente, não é simples ou fácil.

Em uma época que impera a individualização e a competitividade, o modo como seguimos nossas vidas passa a ser questionado e revisto mediante a urgência da situação. Assim, paramos pra lidar com o conflito de suportar a frustração do não controle e a manutenção do desejo, dos sonhos e das metas. Precisamos - diante do medo que paralisa e também nos motiva a ter comportamentos diversos mediante nosso instinto de sobrevivência - voltar para a necessidade de caminharmos juntos e, deste modo, nos abster de prazeres, cuidados e tarefas individuais. Esse sentimento gerado pela desaceleração e falta de integração social associados a uma quebra de rotina importante traz - obviamente - consequências graves. Entre todos que poderíamos citar, os impactos fisiológicos e emocionais são os que mais preocupam pois são capazes de desencadear novas doenças, propiciar gatilhos e propagar ainda mais a situação que se instala diante do novo coronavírus. Pensando nisso, seguem algumas dicas para lidarmos da melhor forma com tudo que pode estar dentro e fora de nós:

1. Se abasteça com informações sérias e essenciais. Saiba o suficiente pra sua segurança e evite consumir e reproduzir informações levianas e sensacionalistas.

2. Faça do amargo dos limões uma bela limonada! Estar só não significa estar solitário e - em nenhum momento - deve ser compreendido por uma lógica negativa de ordem punitivista. Há tempos o mundo não para. Parou agora. Aproveite esse espaço/tempo para se haver com coisas que antes não eram possíveis. Atividades simples como: cozinhar, brincar com seus animais, assistir TV, ler um livro, limpar a casa, organizar armários, ordenar documentos, ouvir música, estudar, cuidar do jardim, escrever, dançar, ver séries, filmes, documentários… tudo que não podia fazer por falta de tempo. Agora pode!

3. Estabeleça uma rotina, mas não seja refém de uma agenda inflexível, até porque - há tempos e de várias formas - o mundo insiste em nos dizer: não há controle total de absolutamente nada. Por isso, organize suas tarefas de trabalho que são essenciais (lembrando que esta é uma situação pontual e temporária) e permite-se o frustrar e o descansar que todo esse cenário evoca.

4. Crie, desenvolva e amplie sua empatia e senso de coletividade. Aproveite esse período para exercer seu dever político e exercitar seu discurso ético/cristão. São momentos como esse que nos mostra o quão desigual é a vida de seres plurais e grupos minoritários.

5. Não se desespere! Siga as orientações dadas pelos órgãos competentes e coopere para que esse vírus nos ensine sobre coisas importantes. É válido lembrar que há pouquíssimo tempo muitos não davam à ciência, arte e cultura a importância que têm. Agora entendemos melhor como o investimento nessas áreas são fundamentais para a existência e bem estar de todos.

Foto de Andre Coelho . Getty Images.jpg

Um adendo, sei que é difícil pensar em meditar, relaxar e aprender algo quando há possibilidades reais de faltar o básico. É difícil pensar em proteção quando não há opção de deixar o trabalho. É desolador imaginar que enquanto uns carregam a dúvida de como ocupar suas horas, outros não podem sequer acessar serviços básicos de higiene e saúde. Percebam que fica mais fácil assistir a uma temporada completa de séries quando se tem a garantia de que todas as necessidades cruciais para manutenção da vida estarão preservadas. Por essas e outras razões, que insisto em dizer - para infectados e não infectados:

Teremos sequelas graves e importantes.

Resta saber, ela nos matarão ou nos fortalecerão? De modo literal e metafórico caminhamos por uma linha tênue entre ambas possibilidades. Assim, é urgente que possamos compreender nosso papel na manutenção do coletivo sem nos abstermos da nossa essência individual que solicita - AGORA - nosso melhor.


Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo .
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