monólogos diálogos e discussões

Encontros (e desencontros) de ideias, coisas, pessoas, literatura, psicologia e cinema.

Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

Só velho morre

Estamos prontos para deixar nossos velhos? A reflexão sobre a história por trás da estatística posta de forma cruel e leviana por tantos nos toma de lembrança e nos leva a um questionamento: quem valida a vida?


Minha avó tem 76 anos e, neste último feriado, eu a visitaria. Depois de dez anos sem ir até sua casa já tinha planejado tudo pra ir pois, há meses, sentia a necessidade de me reconectar à ela e a tudo que meus períodos em sua presença significou. Lembro que sequer sabia ler e já ia ao correio buscar suas cartas. Quando dava ligávamos (e vocês não são capazes de mensurar o quanto isso custava)... Na casa da minha avó não tinha telefone, então minha mãe ligava num bar próximo a sua casa e pedia para chamá-la. Por sorte, meu tio estaria numa das mesas e faria o favor.

No fim do ano íamos pra lá. Sempre. Presentes. Roupas novas. Mangas. Calor. Folia de Reis. Brincadeiras. Sem hora para dormir.

Férias.

Minha avó era muito carinhosa comigo quando era menor, até que reclamei sobre beijos e abraços e ela parou. Porém, o fato de não termos grande proximidade, não a impediu de ser extremamente presente e generosa. Nós, eu e minhas irmãs, éramos “as netas da Dômaria” e, para aquela cidade do interior , nós éramos as “moças de São Paulo”. Grande coisa. Me sentia o máximo. Ledo engano de todos nós.

Minha avó passava o ano inteiro guardando tudo que podia para nossa chegada: dinheiro, comida, sabonete, roupas... Ela ganhava tanta coisa de tanta gente! E tudo era para nós... Aliás, minha avó era uma acumuladora compulsiva, o que – obviamente – me deixava maluca. Eu queria limpar tudo, jogar fora e ela ficava uma arara... na casa dela nada ia para o lixo. Então, não era incomum encontrarmos ratos, baratas, aranhas, calangos...

Em 1998, quando minha mãe fugiu com a gente pra casa dela (sim, fugimos do meu pai e essa é uma outra história), ela nos recebeu e, enquanto minha mãe enchia os pés de calo trabalhando em dois empregos, minha avó – com sua peculiaridade – ia cuidando da gente. Para nos entreter, fechava a rua e batia corda do fim da tarde até altas horas. A criançada inteira ia pra lá. Era salada saladinha temperada com quem a gente ia casar até as pernas ficarem bambas e eu vencer! Era a rainha das cordas, título que larguei depois de alguns anos e muitos entraves... Tinha passa anel, elefante colorido, esconde-esconde, pega-pega, queimada, bandeirinha, salada mista... mas só podia ir até beijo no rosto. Minha avó andava mais do que qualquer pessoa que já conheci e eu ia atrás...esgotada, com a língua pra fora e pedindo arrego... “Vó, tá muito longe?”, “Nada, logo depois daquele morro ali...”, E MEU PAI AMADO, trinta morros depois e nada. A bicha não ficava doente e também não reclamava! Lembro de irmos nas Três Pontes, um lugar com pequenas cachoeiras e lagos... para mim, era um festival de bunda no chão entre pedras lisas e trilhas cheias de galhos... Mas para minha avó, não...lá, no meio da molecada, ela ia seguindo no seu ritmo.

Vale lembrar que a criançada vivia um caso de amor e ódio com ela pois, se a gente tava lá, era área cheia o dia todo de meninos e meninas! Agora, se a gente não estava... era uma bola cair no seu quintal e voltar só o farrapo. Ela não deixava passar.

Minha avó, apesar de ser boa de garfo, não tinha muitas habilidades culinárias e, teve uma vez, que eu e minha irmã passamos um mês inteiro comendo arroz com ovo e macarrão com feijão. Ela nos dava bacia de pipoca e de batata frita, além de muitos doces e salgadinhos. Uma lembrança da minha avó: ela comendo frango com a mão e bebendo tubaína em vasilhame de vidro.

Quando íamos a “cidade” ela deixava a gente escolher umas três peças de roupa nova cada uma e, depois de ficar olhando feio pra gente só pegar o que ia levar, ela tirava de dentro do sutiã um dinheirinho todo enrolado em plástico para pagar a vista. Eu, tão besta, morria de vergonha.

Aliás, para uma pré adolescente, era vergonha atrás de vergonha. Minha avó parava em tudo que era canto para usar o banheiro (coisa que faço demais agora) e saía puxando assunto com varias pessoas estranhas... Se a gente estava fazendo bagunça no meio do caminho ela parava diante de um homem qualquer, olhava sério e perguntava “Moço! Escuta uma coisa... Você viu se aquele senhor que pega criança já passou por aqui?” e, o moço por sua vez, solidariamente entrava na jogada...

Minha vó era uma contadora de história! Ela sempre começava assim “Disse que tinha uma mulher...”, “Disse que tinha uma casa...”, “Disse que tinha um lobisomem...”... E eu, tentando aplicar meus conhecimentos ínfimos em língua portuguesa, pensava “Ué, mas quem diabos disse?”.

Outra coisa super curiosa sobre minha avó: ela visitava todos os doentes e pessoas que estavam prestes a morrer. Hoje percebo o quanto ela buscava se distanciar da dor e da morte se colocando neste lugar de cuidadora... Alias, cuidou do meu avô por anos e anos. Quando ele faleceu, ela era nova ainda e mesmo assim, mais de 25 anos depois, nunca arrumou outra pessoa. Às vezes, em tom de brincadeira, a gente via um senhor que parecia para um gracejo, e falava pra ela namorar... Ela cortava na hora e respondia “Vishi, sai pra lá que quem gosta de velho é reumatismo!”.

Minha avó juntava a vila inteira no dia do meu aniversário para me ligarem. Ela, sempre tão econômica, devia gastar horrores de telefone só pra que pudesse me sentir querida e importante.

Minha avó teve meningite na infância. Nasceu numa roça do Paraná e passou por tempos difíceis. Ficou viúva quando minha mãe ainda tinha três anos, perdeu duas filhas ainda pequenas – Rosa Maria e Claralina - . Disse adeus para suas três irmãs por câncer. Enterrou o segundo marido. Cuidou de tudo sozinha. Se calou. Endureceu. Deu uma curvada. Desacelerou os passos. Mas ainda está viva.

Hoje eu sou contadora de história. Ando pra caramba (e não perco uma oportunidade de parar pra fazer xixi). Cuido das pessoas. Confio em estranhos, mas quando vejo homem já penso “Vishi, moço! Sai pra lá..!”. Hoje, depois de anos de rebeldia adolescente e afastamento justificado pela correria da vida adulta, percebo o quanto há desta mulher em mim e torço para que ela continue protegida e bem quando tudo isso passar.

Minha avó não morreu. Mas pode...

Então, por que tudo isso? Só pra dizer que não é só um velho ou velha, mas uma história inteira que envolve alguém que a gente ama muito.

Logo, se você pode, fique em casa.


Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo .
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