monólogos diálogos e discussões

Encontros (e desencontros) de ideias, coisas, pessoas, literatura, psicologia e cinema.

Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

Por que a periferia nunca parou?

"Se a escravidão acabar pra você, vai viver de quem? Vai viver de quê?" - Mano Brown.


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Foto: Natinho Rodrigues

Nos últimos dois dias, com todo equipamento de proteção possível, fui caminhar pelas ruas do meu bairro. Há 3 meses tenho aderido ao isolamento social e, salvo raras exceções, não saí de casa por qualquer motivo que pudesse considerar torpe. Tive o privilégio, desde que se iniciou esta pandemia, de poder trabalhar num modelo home office, de continuar empregada e de não precisar sair as ruas. Do alto do meu “pequeno privilégio” (porque se pensarmos bem, não é nada perto do que todos deveríamos ter), acusava as pessoas do bairro de desrespeitarem a quarentena. Olhava absorta toda a aglomeração de pessoas que seguiam sua rotina de forma descuidada de irresponsável e não entendia porque cargas d’agua seguiam sem se importar.

Os números alarmantes, lives e mais lives de Átila Mariano e eu sem compreender como as pessoas ainda duvidavam da ação de um vírus para qual ainda não há cura ou vacina.

Acontece que hoje, ao desviar de pessoas em meio as ruas, eu pude entender melhor a dinâmica do meu (e talvez do seu) bairro. Moro em Jundiapeba há 30 anos, sempre na mesma casa, numa área mais central, porém, mais nova, andava por todo bairro de ponta a ponta e conhecia tudo. Hoje, não conheço mais, impossível conhecer. Centenas de pequenos e novos comércios, igrejas, casas, pessoas, cães, carros, motos. Percebi, andando pelo meu bairro, que o risco não é e nunca foi novidade para estas pessoas. Enquanto andava, preocupada em não me contaminar e já estudando estratégias de desvio para o caso de alguém, sei lá, soltar um espirro ao meu lado, observei que se não me atentasse morria antes, de morte matada, morte morrida, morte encomendada e o bonito do corona sequer dava as caras.

Risco de ser atropelada num trânsito intenso de veículos desgovernados, risco de ser decepada por uma linha com cerol, risco de cair num bueiro aberto, risco de me acidentar numa valeta, risco de me eletrocutar num fio solto, risco de cair numa calcada totalmente avariada, risco de ser mordida (é triste, mas cães nem sempre são caramelos simpáticos), risco de arrumar encrenca (porque encarou a pessoa errada sem querer por tempo demais), risco de alagar com chuva forte, risco do teto cair na cabeça, risco de levar tiro por parecer suspeito...

Eu cheguei exausta, tensa e atônita. Perplexa e num misto de sentimentos que sequer posso explicar bem. Me ocorre que agora, depois de passar um curto período em um lugar onde a rotina se repete todos os dias da mesma forma, que eu não posso julgar.

Vi gente jogando baralho, empinando pipa, cortando cabelo, chutando bola, conversando na calçada, fumando narguilé, subindo e descendo de ônibus... Você s acreditam que, enquanto a gente lava a caixa de leite em casa, eu vi até um grupo de jovens dançando na calçada!

“Esfrega esfrega esfrega esfrega esfrega...”

Bem, eu não tenho bebê, nem crianças pequenas, nem um idoso acamado que requer cuidados específicos. Eu não me preocupo se vai ter arroz e feijão amanhã. Tem. E eu sei que vai ter.

Mas será que tem na casa de todo mundo?

Eu já fazia essa crítica há anos e volto a falar, esquerda que debate política aplicada em grupos universitários não chega aonde deve chegar!

As pessoas estão nas ruas desinformadas, desorientadas e pouco se importando com o vírus ! E sabe o porquê? Bem, não sei, é só uma dedução, mas talvez seja pela razão que quando se vive num bairro periférico em que não dá pra saber se amanhã terá arroz e feijão, o vírus, conhecido mundialmente pelo seu poder de transmissão e morte vira, “gripezinha”.

O presidente tá falando a língua do povo e diante do caos e da morte a gente se abre para o que quer ouvir. Se este não é um plano de matar pessoas pobres sem custo, eu não sei mais o que é.

Por fim, não tô dizendo que elas estão certas, nem que estão erradas. Eu não sei, não me cabe esse juízo. O que sei, e olhe lá ainda, é que ninguém deveria ter que escolher formas diferentes de viver uma vida desgraçada para no fim padecer de uma morte anunciada.


Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo .
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