monólogos diálogos e discussões

Encontros (e desencontros) de ideias, coisas, pessoas, literatura, psicologia e cinema.

Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo

O TABU DO SEXO NA PANDEMIA

É fato: manter relações sexuais te coloca em risco de contágio, sim! Ainda que os infectologistas apontem que o ato em si não é o fator de contaminação, a proximidade dos corpos e trocas de fluidos te coloca em vulnerabilidade.
Diante deste cenário, muitas estratégias estão sendo consideradas para que a população, adepta ao movimento de isolamento, possa obter prazer sem descuidar-se dos protocolos de cuidados impostos pela covid 19. A pergunta é: são suficientes?


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SEXO NA PANDEMIA

É fato: manter relações sexuais te coloca em risco de contágio, sim! Ainda que os infectologistas apontem que o ato em si não é o fator de contaminação, a proximidade dos corpos e trocas de fluidos te coloca em vulnerabilidade. Diante deste cenário, muitas estratégias estão sendo consideradas para que a população, adepta ao movimento de isolamento, possa obter prazer sem descuidar-se dos protocolos de cuidados impostos pela covid 19.

PODE TRANSAR, MAS NÃO PODE BEIJAR!

Uma das orientações é para que o sexo seja feito sem o beijo, nesta perspectiva somente a penetração seria permitida e a opção por posições que garantem menos proximidade priorizadas. Aliás, a cidade de Nova York produziu há algumas semanas uma cartilha com orientações para que as pessoas pudessem ter sexo seguro (ou de menor risco) durante a pandemia. Nela, a masturbação é posta como possibilidade segura e orgias não são recomendadas, sugerindo que as pessoas possam se abster a ter no máximo um parceiro fixo e assim diminuir sua exposição. Outra discussão importante que vem com a abstinência sexual é o uso de material pornográfico. Não vou me ater as problemáticas desta discussão, mas é crucial que você também de uma lida sobre a indústria pornô e sua contribuição com os modelos de masculinidades criados nesta perspectiva de venda e compra do sexo como produto isolado das questões éticas e sociais.

O QUE É SEXUALIDADE?

Sexualidade é um termo muito amplo e, por vezes, atribui-se a ele de forma equivocada a prática sexual restrita a penetração. Sabemos que para além do sexo guiado pela penetração e gozo, há varias formas de se obter prazer e que não necessariamente tem a ver com corpos. De qualquer modo, é preciso refletir: O sexo que faço, funciona sem o beijo? Eu me sentiria satisfeito por apenas acessar partes do corpo do outro sem uma troca mais “profunda”? Uma das alternativas que desponta em meio as necessidades fisiológicas X isolamento social, são as práticas de sexo mais alternativas como sexo virtual, app eletrônicos e casas que oferecem serviços de sexo com restrição. Se por um lado, há pessoas e empreendedores pensando neste novo nicho de possibilidade e oferecendo ofertas diversas; por outro, há – de forma descontrolada e indevida - a continuação de serviços de prostituição ofertados por casas de show e seus afins. Essas mulheres (também trans), seguem suas práticas se expondo a riscos por até R$10,00 a hora! Óbvio que para essas profissionais não há uma escolha ética e consciente, mas a luta diária pela subsistência, bem como acontece com milhares de trabalhadores. Aliás, outro ponto que gostaria de levantar é que, diante dos fiscais da pandemia, apenas algumas práticas estão autorizadas. Assim, se você escolhe se expor para satisfazer uma necessidade considerada secundária (lazer, relações afetivas, atividades físicas) você está – de modo leviano e egoísta – cometendo o maior dos pecados. Porém, se o risco se estabelece pela via do trabalho e seus desdobramentos, já é outro assunto. Não quero, com esse texto valorar cada tipo de ação, mas gostaria de, junto com vocês, pensar sobre como o prazer é condenado desde sempre e posto em um lugar de menor importância nas nossas vidas. Imagine, se encontrar sua família no domingo para almoçar é fator de risco, pegar transporte público lotado todos os dias também é. Porém, pelos olhos inquisidores e seletivos uma prática está compreendida como aceitável e irremediável, a outra não.

Por quê?

(Por que fomos ensinados que o trabalho vale todo nosso sacrifício e suor e para nossos pequenos prazeres, não?)

Se sexo é assunto preponderante entre solteiros, o dilema também é vivido por casais. Se de um lado, há pessoas sedentas por um parceiro fixo para dividir os dias de isolamento e libido, por outro há casais que estão forçosamente dividindo o mesmo espaço por dias a fio com a mesma pessoa. Essa realidade, tanto para um grupo, quando para outro, podem ser novidade e com ela sugerir diversas problemáticas. Ser [email protected] não garante a prática ideal imaginária do sexo diário e com qualidade... Ao contrario! Muitas pessoas, diante das solicitações atuais com os novos modos de trabalho e convivência podem se sentir extremamente apáticas e/ou resistentes às ideias de sexo.

E ISSO DEVERIA SER TOTALMENTE COMPREENSÍVEL TAMBÉM.

No entanto, o que vemos é um aumento relevante nos números de violência contra mulheres, deste lugar, poderíamos pensar em quantas delas seguem sendo violentadas e estupradas em suas casas, pelo próprio parceiro que se apresenta na vivência narcísica de um desejo voraz e desrespeitoso.

NOVOS MODOS DO SER E FAZER

Há tempos somos obrigados a repensar práticas diante de mudanças e, não faz muitos anos, que o HIV – pensando neste cenário em que o sexo surge como elemento fundamental - nos levou a necessidade urgente de incluir comportamentos no nosso rol de atividades. Vamos pensar que o uso do preservativo, que hoje é tido como algo essencial para qualquer relação, sequer existia! Fomos, diante do medo de uma contaminação, nos podando e pensando estratégias para a prática de um sexo seguro que nos colocasse o mais distante possível do HIV e outras ISTS’s.

(Abro um parêntese para ressaltar que a consciência do uso do preservativo e sua adesão ainda são restritas há alguns grupos, seja por questões morais, religiosas, sociais e/ou econômicas).

De qualquer modo, o que quero anunciar é que possivelmente novas práticas de contato e, consequentemente, o sexo deverão ser analisadas numa perspectiva de custo/benefício.

AS PESSOAS VÃO DEIXAR DE TRANSAR?

Acho pouquíssimo provável que toda uma população se abstenha do risco que o contato com outro envolve (e isso é uma conversa que vai para muito além do julgamento dentro do espectro social), e creio que medidas para redução de riscos é urgente! O fato é dado e, diante disso, o que podemos fazer para que possamos seguir com o prazer dos corpos sem que coloquemo-nos em risco? Na minha percepção, quanto maior o número de estratégias pensadas para o maior número de indivíduos plurais, melhor! Um exemplo do que digo é o sexo entre mulheres, quem pensa em produtos voltados para segurança destas pessoas no âmbito sexual?

MAS ESSA É OUTRA DISCUSSÃO...

Enfim, que possamos pensar sobre nossos corpos respeitando seus desejos singularidades e limitações.


Luana Peres

Ser livre, leve e aberta as possibilidades. Já foi finita. Hoje, através dos seus escritos e delírios, preserva a pretensão de ser infinita e poder transformar o mundo .
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