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Recorte de histórias a formar um composto textual

Ana Célia Ellero

Transformar o mundo real em palavras é utopia, mas escrevê-lo pode ser uma forma de, por alguns momentos, olhá-lo nos olhos.

Caderno de capa dura azul (ou: Do valor das coisas perdidas)

Naquelas linhas foram depositadas confidências sobre momentos complexos, estranhos vivenciados por mim durante uma época passada. O caderno me permitiu rascunhar sentimentos e experiências, sem censura.


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Eu precisava dele naquele momento: o caderno de capa dura azul. Nele estavam esboços de textos escritos em um tempo de minha vida psicológica do qual não sinto saudade, mas que me propiciou formatar palavras, sem medo do que poderia ler depois.

Lembrava-me de tê-lo visto várias vezes em alguma gaveta, o que me deixava tranquila, já que as palavras ali rascunhadas mostravam-se aparentemente seguras dentro da capa dura azul, que, por sua vez, estava dentro de uma gaveta de madeira.

Na noite em que precisei do caderno, contudo, configurando fato prosaico, não o encontrei (chaves desaparecem muito, justamente no momento em que procuramos por elas). Sem a resignação de pensar de que em outro momento – já era madrugada – poderia buscar o caderno com mais calma, passei a revirar todas as gavetas dos móveis do meu quarto, acometida pela irritação de que aquela cena era óbvia demais.

Enquanto vasculhava as gavetas, acendiam-se fagulhas de lembranças dos pequenos esboços que naquele caderno foram depositados. Mais especificamente a crônica, ou o esboço dela, que me fez partir naquela madrugada para a busca do caderno, passou a me parecer algo que, se desenvolvida, poderia ser a melhor história que já escrevera.

O desejo de encontrar o, agora, “precioso manuscrito” foi se intensificando e me deixando cada vez mais aborrecida. Paradoxalmente, achar outras coisas importantes que há tempos procurava não me deixou alegre, e, sim, fez com que eu me sentisse provocada por uma espécie de figura invisível e zombeteira, pois esses valiosos objetos, que pareciam temporariamente desaparecidos, foram facilmente aparecendo: uma edição especial de “Dom Casmurro”, presentes feitos na escola pelos meus filhos, fotografias de um antigo namorado, um par de brincos.

Com irritação crescente, comecei a pensar que a única pessoa que poderia resolver a questão seria minha mãe. Além de ser mestre em achar coisas perdidas, minha mãe nunca deixou de me parecer aquela pessoa que, quando o problema realmente se complica, consegue dar solução a ele.

Mas... e se o caderno procurado tivesse sido jogado fora, por falta de atenção, junto a alguns papéis e outros cadernos com anotações de reportagens para o jornal? Nem minha mãe, então, não poderia me ajudar. Com a boca em bico, peguei o computador e comecei a escrever outra história. O medo de nunca mais encontrar as palavras que um dia confessei ao caderno de capa dura azul, entretanto, não permitia que me concentrasse em outro assunto.

Desliguei o computador e fui dormir pensando no caderno, com a esperança de que, no dia seguinte, ele poderia acreditar no meu fingimento de não mais estar interessada em reencontrá-lo e, então, aparecer para mim.


Ana Célia Ellero

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