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Recorte de histórias a formar um composto textual

Ana Célia Ellero

Transformar o mundo real em palavras é utopia, mas escrevê-lo pode ser uma forma de, por alguns momentos, olhá-lo nos olhos.

Ônibus

Porque, embora o amor possa ser muitas vezes demasiadamente realista e previsível, a fantasia permite o inusitado


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Presa à ideia de um sentimento perfeito que nutrira desde menina, demorou a perceber o que acontece nas histórias reais de amor. Quando isso aconteceu, viu que alguém ali não estava mais no mesmo compasso da música que fora estabelecida inicialmente pelo casal. Aquele que estava ao seu lado passou a se esforçar. Fazia-o apenas para cumprir o seu papel na coreografia de ambos.

Esse modelo de convivência trouxe, assim, contornos diferentes ao afeto dela. Não deixou de amar, nem amava menos; seu amor, no entanto, agora era tomado por um realismo triste.

Ela saiu de casa na quarta-feira, como lhe era de costume, para levar mimos e chá aos moradores do asilo que visitava e de onde saía sempre mais leve e menos culpada por ter uma vida material mais confortável que a da maioria das pessoas.

Terminada a visita, enquanto caminhava para fora do asilo, fez um breve retrospecto de sua vida amorosa, acometendo-se, com isso, de uma incômoda comiseração por si e de uma irritação grande por ter uma personalidade frágil. O que fazia dela uma pessoa afetivamente subjugada?

Caminhou do asilo até o ponto de ônibus, absorta em tais pensamentos, que foram interrompidos com a proximidade do coletivo. Por pouco, o motorista não deixou de ver quando ela sinalizou para que ele parasse.

Ao subir os pequenos degraus de entrada, percebeu o grande número de passageiros que se espremia no interior do veículo. Foi se ajeitando entre os pequenos espaços e não demorou muito para que um dos assentos vagasse bem perto de onde estava e ela pudesse se sentar.

Próxima a si, notou uma imagem que lhe provocou a fixação de seu olhar. Um jovem, em pé e em evidência por sua exuberância. Quis olhar mais, porém, um repente de autocrítica a fez parar.

Sentindo-se indiscreta, achou conveniente deslocar seu olhar para o livro que carregava naquele dia, um Nelson Rodrigues.

De repente, ao erguer os olhos por cima dos óculos escuros, viu novamente a tal figura, agora mais perto dela. Aquelas formas perfeitas não puderam deter uma disfarçada inspeção: cabelos, olhos, lábios, pele. No braço esquerdo, algo parecido com uma escrita ininteligível.

Percebeu que o rapaz passou a olhá-la, e, então, agarrou-se ao seu livro e fixou os olhos nas letras sem conseguir as ler de fato. Inesperadamente, rompeu com seus pudores e não teve domínio de seus olhos: passou a olhar para o rapaz deliberadamente.

Em meio a isso, começou a fantasiar com o rosto de seu amado assistindo à cena, passivo; naquele momento ele era frágil e desamparado, tinha uma expressão patética. Ela não sabia exatamente se aquela figura de seu companheiro impotente lhe trazia alegria ou culpa, ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Envaideceu-se quando notou novamente a reciprocidade do olhar do jovem, mas logo percebeu que não era essa troca o que mais importava naquele devaneio. O que, sobretudo, a seduzia no momento era a possibilidade de criar suas fantasias. Sentia poder e isso a empolgava; estava longe de se sentir subjugada. O flerte principal era com a retaliação.

A brincadeira lhe pareceu ficar séria quando, em sua fantasia, se imaginou passando a tocar o rapaz. Nesse momento, próximo ao terminal, o ônibus tentou fazer uma ultrapassagem, mas foi interrompido por uma caminhonete que vinha em sentido contrário ao seu, o que provocou um som mesclado de freadas e buzinas.

A rispidez do movimento fez com que ela acordasse abruptamente de seu delírio. Ainda tonta por esse corte brusco, percebeu que muitos passageiros começaram a descer do ônibus. Haviam chegado ao terminal.

No mesmo embalo, ela também desceu. O rapaz prosseguiu com os outros poucos passageiros em direção aos bairros periféricos da cidade. Ela olhou o ônibus se distanciando, com o jovem ainda ali em pé, pendurado no apoio de mão.

Aos poucos, o ônibus foi desaparecendo e, então, ela se voltou para seu livro. Sentou-se em um dos bancos de cimento do terminal rodoviário e começou a ler. Nelson Rodrigues nunca lhe pareceu tão bom. Ficou ali até o início do anoitecer, com um meio sorriso nos lábios. Não tinha vontade de voltar para casa.


Ana Célia Ellero

Transformar o mundo real em palavras é utopia, mas escrevê-lo pode ser uma forma de, por alguns momentos, olhá-lo nos olhos..
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