mosaico

Recorte de histórias a formar um composto textual

Ana Célia Ellero

Transformar o mundo real em palavras é utopia, mas escrevê-lo pode ser uma forma de, por alguns momentos, olhá-lo nos olhos.

Apartamento 213

Imagino a moradora do 213 viajando para locais distantes e sedutores, entregando-se deliberadamente a esse mundo, vivenciando o atrevimento de lugares proibitivos


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Belos devem ser os pensamentos saborosos e devassos que se passam na cabeça da septuagenária do 213 quando ela se entrega a seu mundo. Nem eu, com minha intensa capacidade de me perder em delírios eróticos, creio ser páreo para os pensamentos da moradora do 213.

Sua fixação pelo tema, contudo, não se reverbera em expressa alegria de viver, como poderia acontecer para alguns. Não, ela não nos brinda com a felicidade daqueles que se ocupam com belos pensamentos. Pelo oposto, a moradora do 213 se disfarça com fisionomia amarga e trajes muito sóbrios, que desfila pelos corredores do prédio.

Posta-se na portaria, avaliando quem passa, pelo comprimento da saia, pelo jeans apertado, pela maneira de rir, pela forma como as pessoas se tocam. São também temas de suas avaliações as uniões, separações e situações íntimas de seus vizinhos. O relatório é testemunhado pela porteira que mantém a elegância de permanecer ouvindo-o, sem fazer apreciações.

Uma vez nos encontramos no elevador quando eu estava usando avantajado decote, e ela olhou para meu colo exposto e depois para meu rosto. Nesta ocasião, não houve a clássica conversa de elevador sobre o clima. Não houve conversa alguma. O ambiente era de reprovação contundente para que se estabelecesse qualquer tipo de cordialidade, mesmo a artificial.

Penso nessa mulher quando jovem e tento imaginá-la em cenários que justifiquem sua obsessão. Em vez de imaginá-la como uma personagem de uma vida inteira rígida, penso num mundo de prazeres que lhe foi tirado, sendo isso a fonte de sua amargura manifesta.

Imagino a moradora do 213 viajando para locais distantes e sedutores, entregando-se deliberadamente a esse mundo. Talvez ela tenha passado noites entre amigos alegres, com música, bebida, vivenciando o atrevimento de lugares proibitivos para sua época, o que lhe conferiu uma grande sensação de liberdade. Talvez ela tenha se juntando a um grupo de artistas e poetas que decidiram percorrer várias paisagens. Talvez tenha ousado mais que tudo isso.

No meu mundo das ideias, ela pode ter encontrado sua última grande paixão, se entregado intensamente, deixado a família, fugido, e depois de ser ver subitamente sozinha, tenha retornado para casa. E, então, casou-se, sem paixão, sem amor. Viveu anos compartilhando um cotidiano de horários rígidos: acordar, comer, organizar... Ficou viúva e, desde então, vive só.

Agora, depois que passa o dia na portaria, a moradora do 213 volta para seu apartamento, se tranca, deixando para fora a personagem que nos mostra e que impõe a si mesma até aquele momento. Depois da porta trancada, então, pode viver em seus pensamentos merecidamente quem realmente é.

Imagem: Desenhos Livres do CSDoreteia


Ana Célia Ellero

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