mosaico

Recorte de histórias a formar um composto textual

Ana Célia Ellero

Transformar o mundo real em palavras é utopia, mas escrevê-lo pode ser uma forma de, por alguns momentos, olhá-lo nos olhos.

Olhos vermelhos

Sentiu repulsa, a imagem daquele ser lhe parecia miserável, o resumo da inadaptação.


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Depois de rolar várias vezes na cama tentando inutilmente dormir, Nina se levantou e foi à cozinha vasculhar o armário para encontrar biscoitos doces.

Sem sucesso em sua busca, e sentindo seus olhos pesados, dirigiu-se ao banheiro. Assim que a iluminação tomou conta do minúsculo cômodo, ela se apoiou na pia para se olhar no espelho. Foi quando ouviu um barulho no telhado da casa vizinha e se esticou, através da janela, para tentar flagrar o que estava acontecendo.

Lá estava ele: branco, raquítico, alerta, olhos vermelhos – um gato albino.

Sentiu repulsa, a imagem daquele ser lhe parecia miserável, o resumo da inadaptação. Esforçou-se para conseguir continuar a encará-lo e ambos permaneceram imobilizados por algum tempo. O passo, enfim, foi dado pelo mais forte daquele encontro: saltando para o outro lado do telhado, o gato desapareceu.

Ainda inebriada pela mescla da imagem do gato à insônia que a deixava confusa, Nina voltou para seu quarto. Sentou-se na cama e passou a supor a vida miserável que gato albino carregava naquele corpo configurado em carcaça, de costelas proeminentes. Deveria sair de seu bueiro escuro para lutar por seu alimento somente quando a luz do dia não ferisse mais seus olhos.

Nina esfregou os olhos agressivamente, pois a falta de sono fazia com que ficassem irritados. A partir daí, uma comparação entre ela e o gato albino passou a se esboçar. Era inapta diante da vida, vulnerável diante das pessoas que lhe cercavam. O cotidiano lhe era uma agressão. Acostumara-se a essa sua condição e convivia com uma enorme comiseração por si mesma, todos os dias. Com a sensação de ser um grande blefe, voltava para casa (bueiro?), com o alívio de mais um dia ter chegado ao fim.

Ainda fixada às comparações, Nina entendeu que o gato albino, por sua vez, deu sua demonstração de força quando lhe encarou, e exibiu ímpeto no movimento violento e repentino de saltar do telhado para não ter com ela. Por que haveria de ficar ali submetido a alguém que poderia significar ameaça? Nina se imobilizava com facilidade e, frequentemente, submetia-se. Quando foi a última vez que se opusera?

Nina busca todas as noites encontrar o gato albino no telhado, com a expectativa de quem aguarda uma aparição. Pensa que se isso acontecer, ela poderá levá-lo para sua cama, abraçá-lo, encará-lo em seus olhos vermelhos e aprender com ele. Fantasia que naquela noite em que se viram pela primeira vez ela o acolheu como seu.


Ana Célia Ellero

Transformar o mundo real em palavras é utopia, mas escrevê-lo pode ser uma forma de, por alguns momentos, olhá-lo nos olhos..
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