música ao pé da nota

Apenas uma conversa sobre os sons que andam / ressoam por aí

Luciano Pontes

Músico, matemático, poeta, cinéfilo . Um pouco de cada falta em cada sobra. Vive viajando parado por achar que não é deste mundo.

Hourglass: Amarante sobre o tempo e o espaço

No clipe do segundo single do álbum Cavalo, Rodrigo Amarante explora a ideia do tempo e da provocação interna entre o processo de escrever uma canção, mensurando todo espaço entre o duo e a razão de sermos "animais rituais"


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Não é a toa que Rodrigo Amarante é correspondido biunivocamente como genial. Após o hiato com a banda carioca Los Hermanos em 2007, o músico passou por diversos projetos (Little Joy, por exemplo) até em 2013 lançar seu disco solo intitulado Cavalo. O disco foi bem recebido pela crítica especializada e pelos então já fãs do Ruivo (carinhosamente como é chamado) no Los Hermanos e na Orquestra Imperial.

Em entrevistas sobre seu disco, Rodrigo sempre nos dá a sensação de espaço em seu trabalho solo. Ao mesmo tempo, o duo, o interno. A disputa antiga entre o ser e ele mesmo. Uma questão bem retratada nessa segunda música do álbum, Hourglass. Para bons amantes do tempo e do espaço e de toda a entropia que está contida neles, podemos dizer que Hourglass não é só um prato cheio, é um banquete pronto pra ser servido. Aliás, como a própria definição científica sugere, o espaço-tempo resulta no ponto, denominado acontecimento. As coordenadas sugerem a hora, o local, se ocorreu ou ocorrerá. Então esse acontecimento, pode ser comparado ao duelo entre o "eu estático" e o "eu dinâmico" ou o "eu finito" e o "eu infinito".

Rodrigo-Amarante-Clipe-Hourglass.jpg And when you close your eyes/You’re bound to look inside

O leitor pode ser perguntar: como é que conceitos tão geométricos podem se relacionar com essa música? Daí se tem o que eu posso chamar de geometria da composição. A geometria da composição tem suas arestas definidas apenas pelo limite entre o eu finito e o eu infinito. No momento, na hora em que estou escrevendo, compondo. Essa é a percepção entre o limiar do compositor e seu interno.

É exatamente nesse limiar que encontramos a inspiração. Nessa música podemos ver nitidamente essa busca, incessante pelo desmanchar desta. E tentamos burlar todo espaço-tempo para criarmos algo repentinamente interno, mas como uma dimensão que transpassa qualquer barreira do ego e atinge o outro. O ritual se desdobra, ou se transforma em um transe, uma "hipnose" interna, mas jorrando pra fora. É quando passamos o tempo tentando compor e vem aquela preguiça, porém você pensa: "poxa, eu tenho que terminar logo isso".

Na música, assim como no clipe, tempo e espaço se confundem. As imagens entrelaçadas mostram o desmanchar da luta (que muitas das vezes não termina nunca) entre as duas entidades. Na letra lemos: "And when you close your eyes/You’re bound to look inside/To find the one/You’ve always claimed to miss" que resumidamente fala que quando olhamos pra dentro vemos o outro que achávamos que estava perdido. A perfeição na Geometria da composição, nos vértices onde tudo se liga e o ideário passa pro papel, pro físico. Assim, em todas as composições somos como formas geométricas distorcidas que arrumamos até se parecer com aquilo que queremos dizer na realidade.

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Somos então levados por esse mistério que é o ritual. De sermos animais rituais, virtuais e viscerais. Do conflito interno do algo a se fazer ou pensar. Do encontro das águas (ah, essa é outra música do Amarante, a Evaporar). O tempo e o espaço juntos, como um sistema perfeito nesse processo. A falta ou o excesso deles, é que dá toda a nuance ao "acontecimento". Enfim, deixo vocês com o clipe e apenas uma recomendação: ouçam sem moderação!


Luciano Pontes

Músico, matemático, poeta, cinéfilo . Um pouco de cada falta em cada sobra. Vive viajando parado por achar que não é deste mundo..
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