música ao pé da nota

Apenas uma conversa sobre os sons que andam / ressoam por aí

Luciano Pontes

Músico, matemático, poeta, cinéfilo . Um pouco de cada falta em cada sobra. Vive viajando parado por achar que não é deste mundo.

Alphaville e o Alienista: As "prisões domiciliares" de luxo

"As grades do condomínio são pra trazer proteção, mas também trazem a dúvida se é você que está nessa prisão!" A música do "O Rappa" que se intitula "Minha alma ou A paz que eu não quero" mostra exatamente o que são essas prisões domiciliares "paz de fachada" protegida por um muro.


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O contraste da imagem nos remete ao nosso cotidiano? Provavelmente. O medo de estar provoca então em alguns indivíduos a sensação de que não deveriam estar entre os demais. Geralmente essa causa é por discrepâncias financeiras, o nosso belo capitalismo selvagem. Então criam pra si modelos de bem-estar, fortalezas intransponíveis para aqueles que são dignos. Os condomínios de luxo, os recintos dos abastados. Nosso país está cheio deles. Mas será que essa fortaleza é realmente "um domingo eterno", como aparentam ser?

A decisão foi pessoal. Eu estou nesses dias lecionando para dois meninos em um condomínio de luxo. Da minha região, de longe o mais rico. Minha primeira impressão ao chegar lá foi de estar entrando numa prisão. Carros entravam, saiam e tudo e todos eram fiscalizados. É a famosa "ordem superior", que me chamou atenção. Realmente tive entre a espera pra entrar e a espera do ônibus essas factuais impressões. Eu não teria algum interesse, passado os dias indo e vindo nesse processo trabalhista-enchedor-de-saco.

O problema (ou solução) foi que assisti um vídeo no Youtube sobre exatamente isso: o professor de psicanálise Christian Dunker falando sobre o mal-estar, o sintoma e o sofrimento. Ele usa o nosso país como paciente, subjetivo e fala sobre os condomínios. Sobre o estar como mal-estar. Por quê? Porque estar num lugar onde se segue regras, todos são iguais e você tem uma limitação física e psíquica (o muro, as paredes invisíveis) não é bem-estar. É o que eu chamaria de uma "prisão domiciliar", fazendo alusão à aquele tipo de prisão da justiça, conveniente aos que tem esse direito por "direito".

Nessa mesma vertente, assisti (por recomendação do Dunker) um filme denominado Alphaville de ninguém mais ninguém menos que Jean Luc-Godard (esse mesmo, da música Eduardo e Mônica do Legião Urbana). O filme mostra exatamente como pessoas que vivem em condomínios desfrutando de certas restrições, como exemplo a falta de sentimentos, criam uma pseudo-felicidade: na verdade há uma criação de monstros sociais, na qual Lemmy Caution (Caution Shreks)é um deles, representam nós que estamos do lado de fora (as terras exteriores). O filme é bem interessante, vale a pena conferir:

Depois, fiquei pasmo com a conexão entre isso tudo e o conto de Machado de Assis, intitulado "O alienista" que conta as facetas do médico Dr. Bacamarte, diagnosticando a sociedade em sua cidade, onde colocava as pessoas que tinham algumas manias (os monstros do Alphaville) dentro do manicômio. No final ele fica sozinho na cidade e vem à questão de que se ele é que estava sendo louco por se achar normal. Bem interessante essa colocação.

http://www3.universia.com.br/conteudo/literatura/O_alienista_de_machado_de_assis.pdf

O professor Dunker, em entrevista à revista Carta Capital remete sobre esse processo de criação desses monstros sociais: "Essa nova forma de privacidade, na qual surge a figura do gestor, controlado por regras estritas e murado por sólidas estruturas de exclusão, produz monstros de vários tipos: os “funcionários invisíveis” (usando entradas e saídas especiais), as “mulheres Frankenstein” (que trocaram sua elasticidade pelo desejo infinito de adequação), “as crianças zumbis” (administradas à base de Ritalina), os “trabalhadores monossintomáticos” (que operam 24 horas por dia), as “maternidades vampiras” (que se apossam dos destinos de seus filhos) e, é claro, os “Caution Shreks”, que somos todos nós excluídos do lado de cá dos muros"

Pois bem, os condomínios são as "prisões domiciliares", lugares onde se estabelecem regras, existe um gestor (na figura do síndico) que tende a manipular seus inquilinos, uma maquina (Alfa 60) que controla todo o sistema. O mais interessante que esse efeito condomínio não é somente expressado no âmbito imobiliário e sim em vários outros pontos da sociedade, como relacionamentos (digamos que o não relacionamento é o Alphaville), na educação (obtenção de metas, tentativa de se igualar o sistema de avaliação mesmo com os notórios distanciamentos) e por aí vai. Enxergo essa privatização da vida, como um processo pessimista da vida como um eufemismo eterno. Um domingo todo dia da semana, como no cartaz propagativo. A exclusão mora na exclusão e não há como se tornar as diferenças algo singular e quantitativo. Devemos nos trabalhar enquanto diferentes e nos afirmar como seres sociáveis mediante tais diferenças. Ou iremos nos mecanizar.

Namastê!


Luciano Pontes

Músico, matemático, poeta, cinéfilo . Um pouco de cada falta em cada sobra. Vive viajando parado por achar que não é deste mundo..
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