música ao pé da nota

Apenas uma conversa sobre os sons que andam / ressoam por aí

Luciano Pontes

Músico, matemático, poeta, cinéfilo . Um pouco de cada falta em cada sobra. Vive viajando parado por achar que não é deste mundo.

Nebraska: as histórias de Springsteen

Em 18 de Setembro de 1982, nascia Nebraska, um dos álbuns mais sombrios e misteriosos de Bruce Springsteen. O álbum, gravado em sua maioria de forma caseira, mostrou ao mundo outro lado do The Boss, algo que grandes mestres como Bob Dylan, David Bowie conseguem fazer bem: surpreender os que esperam algo de marasmo em seus trabalhos.


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Depois de lançar seu quinto álbum com a E-street band, intitulado "The River", Bruce Springsteen se lança em um projeto ousado para um Rockstar: lançar um disco violão e voz, já que a gravadora Columbia (ou como qualquer outra) esperava sempre um grande hit para vender mais. The Boss (ou O chefe, assim como Springsteen é conhecido), reza a lenda, perguntou a alguns de seus técnicos de som se poderia compactar algo para se fazer uma gravação caseira. Resultado: uma mesa com apenas quatro canais. Era o suficiente para os planos do Boss.

Em termos técnicos, uma mesa com apenas quatro canais restringe muitas possibilidades. Por exemplo, violão e voz eram gravados de uma só vez, captados por dois microfones. Em algumas das canções do álbum é que vemos uma gravação percussiva ou uma guitarra ali, acolá. Eureka, estava concebido o disco. Em setembro de 1982 eis a surpresa para os críticos desavisados. Nebraska mostrou outro lado de Springsteen, algo mais Folk, simplista e sem muita "eletricidade" nas faixas.

O interessante é que em The River podemos notar, ainda, que Bruce andava com os fantasmas de seu relacionamento distante com seu pai, ou seus relacionamentos amorosos. Em Nebraska, vemos claramente que essa linha de pensamento aparece em algumas faixas. Em contrapartida, esse álbum é como se fosse um livro de contos, isolados ou não, sobre personagens fictícios e reais. Por exemplo, em Johnny 99 temos a história de um trabalhador que é demitido e após ficar bêbado, mata o atendente do bar. Condenado, pega 99 anos de prisão (daí o 99).

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Em Mansion on the hill, The Boss nos faz viajar em lembranças de quando ele era garoto e ia visitar seu pai em um rancho. Essa música foi a primeira a ser concebida por Bruce, em 3 de Janeiro de 1982, juntamente com algumas outras que iria completar o álbum. Outra que podemos perceber esse mesmo intento é My father's house , em que lembranças do duro relacionamento com o pai voltam a tona.

Já em Atlantic City, Nebraska, Open all night, Highway patrolman , vemos a facilidade do Boss em contar histórias. Nebraska, que leva o nome do álbum, conta a história de Charles Starkweather, que em 1958, junto com sua namorada Caril Fugate, cometeram 18 assassinatos em Nebraska (detalhe que os dois tinha 18 e 14 anos, respectivamente). O nome da música seria "Starkweather", mas por motivos óbvios não aconteceu. Atlantic City conta sobre brigas entre gangues dos cassinos em Atlantic City, cidade mais pobre de New Jersey. Open all night conta a história de um rapaz que dirigi a noite toda para encontrar sua garota (originalmente, o nome dessa canção era "Wanda"). Em Highway patrolman, vemos a historia de um policial rodoviário que tem dificuldades com o irmão que vive infringindo a lei.

É um pouco chato saber que alguns artistas são conhecidos apenas por alguns de seus álbuns. No caso do Boss, "Born in the U.S.A" ainda se mantem como carro chefe das pessoas que o escutam (eu chamo isso de efeito "Anna Júlia" em menção a canção dos Los Hermanos). Curiosamente, Nebraska foi quem antecedeu Born in the U.S.A., mas com uma vertente conceitual totalmente diferente. Isso é que faz do Bruce e de tantos outros grandes expoentes da música pop, indie, folk. São como eles não esperam a onda vir e sim surfam nela antes.

Sem mais delongas, deixo vocês com o álbum. Namastê.


Luciano Pontes

Músico, matemático, poeta, cinéfilo . Um pouco de cada falta em cada sobra. Vive viajando parado por achar que não é deste mundo..
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