música ao pé da nota

Apenas uma conversa sobre os sons que andam / ressoam por aí

Luciano Pontes

Músico, matemático, poeta, cinéfilo . Um pouco de cada falta em cada sobra. Vive viajando parado por achar que não é deste mundo.

Rudderless: O caminho de volta começa com um acorde

Em seu primeiro filme como diretor, William H. Macy (Fargo) nos mostra o universo de um pai que após a perda dramática de seu filho, encontra forças através das composições deixadas por ele. Rudderless mostra um outro viés do luto, onde a música pode mostrar o que realmente as pessoas são e o que elas sentem, além de transformar quem as escutam.


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Primeiramente, em parênteses, quero deixar claro que não procurei logo esse filme simplesmente porque não sabia de sua existência. Alertado por um amigo com nome de artista (Djavan, amante da música e do cinema assim como eu), meu fim de ano não poderia ter sido em melhor companhia.

O filme conta a história de Sam (Billy Crudup), que após um sucesso no trabalho, liga para o filho Josh (Miles Heizer), um jovem universitário que gasta suas horas compondo e gravando suas composições. O furo no encontro é interrompido por uma notícia na TV, que mostra um tiroteio na universidade, onde seu filho se encontrava entre as vítimas. Abalado, Sam não consegue mais retomar sua rotina e após dois anos do ocorrido, se vê morando em um barco e trabalhando como pintor em uma casa. A trama começa quando a Mãe de Josh, Emily (Felicita Huffman) entrega a Sam algumas coisas deixadas por Josh, entre elas suas gravações. Sam as escuta e decide tocá-las, mas é ouvido por Quentin (Anton Yelchin), que insiste para tocar as musicas que pensa ele que são de Sam. A partir dai eles montam uma banda (o nome da banda é Rudderless). O final é realmente surpreendente, vale a pena conferir.

Rudderless poderia ser sim mais um clichê daqueles que enjoam após meia hora passadas da trama. E ainda mais por se tratar de assuntos tão complicados, entre eles as relações conturbadas entre pais e filhos. Mas, o filme mostra um outro modo de enxergar a superação do pai, que resolve memorar seu filho tocando suas canções e, deste modo, passa a conhecê-lo melhor, a conhecer sua vida antes do acontecido. Contudo, o filme possui um tom humorístico, fazendo com que o espectador se divirta e reflita ao mesmo tempo, mesmo tratando de temas sérios. Willian H. Macy (que também atua no filme como o dono do bar), em seu primeiro longa como diretor, acertou.

rudderless.jpg Billy Crudup, Selena Gomez e William H. Macy em entrevista ao festival Sundance

Dois pontos fortes do filme, os quais gostaria de destacar: as atuações de Crudup e Yelchin, bem consistentes e convincentes. Nesse mesmo segmento, destaque para Selena Gomez que, no papel da namorada de Josh, foi fundamental para o desfecho da trama. Laurence Fishburne (Matrix, quem diria?) também fez uma excelente atuação como o dono da loja de instrumentos musicais. Aliás, esse é o segundo ponto forte do filme, sua trilha sonora excepcional. As letras nos fazem mergulhar no universo de Josh e se explicam por si mesmas. Além do mais, quando Sam as interpreta, trazem consigo outra visão/versão do protagonista, como se ele incorporasse também seu filho. Destaque para as canções Home, Real Friends e Sing Along .

Rudderless foi concebido com a "merreca" de apenas US$ 2 milhões, e foi gravado em apenas 25 dias, no Estado do Oklahoma, EUA. Macy disse que para um viajante inexperiente, o maior desafio foi ficar dentro do orçamento e mostrar na trama toda sua musicalidade. Lembrando que a maioria dos vencedores do Sundance Festival foram grandes vencedores dos Oscares por aí afora, como Pequena Miss Sunshine (2006) e Indomável Sonhadora (2012). Além disso, grandes estúdios observam os filmes independentes nesse festival para comprar seus direitos, como foi o caso do filme Whiplash, comprado pela Sony por US$ 3 milhões.

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Enfim, Rudderless é um filme daqueles que você tem que rever pelo menos três ou quatro vezes, pois o conjunto da obra realmente é tocante do inicio ao fim. Realmente, Macy tem um próspero futuro pela frente, pois seu grande pontapé atingiu em cheio minha alma. Quem ver, verá o que eu estou dizendo. Só sei de uma coisa: o caminho de volta começa com um simples acorde. Acorde.

Namastê


Luciano Pontes

Músico, matemático, poeta, cinéfilo . Um pouco de cada falta em cada sobra. Vive viajando parado por achar que não é deste mundo..
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