música ao pé da nota

Apenas uma conversa sobre os sons que andam / ressoam por aí

Luciano Pontes

Músico, matemático, poeta, cinéfilo . Um pouco de cada falta em cada sobra. Vive viajando parado por achar que não é deste mundo.

A casa de Ítallo

Em seu primeiro disco solo, Ítallo nos convida para sua "Casa". A cada música, adentramos nessa residência onde as paredes são pintadas de histórias, de sentimentos, de arte. Já é um dos grandes nomes da música brasileira (sem rasgação de seda, rsrs)


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Por onde começar? Vejamos: O ano era 2006. Estavamos na extinta oitava série, na Escola Padre Jefferson. A sala: 8º A. Dividida por dois polos, o da direita e o da esquerda. Comecei na direita, com os famigerados "babacas" (desculpem se algum amigo meu daquele tempo ler isso e se incomodar, mas é a verdade). O lado esquerdo era dos caras da outra escola que tinham se realocado lá. Dentre esses, um menino meio estranho, aquele estilo skate vibration e tal. Comecei a ir pro outro lado (eu sempre odiei a direita) e conversando com aquelas pessoas dali vi o quanto eu estava no lado errado e ali era o lado certo. Pois bem, Ítallo se tornou meu amigo nesse ano, nessa coisa de conversar sobre Nirvana, Charlie Brown Jr. e, acima de tudo, sobre arte.

Saímos dali e fomos estudar no Quintella Cavalcanti. A amizade se fortaleceria nesses três anos de ensino médio. Vivemos as aventuras mais possíveis e impossíveis que alguem poderia imaginar. Mudamos de turno no segundo ano, acho que foi o ano que menos vi o Ítinho Alagoano (assim chamado pelo seu avatar "super craque" no PES). No terceiro ano, ainda estavamos ali, conversando e nesse mesmo ano formamos nossa primeira banda (a história dessa fica pra depois), a inesquecível Senhor Samm (se ler rápido, parece sem noção). Brigamos tanto sobre coisas que só meninos de banda brigam que nos afastamos um pouco. Passei no vestibular e mudei de cidade. Parecia o fim típico de sessão da tarde para uma grande amizade.

Casa 2.jpg O dono da casa, Ítallo

Que nada! Em 2013, ele me mostra o esboço do projeto que marcaria pra sempre minha vida e a dele (Rodrigo e Talysson, da Senhor Samm, também). Era sobre um projeto musical, misturado com poesia, que receberia o nome do seu blog, Alfabeto Numérico. As gravações se iniciaram. Eu participei de algumas delas e pouco tempo depois estavamos nós fazendo nosso primeiro show em Maceió, abrindo pro Cícero Rosa Lins, o cara que estava nas nossas referências com o seu disco "Sábado". Brigamos ainda mais, somos um caso irremediável de amor-ódio. Eu vivi outras coisas até chegar aqui e como Ítallo é e sempre será meu irmão de outra mãe, acabamos de novo nos aproximando.

Construí esse texto assim como ele construiu esse seu primeiro trabalho. Tijolo por tijolo, o acabamento, as plantinhas no quintal. Os alicerces dessa casa estão bem fudamentados, tal como nossa amizade. Não participei dessa construção diretamente, não mexi sequer a massa ou carreguei uma telha. Mas tenho certeza que estou em qualquer parede dela, como uma lembrança perpétua sua, o cara que ia pra sua casa encher o saco pra aprender violão.

14741090_1107171369359120_1129123513_n.jpg Ítallo e eu ali no fundo (azul) no nosso primeiro show com a Alfabeto

Vou apenas falar sobre uma música em especial. A sombra no pé de mangueira. Sempre quando ia na casa (a física) do Itinho, nunca ia no quintal. A gente conversava (ou nas raras aparições dele por aqui, conversa) na sala ou no seu quarto. Eu apenas via de canto de olho o tal pé. Mas nesses últimos dias vi que ele não estava mais lá. Uma pena. Lembrei que nunca fiquei embaixo do pé de mangueira. E então vi um tempo que se foi e não voltaria mais, assim como nosso tempo no São Luiz. E então chorei as lágrimas mais sinceras dos meus vinte e cinco anos. A música tinha me tocado.

Essa é a sensação que temos ao ouvir o disco. Ele nos faz entrar na casa de Ítallo. De pegar uma xícara de café e tomar, ouvindo as histórias da Dona Nina, do Zé. De ver como Ítallo se tornou um proprietário grande. Que ainda vai crescer mais. Eu espero estar por aqui, crescendo junto. Difícil demais escrever sobre um disco a qual parece que estou dentro, pois de fora enxergo melhor. Não prolongarei mais minhas parcas palavras. Eu sou sortudo por ser seu amigo, por ter aprendido tudo que aprendi. Apenas te amo e você é um dos caras mais incríveis desse planeta. A direita que eu estava e fui pra esquerda agora é pra frente. Obrigado!

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Ah, mas é claro, ouçam o disco e entrem também na casa. Ela é grande, cabe todo mundo. Abraços!


Luciano Pontes

Músico, matemático, poeta, cinéfilo . Um pouco de cada falta em cada sobra. Vive viajando parado por achar que não é deste mundo..
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