música ao pé da nota

Apenas uma conversa sobre os sons que andam / ressoam por aí

Luciano Pontes

Músico, matemático, poeta, cinéfilo . Um pouco de cada falta em cada sobra. Vive viajando parado por achar que não é deste mundo.

Pink Floyd: os discos setentistas

Pink Floyd se consagrou como uma das maiores bandas de Rock Progressivo do planeta. E sua história muita das vezes remete a roteiros cinematográficos e/ou novela mexicana. E na década de 70 houve um turbilhão de acontecimentos que definitivamente marcaram a trajetória da banda. Os seis discos setentistas e suas curiosidades são a prova viva disso.


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Pink Floyd é considerada por muitos como o maior expoente do gênero progressivo inglês (embora haja mil outras bandas inglesas que estão no mesmo patamar sonoro, como King Crimson, Yes, Emerson, Palmer & Lake, mas não tão conhecidas pelo grande público). A banda vivia um momento de transição aguda no inicio da década de 70, com a saída de Syd Barrett do grupo e a entrada de David Gilmour. Barrett era até então a grande alma da banda, tanto pelo seu experimentalismo sem pudor quanto pela sua genialidade. Gilmour, que ensinou Barrett a tocar guitarra, foi o sucessor "a altura" do ex-vocalista e guitarrista.

O primeiro disco da banda da década foi Atom Heart Mother, de 1970. O disco é conhecido pela vaca que ilustra sua capa, sendo conhecido como "disco da vaca". Mas o que nem todos sabem é que a vaca da capa é uma rês Lullebelle III, que é um cruzamento entre as raças holandesas e normandas, já as da contracapa são apenas normandas. O dono do animal lucrou nada mais nada menos que mil libras pelos direitos de imagem.

Ainda retendo uma influência de álbuns anteriores, como Ummagumma e A Saucerful of Secrets, o disco contém faixas progressivas como Atom Heart Mother, contendo sete peças e completando todo o lado A e Alan's Psychedelic Breakfast, com quatro peças no lado B. O álbum foi feito em contribuição com o compositor britânico Ron Geesin. Foi o segundo disco sem nenhuma participação de Barrett.

st2.jpg A capa de Atom Heart Mother, com a rês Lullebelle III

O segundo foi Meddle, de 1971. Considerado como um dos melhores discos do quarteto, é marcado pela transição dos "excessos" sessentistas e músicas mais "polidas e consistentes" (Allmusic sobre Meddle). Foi também o marco para a banda receber notoriedade mundial nessa década. A faixa que mais se destaca no disco é Echols, proveniente dos quatro integrantes, mas foi concebida por Richard Wright. A maioria das letras ficou a cargo de Rogers Waters.

O álbum foi considerado mais "inteligível" que Atom Heart Mother, embora haja uma finalidade de melodias. O efeito sonoro de vento que emenda as faixas foi introduzido nesse disco, fato que voltaria acontecer nos discos seguintes até mesmo fora da década como em The Divison Bell e The Endless River. Na faixa Fearless, podemos ouvir a torcida do Liverpool cantando "You'll never walk alone", que se tornaria o hino do clube mais tarde. Echols faz menção à obra de Stanley Kubrick 2001: um odisseia no espaço, chamada de "Jupter and beyond the infinite" e sendo nome também de uma compilação de 2001, contendo algumas faixas editadas do disco.

pink_floyd_-_meddle.jpg "Meddle está entre os meus favoritos. Para mim foi o princípio da caminhada do Pink Floyd"-David Gilmour em entrevista em 1988

Chegamos ao terceiro, o famoso The Dark Side of the Moon, de 1973. O disco é um dos maiores sucessos da banda, sendo sua capa um prisma com um feixe de luz transpassando-o que segundo Alan Parsons, produtor do disco, mostra a complexidade da banda em contraste com a simplicidade com que é vista. De fato, o disco é marcado pela introdução de efeitos sonoros bastante complexos para a época, vide o single Time em que relógios são tocados simultaneamente e uma pessoa está correndo ao redor de um microfone.

Os temas que aparecem na obra são variados, como cobiça, envelhecimento, doença mental. A faixa Brain Damage seria uma alusão ao acontecido com Syd Barrett em 1968, quando deixou a banda por conta de sua saúde mental. Algumas faixas como Money e Us and Them foram apresentadas ao público antes do lançamento do disco. Uma curiosidade bastante relevante é a de que o filme O Mágico de Oz e o disco estariam sincronizados, sendo que se você iniciasse o disco e o filme simultaneamente, algumas cenas do filme se corresponderiam com as faixas do disco. Os integrantes, em entrevista à MTV em 2002, desmentiram a teoria.

download.png A famosa capa de "The Dark Side of the Moon"

Seguindo, chegamos em Wish you were here, álbum de 1975. Essa disco, como seu antecessor, retrata temas bastante variados, como a ausência, a industria fonográfica e novamente a deterioração da saúde mental de Barrett, homenageado por Waters na enigmática Shine on You Crazy Diamond. O próprio Barrett visitou a banda no Abbey Road enquanto gravavam o disco, não sendo reconhecido de imediato pelos integrantes pela mudança drástica em sua aparência. Fica claro que ao escrever todo o disco, Roger Waters sente saudade da parceria com Barrett, apelidado de "Crazy Diamond" (daí a referência).

"Shine On" é a porta de entrada para Welcome to the Machine, crítica à industria fonográfica da época, que segundo Waters "como a porta que abre na introdução" foi um descobrimento do capitalismo em relação a arte musical, interessando apenas o lucro e não a arte em si. O uso de sintetizadores no disco foi ainda marcante como no anterior. O disco foi um sucesso de vendas, 13 milhões no mundo inteiro, sendo 6 milhões só nos EUA. Fato curioso é que faltaram cópias para a demanda do disco. (Meu amigo Claudio disse que a capa representa um homem no céu em contato com um homem no inferno, pegando fogo. Nunca pesquisei sobre o fato, fica em aberto para os leitores).

a-filosofia-do-ser-em-wish-you-were-here.html.jpg Wish You Were Here, 1973

O quinto disco da lista é Animals, de 1977. Álbum conceitual como os seus antecessores, fala da condição de vida na Inglaterra na época, política e socialmente. Também pode se notar uma leve mudança no estilo musical do quarteto. Foi o primeiro a ser gravado no próprio estúdio da banda, a Britannia Row. Também foi o disco que evidenciou as discórdias entre os integrantes, que cuminaram posteriormente a saída de Richard Wright, tecladista da banda.

O álbum é baseado na obra de George Orwell, Animal's Farm, o que se nota em cada faixa com o nome dos animais que se envolvem na trama do livro. Segundo o escritor Mark Blake, em seu livro Pink Floyd: Comfortably Numb (2008) afirma que Dogs é uma das melhores obras de Gilmour, sendo considerada "explosiva". O uso de sintetizadores ainda é marcado no álbum, nesta mesma canção. Pigs (Three diferent ones) lembra muito "Have a Cigar" do disco anterior e faz críticas aos defensores da censura, acompanhados da guitarra blues de Gilmour. O contraste do disco é Pigs on the Wing, uma canção de amor e esperança de Waters, já notando a influência deste por sua então namorada.

Pink-Floyd-EMI.jpg A capa de "Animals" foi concebida por Roger Waters, Storm Thorgerson e a agência Hipgnosis.

E chegamos por fim ao último da década, ninguém menos que The Wall, 1979. O disco tem uma ênfase bastante teatral, chegando a ser adaptado para o cinema. Conceitual, mostra temas como isolamento pessoal e abandono. Podemos perceber nitidamente a influência de Waters em todo o disco, que andava descontente com seus fãs, pensando em criar "um muro" entre eles no palco. As frustrações da vida pessoal do baixista, como a perda do pai na Segunda Guerra, os professores o ridicularizando e a super proteção materna também podem ser vistas, que relatam a história de Pink, protagonista da história.

O disco foi também o ultimo da formação clássica depois de Barrett. Richard Wright decidiu não mais ser integrante, apenas participando na produção e como músico contratado. As brigas com Waters estavam cada vez mais constantes e então o inevitável aconteceu. O disco possui duas partes, onde Another Brick in the Wall, parte 2 se tornou o "carro-chefe" da banda pelo mundo. Outras faixas como Comfortably Numb, referência à Waters quando precisou ser medicado com injeções durante a turnê anterior por conta de uma hepatite, Hey You, Mother, Goodbye Blue Sky, Young Lust, Mother e Empty Spaces são alguns destaques.

maxresdefault.jpg "A parede" metafórica do disco, criado por Roger Waters.

Esses foram os seis discos da década. Dez anos onde muitas coisas se passaram para os integrantes da banda. A história do Pink Floyd parece realmente uma novela mexicana, com altos e baixos em todos os momentos. Isso pode ser um diferencial, que faz dos britânicos uma das maiores bandas já vista - e ouvida - pela Terra. Os seis discos dessa época só vieram a enfatizar isso.

Espero que ouçam e curtam todos essas obras primas do Rock. Namastê.


Luciano Pontes

Músico, matemático, poeta, cinéfilo . Um pouco de cada falta em cada sobra. Vive viajando parado por achar que não é deste mundo..
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