música ao pé da nota

Apenas uma conversa sobre os sons que andam / ressoam por aí

Luciano Pontes

Músico, matemático, poeta, cinéfilo . Um pouco de cada falta em cada sobra. Vive viajando parado por achar que não é deste mundo.

Westworld: estamos brincando de Deus

Westworld é a mais recente aposta da HBO. Baseada em um filme homônimo de 1973, a série traz temas sociais e filosóficos bastante contundentes em meio à nossa sociedade pós-industrial e como o ser humano está querendo burlar as leis naturais e "brincar de Deus".


465_1024x411.jpg

A nova série da HBO está nas pautas atuais de muitas discussões. Westworld sem dúvida foi a melhor série apresentada por este canal desde Game of Thrones. Na produção temos um time de peso: Jonathan Nolan (irmão do Christopher Nolan), Lisa Joy e J.J. Abrams. A história é centrada em um futuro tecnológico onde androides apelidados de “anfitriões” habitam um parque temático chamado “Westworld”. Os visitantes podem fazer o que bem entenderem no parque sem que os anfitriões interfiram. A série recebeu os mais elevados elogios da crítica especializada e já é cogitada como a dominação do Emmy do ano que vem.

O elenco da trama é excepcional: Os monstros do cinema Anthony Hopkins (Dr. Ford) e Ed Harris (Homem de preto), Evan Rachel Wood (Dolores), Jeffrey Wright (Bernard Lowe), Jimmi Simpson (Willian), Luke Hemsworth (Ashley Stubbs), Thandie Newton (Meave Millay), Rodrigo Santoro (Hector Escaton), dentre outros. A trilha sonora, executada em sua grande maioria num piano de um bar dentro do parque, varia de Radiohead à Soundgarden, assinada por Ramin Djawadi (o mesmo de GOT). Lembrando que J.J. Abrams foi o mentor disso tudo, baseando-se no filme homônimo de ficção de 1973. Westworld é impecável quanto as camadas de tramas. Tudo está bem amarrado, Nolan e Joy sabem onde querem chegar. Serão, a priori, 5 temporadas.

westworldcritica.jpg Dolores e o homem de preto

Deixando de lado toda a parte técnica da série, vamos a algumas questões sociais e filosóficas que estão postas no enredo: Somos selvagens por natureza? O que nos torna humanos? O que nos torna civilizados? Qual o limite do progresso? Essas são apenas algumas das perguntas direcionadas que nos levam a refletir sobre o que é posto na série e o quão a realidade está sendo imitada (aquela máxima da vida imitando a arte). Dr. Ford é um bom exemplo disso: Taciturno e sagaz, é o criador de todo o parque e seu conteúdo intelectual e tecnológico, junto com seu amigo falecido Arnold (vocês descobrirão quem é). É o personagem que mais “brinca de Deus”, pois é responsável por toda a narrativa do parque. O homem de preto também, em uma das suas falas, conta como se sente um "Deus" dentro do parque. Aliás, este é o vetor do que o ser humano é capaz num lugar onde não há lei, onde ele é imortal. Logan (Ben Barnes), amigo de William, trata os anfitriões como se fossem meras maquinas, repetindo a frase de que "eles não estão vivos" ou "eles não são reais". Isso evidencia o que somos diante de coisas que julgamos inferiores a nós.

Como contraponto, as anfitriãs Dolores e Meave começam a se questionar sobre sua existência e o que é real e o que não é. Arnold, ao contrário de Ford, acreditava que os anfitriões deveriam ter consciência. Meave vai mais profundo e tenta desafiar seus "deuses", descobrindo toda a farsa e o ciclo de trivialidades. Já Dolores é guiada por uma voz (Arnold) semelhante a nossa consciência em busca de algo fora do roteiro previsto pela narrativa. Outros personagens como Teddy (James Marsden) reativam suas lembranças e começam a "se vingar" de alguns. Essa é a principal diferença: Os anfitriões não podem se lembrar, por isso não tem remorso. Portanto, o simples fato de acumular memórias (que nos androides é mais visível) causa um distúrbio na ordem do parque. OBS: os anfitriões são reutilizados em novas narrativas.

westworld-vitrine-396x222.jpg O brasileiro Rodrigo Santoro, interpretando o anfitrião Hector Escaton

Além dessas, outras questões mais emergem sobre nossa sociedade e o que a tecnologia proporcionará para ela em termos ideológicos e comportamentais. A proximidade com os humanos, os sentimentos, a cognição e todos as demais questões sobre robôs em Westworld liga o sinal de alerta. Talvez a humanidade sempre foi aquilo que é na terra sem lei: egoísta. Ou talvez somos condicionados a isso. São perguntas por hora sem respostas concretas. Mas levar ao questionamento dessas é o papel crucial da arte e a sétima arte tem em Westworld um grande farol destes questionamentos.

Pra finalizar e deixar essa lacuna, aberta como toda boa questão é, vou parafrasear o pintor e desenhista Susano Correia que diz que “As pessoas são assombradas pelos seus próprios fantasmas, seus demônios e bruxas. A pequena parte da nossa mente que podemos acessar é um feixe de luz numa imensidão escura, que se move aleatoriamente. E as criaturas que habitam onde ainda não podemos ver dizem respeito a nós. Compõem uma parte misteriosa e ativa de nossa psique que se manifesta nas lacunas de nossa razão e influencia o trajeto de nosso pensamento.”

(vou deixar, novamente, agradecimento aos amigos Danylo e Romário, por indicarem a série)

Namastê


Luciano Pontes

Músico, matemático, poeta, cinéfilo . Um pouco de cada falta em cada sobra. Vive viajando parado por achar que não é deste mundo..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Luciano Pontes
Site Meter