Flávia Sgavioli

"No que eu escrevo só me interessa encontrar meu timbre. Meu timbre de vida" - Clarice Lispector

A paisagem sonora na visita de Francisco ao Brasil

O endeusamento de um homem eleito pelo Vaticano, para representar assuntos religiosos e sociais mundiais, foi visto nessa última semana no Brasil. Mas você parou para pensar qual o som que o papa fez ecoar nas multidões? Falemos sobre o som do papa, já que -como dizem por aí- o papa é pop e o pop não poupa ninguém.


Uma mistura de gritos desesperados, vozes de ordem dos seguranças pedindo para que a massa se afaste. Em meio a essa confusão sonora, um grupo de vozes femininas e jovens grita em coro à moda bem brasileira: “Papa cadê você, eu vim aqui só pra te ver”. Dentre tantas visitas do papa Francisco aqui no Brasil, o recorte é a visita do pontífice na comunidade de Manguinhos, no Rio de Janeiro.

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Com um fundo musical religioso, acompanhado de algumas vozes emocionadas cantando junto com a canção. E o idioma espanhol sempre presente, como que pontuando o som geral da euforia brasileira. Se a imagem não estivesse sendo apresentada, facilmente pensaríamos que o evento era a vinda de algum artista pop. Curiosamente as vozes mais joviais se sobressaem. E como se o papa fosse um câmera da rede Globo gritos como: “papa, aqui, olha eu aqui”, saltavam aos ouvidos. Um grupo de vozes masculinas gritava: “Francisco, Francisco”. Depois de algum tempo o papa chega em um comício com música ao vivo. A semelhança com um show é muito gritante. A medida que o papa se aproximava, o cantor que já abusava de vibratos e não usava tão bem a respiração, talvez pela emoção, desestabilizou nitidamente sua voz. Mesmo assim, prosseguiu pedindo para a massa cantar, se adiantando às frases, assim como o popular padre Marcelo Rossi o faz.

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É curioso observar a relação de uma citação de Murray Schafer, o compositor e educador canadense, com este evento: “A associação entre ruído e poder nunca foi realmente desfeita na imaginação humana. Ele provém de Deus, para o sacerdote, para o industrial e, mais recentemente, para o radialista e aviador. O que é importante perceber é que: ter o Ruído Sagrado não é, simplesmente, fazer o ruído mais forte; ao contrário, é uma questão de autoridade para poder fazê-lo sem censura” (Schafer, p. 114).

Havia nitidamente poder nessa passagem do papa mais pop de todos os tempos. Francisco tem o ar humilde, sorri o tempo todo, parece ter opiniões mais abertas. Mas não deixa de ser e por isso mesmo, outro ponto curioso, ele foi recebido com euforia barulhenta dos brasileiros. Latino, não parecia assustado. Acompanhamos por quase uma semana completa um homem dançando a música que o povo brasileiro tocou, cantou e berrou aos quatro cantos do país.

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Flávia Sgavioli

"No que eu escrevo só me interessa encontrar meu timbre. Meu timbre de vida" - Clarice Lispector.
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