Flávia Sgavioli

"No que eu escrevo só me interessa encontrar meu timbre. Meu timbre de vida" - Clarice Lispector

Todo o sentimento nas mulheres de Chico.

Em meio a muitas canções sobre aquele tipo de amor que está nos cinemas, nos romances e sendo reproduzido quase que em série nos altares, Chico Buarque opta por cantar o sentimento do ângulo feminino.


Desde seus 20 e poucos anos se dedica a essa função que mostra sua sensibilidade e tato ao desvendar a misteriosa alma feminina. Mas como um bom geminiano ele, o Chico, não precisa necessariamente viver algo para escrever: a imaginação é a principal responsável por tudo.

São tantas músicas que desenham a mulher das formas mais simples e verdadeiras possíveis, desse quase mito da música brasileira, que é fácil se perder com grande prazer em suas canções.

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Em “Teresinha”, por exemplo, ele mostra a fragilidade da mulher e seus amores errados. Embora ela pareça submissa em todas as situações, o sexto sentido feminino está sempre latente. Quantas mulheres estão nessa situação? Se olharmos à nossa volta encontraremos mulheres recém-casadas dizendo: “Ele é difícil, mas é assim mesmo, vamos levando”.

Essa condição dá margens também à canção “Com açúcar, com Afeto”, que descreve uma característica intrínseca feminina: a doação além de todo e qualquer limite. Difícil hoje em dia ver uma relação equilibrada, onde os dois constroem juntos, sem a corda arrebentar para o lado mais fraco. Nem preciso dizer qual é esse lado né? Mas há controvérsias.

Aí chega “Todo Sentimento” com a narrativa da pausa necessária que deve-se dar quando a rotina do "Cotidiano" sufoca. Chamo de narrativa porque Chico não só canta, ele conta!

Coloca também o erotismo na voz da mulher em "O Meu Amor" da maneira mais intensa e natural que poderia colocar. Coisa que, por incrível que pareça, nem todas as mulheres seriam capazes de verbalizar.

Há uma vergonha e uma dúvida embutida em cada mulher em relação à sexualidade.Estamos vencendo esse tabú, mas ainda há um conflito entre a liberdade sexual e a libertinagem e falta de respeito com o próprio corpo. Uma amiga disse um dia que tem a impressão que as mulheres estão confusas, ninguém está sabendo direito como agir e os homens por consequência também não.

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Desconfio que ela esteja certa, as mulheres estão passando por uma fase de transição, nós temos um pouco de todas as mulheres de Chico dentro de nós. A permissiva por demasia, a devota ao marido, a oprimida, a equilibrada. E o feminismo tem colocado todas essas faces em um vulcão em erupção.

Seguimos em dúvida e Chico segue nos desvendando, e vai dizer que não é bom ouvir o próprio eco em meio a tanta musicalidade? Quem nunca se sentiu vingada ou acalentada ouvindo uma música nunca ouviu Chico.


Flávia Sgavioli

"No que eu escrevo só me interessa encontrar meu timbre. Meu timbre de vida" - Clarice Lispector.
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