Flávia Sgavioli

"No que eu escrevo só me interessa encontrar meu timbre. Meu timbre de vida" - Clarice Lispector

Os protestos nas ruas e nas músicas de Tom Zé.

Me perguntava o motivo de cantarmos com entusiasmo músicas que foram verdadeiros hinos para a ditadura militar, uma época que passou e com certeza não voltaria mais. Seria apenas pela musicalidade e um certo saudosismo passado de pais para filhos? Os protestos das últimas semanas provaram que não.


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No início parecia mais um recorte moderno da ditadura, um saudosismo em movimento que ao invés de gritarem: "Abaixo a ditadura" gritavam "Vem pra rua". Na verdade esse pedido parecia uma súplica coletiva de socorro. Iniciava-se então uma nova forma de manifestação.

Digo nova por várias razões. Desta vez não foi preciso uma repressão tão forte para motivar as pessoas a saírem em busca de seus direitos. A frase “Não é só por 0,20 centavos” também era forte. Certamente não foi pelos centavos, mas isso foi o estopim. O bastante para os brasileiros marcharem quilômetros em busca de seus direitos.

Junto com a nova forma de protestar, tendo o Facebook como principal meio de organização, surge outra música de Tom Zé, outro protesto, outra inspiração. E ele com a sua sensibilidade representou toda a população que foi para as ruas com seus versos de “Povo Novo":

A minha dor está na rua Ainda crua Em ato um tanto beato, mas Calar a boca, nunca mais!

Para quem viveu a censura da ditadura deve mesmo olhar esse protesto como um tanto beato, mas o olhar cuidadoso de Tom Zé legitimou ainda mais movimento. As pessoas podem não precisar mais de letras engajadas para inflamar uma manifestação, mas com certeza sentem falta de canções para ficarem na história. Sim, merecemos uma música para esse momento.

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Ele que já inventou, reinventou e se defendeu recentemente de críticas por ter participado de publicidade respondeu da forma mais talentosa que poderia: com um disco inteiro que pode ser baixado de seu site: “Tribunal do Feicebuqui”. (http://bit.ly/efOsZr) Pelos últimos acontecimentos em todo Brasil, tirando a desproporção e euforia exacerbadas que tiraram os protestos de foco nos últimos dias, ficou provado que os versos de Tom Zé, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Caetano Veloso entre muito outros deram resultado. Parece que o país acordou politizado e revolucionário. E quem sabe os versos de Tom Zé e de outros compositores geniais possam mover algo daqui uns vinte e poucos anos.

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Flávia Sgavioli

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