Flávia Sgavioli

"No que eu escrevo só me interessa encontrar meu timbre. Meu timbre de vida" - Clarice Lispector

Nando Reis - O disco como pensamento

Nando Reis já lançou 10 discos na carreira solo, em um ainda era baixista do Titãs. Ele parece ter trilhado muito bem sua vida musical, seja com os Titãs, com Os Infernais ou com diversos parceiros que conquistou ao longo dos anos.


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Mesmo nunca tendo sido um cantor estilo pop star (apesar de fazer um pop que consegue perfeitamente se encaixar na MPB), sempre teve sucessos, alguns hits foram tocados em novelas e ainda estão (neste ano) entre as mais ouvidas no último verão. Pois é, even though ele foi dispensado pela Universal Music: "Eles me chamaram e disseram que eu não era mais lucrativo para a gravadora".

Os sucessos continuam e o seu mais novo disco "Sei" está sendo vendido. Como? Em seu site. Nando viu-se sozinho nessa luta que é vender CD's: "As pessoas não devem achar que o disco é uma coisa desprezível. O disco é um pensamento: o som, a relação interna das músicas, a sequência".

É engraçado essa coisificação da música, sobretudo do artista, que passa a ser ou não um cifrão. Ok, nenhuma novidade até aqui. Mas Nando Reis entrou na brincadeira e precificou seu CD ao invés de o transformar em lucro para alguma outra gravadora. Toda semana o valor do disco varia de acordo com o preço que as pessoas julgam valer. fez questão de coisificar seu novo disco "Sei", lançado no primeiro semestre de 2012. O estilo "vale o quanto pesa" parece ter dado certo, o novo single já chegou a 10.000 cópias vendidas.

Seria esse o caminho do meio para artistas e seus fãs, que não mais querem pagar por quantias exacerbadas de CD's e DVD's mas também não querem prejudicar os próprios ídolos?

Em uma entrevista concedida para o jornalista Marcus Preto, no Espaço Revista Cult, em São Paulo, Nando Reis contou inúmeras histórias curiosas sobre sua carreira, que se misturavam com as histórias de suas canções. O disco para ele é tão importante quanto cada música: "Eu faço músicas porque preciso de músicas para fazer o disco". Como disse Nando, a sequência das músicas acrescenta mais do que ouvir as faixas separadamente.

A intensidade de suas músicas se refletia sobre seu discurso da venda de discos: "Eu tenho que defender o meu mercado de discos, uma das coisas que mais me incomodava era a eterna discussão do preço que eles (gravadora) iriam colocar para vender. Não seria melhor vender trinta a dez?".

E foi esse processo de precificação que Nando Reis seguiu. Em seu site as pessoas dizem o quanto vale o seu CD, que já chegou a 10 mil cópias.

Nando tem uma carreira sólida com músicas sem refrãos e sem a repetição desenfreada nas rádios, mas que viraram hits. Sem muito jeito de falar com o público, segundo ele mesmo, o músico prefere tocar em um show intimista a fazer um mega show.

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Sei

"Há uma coisa central nesse disco, ele reflete um período, há similaridade de enfoque ou de pensamento. A maneira como eu trato, que eu consigo me relacionar. Eu fiz 50 anos agora, eu precisava de novas cores, ele é repleto de novas cores". Uma das músicas é Back in Vânia, que Nando fez para sua mulher.

Back in Vânia

"Vania é minha mulher, com quem eu casei de novo. O título dessa música foi uma referencia à música "Back in Bahia" do Gilberto Gil. Uso a célula rítmica do Back in Bahia, propositalmente, como uma analogia de voltar a uma terra, no caso ele estava voltando para a mulher dele, com que teve quatro de seus cinco filhos".

Composição

"Quando eu escrevo músicas eu tenho necessidade de falar algo para alguém, mesmo que esse alguém seja um pretexto para esclarecer a mim próprio. Mas a pessoa para quem escrevo tanto faz porque a Vânia vira uma terceira pessoa, a pessoa se dilui na música".

Nando sempre escreve para alguém, mas sobretudo sobre os seus sentimentos, sem pensar no significado que isso vai ter, na história da música. É sentimento por sentimento. Deve ser por isso que sempre tem tanto significado para as pessoas, como no caso de "Relicário", que nunca tocou no rádio e é cantada em uma só voz em seus shows.

Vozes femininas

"A voz feminina é a coisa que mais me emociona, isso deve ter a ver com a minha mãe que era professora de violão e cantava, a voz da minha mãe e a voz da Gal, Bethânia tem uma importância na minha vida".

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Cássia Eller- "Em 1997 Cassia me convidou foi tudo o que eu queria". Antes de Nando, Cássia Eller não cantava o que gostava, ainda não era conhecida. Ela o convidou para produzir o disco "Com você meu mundo ficaria mais completo". Se tornaram amigos e a música "All Star" foi feita para ela.

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Marisa Monte - Uma de suas mulheres, quando eles namoravam Nando fez a música "Diariamente" para ela: "foi uma declaração de amor: para fazer o que você gosta, diariamente". Mesmo com inúmeras parcerias de composição e da vida, ele confessou que ainda sonha em gravar alguma coisa com a cantora.

Gal Costa- A musa inspiradora. Nando era apaixonado pela baiana. Um dia ele foi pequeno no show de Gal e ela disse: "Você tem uma cara de intelectual", ele quase morreu.

A valorização da voz feminina deve ser o motivo de casar tão bem as vozes com a Roberta Campos e Ana Cañas nas músicas "De janeiro a janeiro" e "Pra você guardei o amor".

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Ficamos no aguardo de mais uma parceria de duetos que casam perfeitamente, com a Vania, com a Marisa, a Ana, a Roberta, com ele mesmo.


Flávia Sgavioli

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