Flávia Sgavioli

"No que eu escrevo só me interessa encontrar meu timbre. Meu timbre de vida" - Clarice Lispector

O blues de Willie Walker

E o blues? Aquele surgido daquelas vozes genuinamente expressivas? Ele estava presente naquela apresentação em uma noite fria, naquele cantor americano chamado Willie Walker.


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A banda estava lá formada por músicos exímios em um festival de blues internacional em uma cidade praiana brasileira; um guitarrista que exagerava em seus solos, no volume deles e em sua performance, formava um quarteto com baixo, bateria e piano, sim não era teclado, era um hammond muito bem executado por sinal. Ah e diga-se de passagem, nada de errado com os excessos do guitarrista, afinal aprendemos que quanto mais melhor, quanto mais exagerado no palco mais artístico você se torna, mais é notado. Se só houvesse a apresentação da banda eu sairia com uma sensação de: "esses caras tocam muito". Mas isso nada me remeteria ao novo e ao imprevisível. E não tem presente maior do que ir a um show e ir embora com a impressão que visitou outro país, sentiu outros cheiros e conheceu outros sabores.

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Muito bem, depois de 4 músicas instrumentais tocadas entra ele, muso inspirador desse texto; um senhor negro de baixa estatura, com um boné e uma camisa de cetim com o crachá de identificação do evento pendurdado no pescoço, escrito: "músico". E foi exatamente assim que ele se mostrou, um cantor que é acima de tudo músico, que faz música e não exibicionismo. Entrou olhando para baixo, meio acanhado com um riso tímido e abriu a boca! E foi a partir desse momento que o meu devaneio começou. Percorri cada nota que esse homem entoava, como se estivesse dentro do seu canto. E cada movimento desse senhor era preciso, em todos os sentidos da palavra. Foi preciso e era preciso ao levantar a mão, foi preciso e era preciso no momento em que se aproximou do público e disse : "You're beautiful".

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De olhos fechados ele cantou clássicos do blues, de uma maneira que nunca tinha ouvido alguém cantar. A escolha do repertório foi outro ponto certeiro, de músicas lentas às mais agitadas. Ele abaixava a voz em uma dinâmica perfeita. A lógica clichê do menos é mais ficou clara ali. Ficou evidente que o crachá no pescoço, o jeito tímido e o boné não esconderam tudo que Willie Walker tinha para comunicar por meio do seu timbre, do seu jeito de cantar uma música já conhecida e o respeito com a música e com os ouvidos de quem o ouvia. Eu chorei enquanto dançava muito, o som de sua voz me libertava e falava diretamente com a minha alma. Quando cheguei em casa, uma das primeiras coisas que fiz foi procurar o timbre masculino mais incrível que já tinha ouvido ao vivo, para a minha surpresa não havia muito sobre ele. Mas com toda a certeza Willie Walker vai falar muito mais através do seu canto por onde passar, do que através da internet.


Flávia Sgavioli

"No que eu escrevo só me interessa encontrar meu timbre. Meu timbre de vida" - Clarice Lispector.
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